Sábado, Maio 27, 2017
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Cardeal Peter Turkson

“O que Portugal está a passar, é normal nos países em desenvolvimento“.

O cardeal Peter Turkson veio de uma família pobre do Gana. Hoje é um dos homens mais influentes do Vaticano. Em entrevista à ECO123, exorta os países em crise da Europa a moderarem as suas exigências.

O Papa Francisco critica o que diz ser uma “tirania invisível dos mercados” e fala de uma “nova dança do bezerro de ouro”. Não estará a ser um pouco exagerado?

Ele é o meu superior hierárquico, como poderia eu discordar dele? (ri) Mas para ser honesto: naturalmente que o Papa está certo. Desde 2008 para cá que vivemos com a crise financeira, e nada indica que ela venha a desaparecer em breve. Aliás, uma nação após a outra é subjugada. Quanto tempo mais vamos querer ficar a assistir a tudo isto?

Quem, na sua opinião, é o responsável pela crise?

Não quero apontar o dedo a bancos e pessoas individuais. Mas é claro que a crise financeira não é nenhuma catástrofe natural, como um tornado. Os responsáveis pela crise são pessoas que tiveram visão curta nas suas tomadas de decisão, e que queriam lucro rápido. Naturalmente que os aspectos técnicos financeiros também têm o seu papel, mas a crise é humana e ética. Trata-se da falta de padrões morais, e sobretudo de ganância.

O que propõe concretamente o Vaticano?

Devia introduzir-se um imposto sobre as transacções financeiras e entregar as receitas aos países em necessidade. Nós também defendemos a divisão dos bancos universais em bancos comerciais e de investimento tradicionais. Para além disso, as instituições de crédito não deviam reter o dinheiro barato do Banco Central. Elas deveriam injectá-lo na circulação, para que assim a economia possa crescer. Actualmente, o dinheiro nunca é canalizado para onde é necessário.

O Papa Francisco disse que com o endividamento, em muitos países perde-se a ligação com a capacidade económica real. A Alemanha deveria, por isso, perdoar as dívidas de países como a Grécia e Portugal?

O Papa emérito, Bento XVI, na sua terceira encíclica “Caritas in Verita”, propôs a generosidade como um caminho possível para fazer face à crise. Se a Alemanha fosse mais generosa com um membro mais fraco da comunidade, isso seria ir no sentido do pensamento do anterior Papa e recomendável. A economia da Alemanha, até agora, não entrou em colapso. Se mesmo depois de um perdão de dívida poderia continuar com aproximadamente a mesma força, a generosidade não deveria ser tão complicada assim.

Nos tratados para a União Monetária estabelece-se que, nenhum país é responsável pelas dívidas de outro. Para além disso, o anterior governo grego terá falsificado os números para poder entrar no Clube Euro. Muitos alemães não percebem por que deveriam ajudar a Grécia em face destes antecedentes.

Preferem castigar a Grécia? Bem, naturalmente que podem fazê-lo. Mas se querem manter a Grécia na Comunidade Económica e Monetária, isso não irá ajudar, pois a base industrial da Grécia é fraca.

“O Vaticano não vai para países que beneficiam do plano de resgate do Euro. Vamos principalmente para qualquer lugar no mundo, onde a necessidade é grande”

A Igreja Católica em si não é propriamene pobre. Por que o Vaticano não é generoso com a Grécia e doa dinheiro aos estados em crise?

O Vaticano parece rico. Mas esquecem-se no entanto que, milhares de paróquias dependem dos fundos do Vaticano, principalmente em África e na Ásia. Isso leva a que, todos os anos, quando os nossos contabilistas em Roma fazem o balanço anual, nós contemos com donativos para estabelecer o equílibrio e manter a liquidez. Vejamos o caso do Pontifício Conselho “Cor Unum”, que organiza as acções humanitárias da Santa Sé nas regiões afectadas por situações de crises e catástrofes. Eu conheço muito bem o presidente deste conselho e sei com que frequência viaja para países como o Haiti, Venezuela e Síria. E sempre que viaja, leva consigo dinheiro para os mais necessitados. O Vaticano não vai para países que beneficiam do plano de resgate do Euro. Vamos principalmente para qualquer lugar no mundo, onde a necessidade é grande, e procuramos minimizá-la.

Disse anteriormente que a ganância é uma das causas centrais da crise económica…

…Sem dúvida! A ganância prejudica a capacidade de julgamento, ela estraga tudo.

A ganância é inclusive um pecado mortal para a Igreja Católica.

Sim, mas nem todos os banqueiros de Wall Street puxam uma cadeira da igreja aos domingos. Para os não-cristãos entre eles, eu explico a ganância assim: alguém que coloca no seu prato mais comida do que aquela que consegue comer, está a ser gananciosa. Sucede o mesmo com o dinheiro – quando alguém retira mais do que realmente necessita para viver.

No Evangelho segundo Marcos, disse Jesus: “Pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus”. Qual o limite de ganhos ou activos com que eu me deverei preocupar?

A Bíblia não diz que a riqueza é diabólica. Explica que a riqueza pode ser um obstáculo para levar uma vida perfeita e ser-se um bom cristão.

Na Alemanha houve um aceso debate sobre o salário do CEO da VW, Martin Winterkorn, que no ano 2011 recebeu cerca de 17,5 milhões de euros em transferências. Esse valor é grande demais para se ser considerado um bom cristão?

Não se trata de quantias exactas. Até mesmo um euro pode ser demais: algo como quando nos cruzamos na rua com alguém que tem fome, e recusamos dar-lhe um euro com o qual ele poderia comprar algo para comer. A riqueza é-nos dada por Deus, e não deve nunca ser um obstáculo no caminho até Ele. No entanto, é natural que nos possamos perguntar se alguém precisa realmente de 17,5 milhões de euros. O que vamos fazer com tanto dinheiro? Com 50.000 euros também podemos viver maravilhosamente.

Você é o quarto de dez filhos que vieram ao mundo no Gana. O seu pai era carpinteiro, e a sua mãe vendia verduras no mercado. Hoje é um dos homens mais poderosos do Vaticano. Que conselho tem a dar a quem também cresceu numa família pobre?

Que não devem nunca render-se e jamais desesperar. Não devem ter medo do trabalho duro e lamentar-se de terem que sujar as mãos. Quem é originário do meu continente, África, é, muitas vezes, mais persistente e resistente às desilusões da vida do que as pessoas que vêm do hemisfério norte. E gostaria de aproveitar ainda a ocasião para dizer mais uma coisa.

“Se nesta crise os países mais pobres fos sem um pouco mais modestos e os ricos um pouco mais generosos, muito se ganharia.”

Vamos a isso!

O que a Grécia, Portugal e todos os outros chamados países em crise na Europa estão a passar, é normal para muitos países em desenvolvimento. E o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional determinam numa base diária exactamente aquilo que esses países fazem e o que devem deixar de fazer. Os países em causa devem diminuir definitivamente as suas necessidades materiais, e não devem nunca desistir. Se nesta crise os países mais pobres fossem um pouco mais modestos e os ricos um pouco mais generosos, muito se ganharia.

 

 

Biografia:
Cardinal Peter Turkson Peter Turkson vem de uma família extremamente pobre: nasceu em 1948 no Gana, e é o quarto de dez filhos. A mãe vendia verduras e o pai trabalhava como carpinteiro. Entrou para a universidade e estudou Teologia em Amisano e em Nova Iorque. Depois de uma vasta carreira académica em diversas instituições, foi nomeado, em 1992, Arcebispo de Cape Coast pelo Papa João Paulo II. Turkson é há quatro anos presidente do Pontifício Conselho de Justiça e Paz, e é reconhecidamente um dos dez homens mais influentes da Igreja Católica. É considerado um bom criador de redes e tem-se destacado nos últimos anos pelo seu compromisso com as pessoas pobres como “a consciência social do Vaticano“. Após a renúncia do Papa Bento XVI, Turkson era tido como um dos favoritos a seu sucessor. Para algumas agências de apostas de Londres, era já considerado o mais provável candidato.

 

A entrevista foi conduzida por Christoph Schäfer/ FAZ.

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