Segunda-feira, Abril 24, 2017
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Como se gere uma autarquia ecológica?

Carlos Bernardes | Autarca ECO

Torres Vedras fica no litoral, 50 km a norte de Lisboa e tem uma localização estratégica para o aproveitamento das energias renováveis. Com 57 torres eólicas, distribuídas por 12 parques, este concelho é autónomo a nível energético e a sua política de sustentabilidade faz com que seja galardoado com várias certificações europeias, ambientais e de sustentabilidade. Carlos Bernardes, 48 anos, está há 20 anos na autarquia e depois de ter sido vereador do ambiente durante 10 anos, assumiu no final do ano passado a presidência da câmara, depois do seu antecessor, Carlos Miguel, integrar o governo nas funções de Secretário de Estado das Autarquias. Num concelho sui generis, com 80 mil habitantes, 20 mil na cidade e os restantes 60 mil nas freguesias, a gestão do município tem sido feita por um homem nascido no meio agrícola. Na cidade, Carlos Bernardes desloca-se a pé ou ao volante das Agostinhas, um sistema de bicicletas públicas urbanas que já recebeu várias distinções, como o Energy Globe Award, um dos prémios ambientais mais prestigiados do mundo.

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É possível gerir uma autarquia de forma ecológica ou sustentável?

Julgo que sim, atendendo aos recursos naturais que o território tem, bem como o seu potencial, temos indicadores de referência de sustentabilidade na área da energia. Torres Vedras hoje, daquilo que é a sua necessidade energética quer para consumo do cidadão quer para o industrial, aquilo que produz do ponto de vista renovável está equilibrado, através das eólicas e do solar. Na vertente social tem uma excelente rede com um conjunto de parceiros que fazem um trabalho relevante em várias áreas e que contribuem para a sustentabilidade.

Temos cerca de 3500 empresas a operar no nosso território, desde a Dona Maria que vende no mercado municipal, até a uma multinacional com cerca de 700 colaboradores que operam no nosso território. Eu diria que Torres Vedras é um concelho que pode garantir a sustentabilidade, aliás, foi isso que levou a União Europeia a distinguir-nos no ano passado como um território ‘Green Leaf’.

Qual é o segredo para esse reconhecimento internacional entre tantos outros prémios atribuídos ao município pela sua sustentabilidade?

Este ano faz 40 anos da implementação do poder local, ao nível da junta de freguesia e das câmaras municipais. Planeando e tendo uma visão estratégica, os resultados têm que vir ao de cima. Na área ambiental tudo começou com o plano municipal de Ambiente, depois evoluiu para a Agenda 21 Local, com um modelo que assenta na sustentabilidade e nos três pilares mais comuns: o ambiente, a vertente social e a vertente económica, aos quais eu costumo acrescentar mais um pilar, que é o modelo de governança. Acima de tudo poder ouvir as comunidades, para que possam participar, e nós, em função disso, podemos implementar essas acções e é isso que temos vindo a fazer em Torres Vedras.

É um território que no seu potencial de recursos naturais é muito diversificado, onde o setor primário tem um papel importante, a vertente das vinhas, dos hortícolas e também a vertente florestal. Hoje o setor primário de Torres vedras é uma referência, numa visão integrada para um território que tem 20 quilómetros de costa e 20 quilómetros de interior. Para além da bandeira azul europeia, do certificado ‘Praias Douradas’ pela Quercus, este é um dos primeiros concelhos portugueses a verem a sua costa marítima classificada com o galardão internacional de turismo sustentável, “Quality Coast”. Para trás ficaram anos e anos de trabalho, desde a despoluição de bacias hidrográficas, áreas terrestres, ou linhas de água e afluentes ao oceano.

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Qual é a importância do comércio local para o concelho?

No mercado municipal de Torres Vedras existe uma diversidade de produtos alimentares vastíssima e todos eles produzidos localmente, isso para nós é muito importante. Para além disso, incrementámos no centro histórico da cidade a Feira Rural, que acontece uma vez por mês à excepção dos 4 meses de inverno, onde temos cerca de 220 operadores, todos produtores da região. O município tem cerca de 3500 empresas, uma dinâmica comercial muito importante mas para além do sector primário, a área do comércio e dos serviços é igualmente uma área relevante, e também aí é importante incrementar sinergias. Neste momento estamos a trabalhar na área da regeneração humana do nosso centro histórico, temos vindo a trabalhar na criação de programas para tornar possível fixar pessoas e empresas nesse local da cidade, e isso está contemplado no plano estratégico de desenvolvimento urbano (PEDU) de acordo com as regras do Portugal 2020.

Tem ideia de quantas lojas ‘chinesas’ existem em Torres Vedras?

Essas lojas têm fluxos. Ainda há quatro anos abriu uma no centro da cidade que neste momento tem anunciado na montra que vai fechar. É a lei do mercado a funcionar. Do ponto de vista global não tem grande influência no território, até porque tem uma certa rotatividade. Hoje está uma loja chinesa e amanhã pode estar outra loja diferente. Sendo que, mesmo nessas lojas, temos operadores chineses que também compram produtos locais. É o que acontece na frutaria que existe aqui nas proximidades da Câmara. O mundo hoje é aberto, não podemos ver isso como um problema. A dinâmica económica vale por isso mesmo e hoje vemos lojas da comunidade chinesa como uma frutaria por exemplo e não apenas com produtos importados da China. O que é importante é que os espaços da área do comércio possam estar ocupados, que apresentem trabalho de qualidade e que proporcionem sinergias.

No seu dia a dia, tem habitualmente práticas ecológicas?

Enquanto cidadão, reciclo em casa aquilo que é possível. Na minha deslocação diária, vivo a cerca de sete quilómetros da cidade, utilizo uma viatura automóvel híbrida para contribuir para a redução de emissão de CO2. Dentro da cidade tenho por hábito andar a pé, sem constrangimentos, e quando tenho necessidade de deslocar-me para pontos mais distantes muitas vezes utilizo a bicicleta, até porque temos o nosso sistema de bicicletas partilhadas, as Agostinhas.

Já enquanto presidente de Câmara mantenho a área de ambiente sobre minha responsabilidade, depois de ter tido a oportunidade de ser, durante dez anos, o vereador para a área do ambiente. E hoje, a área na qual fazemos uma forte aposta é na educação ambiental. Temos o orgulho em ser o melhor município a promover a educação ambiental em Portugal, com base em dados relativos a 2015, como foi certificado pela associação bandeira azul Europa através do modelo do projecto Eco 21. Para nós é importante estar no top nacional, por um lado é um estímulo mas também um trabalho que tem sido desenvolvido e que começa a dar os seus frutos.

Faz sentido investir na prospeção de gás e de petróleo na costa portuguesa, quando as diretrizes são para reduzir as emissões de CO2?

Não vejo com bons olhos a prospeção de petróleo na nossa costa. O nosso território tem recursos naturais, quer ao nível da eólica, quer ao nível do solar, temos alternativas que podem combater a vertente do petróleo. Se queremos fazer um trabalho na redução de CO2 não podemos estar a fazer prospeções de petróleo. Aliás, ao nível de off shore temos condições, através do nosso território marítimo, que passa pela produção de energia das ondas. Precisamos é de um modelo que venha a ser posto em prática. Por exemplo, o cluster que foi criado para a eólica pode ser criado para o solar e para a energia das ondas. Se isso acontecer Portugal tem condições naturais para poder tornar-se numa referência mundial a esse nível.

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A produção de fontes de energia alternativa tem sido uma das apostas do município?

Em Santa Cruz temos um território de demonstração de tecnologia a vários níveis, temos nesse território cerca de sete tecnologias diferentes de produção de energia e de equipamentos eficientes. Ainda recentemente lançámos o primeiro candeeiro de produção eólica que está a iluminar uma via pública (cerca de 30 candeeiros). A nossa aposta passa pela inovação, acima de tudo pela investigação e pelo desenvolvimento. Outra componente, da qual as empresas que têm vindo a trabalhar connosco neste projeto estão agradadas, tem a ver com a salinidade e à necessidade, nomeadamente no inverno, que permite ver como é que os equipamentos resistem à salinidade provocada pela acção do mar, entre outros diferentes projetos. Aquilo que for testado em Santa Cruz, quer ao nível de ventos, quer ao nível de salinidade, passa-se em qualquer parte do mundo e em termos de testes isso é importante.

Com que objectivo foi criado o EcoCampus?

No mês de junho fizemos um lançamento de um EcoCampus que tem como objectivo a promoção de uma plataforma para a economia verde. Apostar na economia verde é apostar num trabalho de continuidade no que diz respeito à sustentabilidade no território de Torres Vedras. Temos já um conjunto de parceiros, ao nível associativo do sector primário mas queremos alargar a outros sectores. O objectivo passa por associar a vertente de uma paisagem protegida à economia verde, associado por sua vez ao modelo do conhecimento, da criação de novas empresas ligadas à economia verde, com relação direta à cidade do conhecimento, através de universidades e institutos de investigação.

A nível pessoal tem ideia de quantas toneladas de CO2 emite por dia ou por ano?

Já fiz uma medição em tempos, neste momento não tenho presente. Nós temos uma plataforma do Centro de Educação Ambiental que define qual é o número de toneladas de CO2 que cada ser humano produz, em função da sua actividade. Neste caso particular, muito sinceramente não tenho esse número de memória. *

E é algo que o preocupa?

Sim, como é óbvio.

Viaja muito de avião? O avião é dos meios de transporte que mais emite CO2…

Tenho responsabilidade enquanto presidente da Câmara Municipal mas também tenho uma outra responsabilidade, sou embaixador do Quality Coast, que é a plataforma para a região sustentável nas áreas costeiras, na qual tenho de me deslocar duas vezes por ano de avião, bem como o facto de fazer parte do Comité Político do Fórum CIVITAS, na qual também tenho de fazer duas viagens de avião por ano, a par de uma ou outra situação em que por vezes há necessidade. Digamos que faço seis a sete viagens de avião por ano, em função também daquilo que são as minhas responsabilidades. Estou a falar de viagens entre Portugal e alguns pontos da Europa.

Qual é o seu sonho de modelo de gestão autárquico?

Eu sou por norma um sonhador, gosto de sonhar e gosto imenso de fazer aquilo que faço. O sonho de que gostaria era dentro das funções que exerço no meu dia a dia, dar o meu contributo no sentido de que Torres Vedras possa ser um dos municípios que possa contribuir para que este nosso planeta Terra seja cada vez mais um planeta limpo, um planeta verde, onde a qualidade de vida dos cidadãos seja igual, em função do ponto de referência que seria Torres Vedras.

Esse é um grande desígnio, tentar trazer igualdade de oportunidades para todos a esse nível e, se conseguir alcançar esse objectivo, estou a dar um contributo significativo. Mas, como é óbvio, havendo a visão, é necessária toda uma estrutura quer ao nível do executivo municipal, da assembleia municipal, de todos os colaboradores do município e dos cidadãos em particular imbuídos deste mesmo espírito. Nós por vezes podemos ter vontade de levar por diante este ou aquele projeto, mas nem sempre conseguimos o consenso para o mesmo. Acima de tudo este é o sonho de Torres Vedras, poder contribuir para os grandes desígnios globais. Acho que isso é fundamental e estou convicto que, não sendo um sonho individual, é um sonho colectivo de uma comunidade que acima de tudo passa por ai, passa por esta localidade ser um elemento aglutinador e agregador. Que possa contribuir para este ecossistema onde todos nós vivemos e de que todos nós usufruímos, essencialmente promovendo a qualidade de vida de todos.

De que é que tem mais saudades?

Talvez de ter mais tempo para mim, para a minha família, para os meus amigos. O trabalho que um presidente da câmara desenvolve requer muita intensidade, disponibilidade e por vezes o lado familiar fica um pouco à margem. Compatibilizar uma coisa com a outra é o mais difícil mas havendo compreensão de um lado e do outro tudo se consegue.

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Quando é que foi a ultima vez que sujou as mãos?

Foi no Ocean Spirit, um evento que realizámos em julho na praia de Santa Cruz. Recordo-me que estava uma lona caída, eu fui apanhá-la para voltar a erguê-la e eventualmente a lona tinha pó, juntamente com a humidade e a terra no solo, fiquei com as mãos todas castanhas.

Quando foi a ultima vez que se sentiu 100 por cento feliz?

Cem por cento feliz é algo que não é fácil responder. Tenho um momento que recordo, foi num dia de férias em que eu, a minha mulher e o meu filho entrámos no ilhéu de Vila Franca do Campo, nos Açores, estava um sol e uma temperatura da água fantásticos e de um momento para o outro começou a chover. Essa foi uma sensação fantástica e um momento de felicidade único. Esse episódio aconteceu já há alguns anos mas ainda agora nas últimas férias, há algumas semanas atrás, estava na praia dentro de água com o meu filho e de repente começou a chover. Isso deu-me uma felicidade enorme, apesar de ver as pessoas a fugir e a sair da água, para mim foi um momento de felicidade enorme. São momentos únicos.

Um autarca também tem sonhos?

Um autarca sonha todos os dias, quer sempre o melhor para a sua comunidade e proporcionar-lhe aquilo que entende que ela merece, qualidade de vida, igualdade de oportunidades. O sonho passa por termos no nosso território pessoas felizes e, se eu tiver no nosso território pessoas felizes, eu sou uma pessoa feliz.

Obrigado.

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