Quarta-feira, Maio 24, 2017
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Ecoaldeias a nível mundial

Soluções locais para problemas globais

Na Global Ecovillage Network [Rede global de aldeias ecológicas] aliaram-se mundialmente, em rede, cerca de 10.000 projectos de aldeia e de comunidade. São comunidades de aldeias tradicionais, partes de cidade ou comunidades de vida fundadas conscientemente, que se decidiram conjuntamente por um caminho de sustentabilidade. Focam-se em cinco áreas: ecologia, sociologia, cultura, economia e formação. Seguidamente, apresentamos quatro destes projetos.


Findhorn_3_Foundation-and-Community

Findhorn \ Escócia

A Findhorn Foundation, na Escócia, é uma das aldeias ecológicas mais antigas. Em 17 de Novembro de 1962, Eileen Caddy, Peter Caddy e Dorothy Maclean, mudaram-se com a sua caravana e os três filhos para um modesto parque de caravanas da baía de Findhorn e plantaram um jardim, para o qual trouxeram conhecimento espiritual e ecológico. Foi como um milagre: em breve cresceram no solo arenoso 40 libras de pesados repolhos, que atraíram tanto cientistas céticos, como “procuradores espirituais”. Vêm cada vez mais visitantes para ver o milagre e, rapidamente, foi necessário criar programas e alojamento para convidados. Foram construídas sete casas de madeira e ateliês artísticos, a que se seguiram um centro da comunidade e um espaço de meditação.

Actualmente, vivem aqui 600 pessoas: 120 membros fixos, que aqui recebem sustento e algum dinheiro de bolso pela sua colaboração, e 500 pessoas instaladas na zona circundante. Findhorn tem a mais elevada densidade de empreendedorismo social na Grã-Bretanha (atualmente 45). A própria Foundation, a instituição no coração da comunidade, tem uma riqueza de cinco milhões de Libras e uma renda anual de dois milhões. Os seus workshops de desenvolvimento pessoal e ações de formação sobre sustentabilidade duram entre alguns dias até vários meses e têm mais de 2000 participantes por ano. A sua pegada ecológica é metade da média britânica e uma das mais baixas no mundo ocidental. A Foundation é uma organização não-governamental registada na ONU, e poucos anos antes da sua morte, em 2006, Eileen Caddy foi condecorada pela rainha pelos seus méritos.

Aconteceu muita coisa neste meio século. Os repolhos estabilizaram num tamanho médio e os milagres parecem ser menos pedidos do que um saudável espírito comunitário. De uma “Alternativa ao Mainstream”, Findhorn tornou-se num “Complemento”: a comunidade aconselha regularmente administrações locais, urbanistas, presidentes de câmara municipal e estudantes acerca da sustentabilidade e capacidade de futuro.


Lakabe

Lakabe \ Espanha

Em Navarra, em 1980, jovens ativistas pela não-violência de toda a Espanha, decidiram ocupar uma aldeia abandonada, para a qual na altura não havia estrada: Lakabe. Como não tinham dinheiro nenhum, construíram com aquilo que tinham. Carregaram durante horas cimento e pedras através da floresta. Mauge, da geração fundadora, conta-nos: “Éramos jovens e tínhamos tido a ditadura e a sua atmosfera seca há apenas um par de anos. Era uma experiência de apropriação radical do poder.”

Eles reconstruíram completamente a velha aldeia e aprenderam a ser uma comunidade. Todos os acordos, que então se fizeram, continuam válidos ainda hoje. Trabalho, dinheiro, decisões – tudo é partilhado. Mas nem tudo foi fácil. O princípio da tomada de decisão democrática de base levava a reuniões intermináveis.

Em contacto com a natureza, surgiu a consciência ecológica e também a sua turbina eólica. Para a construir, carregaram às costas um poste de aço de 10 m de comprimento, durante quilómetros, através da floresta.

Em 1990, foi planeada uma barragem que iria submergir todas as aldeias do vale. Lakabe conduziu os protestos contra este projeto. Muitos ativistas foram parar à cadeia. A barragem foi construída, apesar disso, mas Lakabe estava a uma altura suficiente para não ser inundada. Como, durante a resistência, o grupo tinha assumido um papel de direção, puseram-se em contacto com todos na região, eram respeitados pelos aldeãos e os seus membros eleitos no conselho municipal do vale.

Hoje vivem três gerações em Lakabe, a comunidade é 100% autónoma energeticamente e tem 80% de autonomia alimentar regional. Lakabe tem também uma escola própria e um programa de workshops para convidados que, juntamente com conhecimento ecológico, ensinam métodos de tomada de decisão democrática em comunidade.


©ecovillageithaca.org
©ecovillageithaca.org

Ithaca \ EUA

A ativista ecológica Liz Walker, de São Francisco, ajudou, em 1990, a organizar uma marcha de protesto com 150 pessoas através dos USA. Durante esta marcha, surgiu em muitos o desejo de não regressar à sua anterior vida quotidiana. Liz lançou-se no novo projeto com toda a sua energia. Perto da cidade de Ithaca, no estado de Nova Iorque, encontravam-se as condições ideais. “Não queríamos nenhum projecto de retirada, mas sim de entrada no mainstream. Isso significava, para nós, percorrer o caminho para uma vida sustentável juntamente com a política e as universidades.”

A Ecovillage encontra-se hoje a oito km do centro da cidade de Ithaca, ocupando 71 ha de superfície. Possui três quintas biológicas e duas zonas residenciais “Co-Housing”. “Em conjunto com os urbanistas, estabelecemos um novo conceito de aproveitamento da terra para os EUA”, esclarece Liz. “Através da comunidade e boa vizinhança, as pessoas estão prontas a construir as suas casas cada vez mais próximas. Assim, sobra espaço para jardins, caminhos pedestres, lugares para piqueniques e parques infantis. Este exemplo faz escola.”

Pelas suas casas zero-energia, ganharam muitos prémios nos EUA e lançaram novas medidas, que também são imitadas no mainstream. Estabeleceram, de modo consequente, o conceito da agricultura solidária: os consumidores pagam no início do ano um montante fixo e recebem todas as semanas cestos e caixas com fruta e legumes. Assim, o risco na agricultura é partilhado entre produtores e consumidores.

Liz: “Para mim é uma aventura, viver com 250 pessoas numa comunidade. Nem sempre fácil, pois cada um tem a sua opinião própria. Mas completamo-nos, apoiamo-nos e aprendemos sempre com isso.”


©faveladapaz.wordpress.com
©faveladapaz.wordpress.com

Favela da Paz \ Brasil

Segundo a ONU, o bairro Jardim Ângela, em São Paulo, é um dos bairros problemáticos mais violentos do mundo. Criminalidade, tráfico de droga, gangues de jovens, meninos da rua e pobreza geral dominam a imagem deste bairro. O melhor amigo de Cláudio Miranda foi morto e ele próprio foi preso aos 13 anos numa rusga da polícia. “O polícia apontou-me a pistola à cabeça e queria que eu provasse que sou músico. Tinha de lhe tocar algo no saxofone. Funcionou. Desde então, sei que a música é a energia da vida.” Hoje, o polícia é um dos seus amigos.

Cláudio, o irmão Fábio, a mulher Hellem e muitos amigos dirigem uma escola de música que oferece às crianças da rua uma alternativa às drogas e à violência. Após uma visita a Tamera/Portugal tiveram uma ideia ainda maior. Cláudio: “Chamámos-lhe Favela da Paz *- Slum des Friedens.” A casa de família transformou-se cada vez mais num centro ecológico, com unidade de biogás para cozinhar no telhado, jardins de permacultura nas paredes exteriores e duches solares. Hellem: “Os vizinhos ficaram curiosos. Entretanto, damos cursos de culinária vegetariana e permacultura urbana.”

Reunirem-se e aprenderem, em vez de lutarem uns contra os outros e roubarem, fez escola. Os pais do bairro tratam do pátio da escola e plantam árvores. Revoltaram-se com sucesso contra as destruições planeadas para o Campeonato do Mundo de Futebol. E todos os meses há uma grande festa de Samba.

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