Segunda-feira, Abril 24, 2017
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Recordar é viver

Käthe Tag | Nunca é tarde para aprender

Käthe Tag nasceu na Alemanha, em 1938, é amante da natureza, e vive hoje no Sul do Alentejo, como alemã entre portugueses. Os seus quatro filhos, Sylvia, Oliver, Svea e Inês visitam-na regularmente. No início dos anos 60 viveu em Paris e em Londres, para aprender Francês e Inglês. Depois da morte prematura do seu marido, em 1981, começou várias formações no campo da medicina, e, depois, abriu o seu próprio consultório de medicina biológica no Sul da Alemanha. Mas chegou uma altura em que achou o país demasiado frio.

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Quando veio para Portugal?

Foi no ano de 2003. Tinha 65 anos de idade na altura. Para viver em Portugal, é muito importante saber falar a língua. Atualmente, frequento a Universidade Sénior de Odemira, e sou a única estrangeira, o que acho uma pena. Gosto de lá estar, porque as pessoas são muito carinhosas. Para além da língua, aprendo a conhecer as pessoas e a sua mentalidade. No curso de “Português para estrangeiros“ também aprendo um pouco sobre a história de Portugal. Um dos nossos professores, o António, que nos deu aulas no ano passado, contou como passou o dia da Revolução dos Cravos em Lisboa. Encontrava-se num estádio, e no céu apareciam continuamente helicópteros, e não se sabia se iriam disparar. Depois, abriram os alçapões e lançaram cravos. Repare, se eu não falasse Português, não poderia conversar com os meus vizinhos. Gosto de aprender. E da literatura. Já faço isto há três anos agora. Mantém-me ativa.

Tem 78 anos de idade. Quando é que compreendeu que queria passar a sua reforma em Portugal, e qual foi a razão?

Eu vivia no Allgäu, a Sudoeste da Baviera. Nesta região, até em junho, ainda era frequente nevar. Eu não sou grande adepta dos desportos de Inverno. Na altura pensei que se tivesse que mudar de casa mais uma vez, iria para um país mais quente. Eu sou terapeuta, psicoterapeuta e consultora para questões ligadas à saúde, e todos os anos participava num congresso em Baden-Baden. Foi aí que conheci outro terapeuta. Chamava-se Gregor e tinha comprado uma casa no Sul da Europa. Ele perguntou-me uma vez se não teria vontade de lá ir com ele. “Eu vou lá com a minha companheira, e se tu quiseres, podes vir connosco“. Foi assim que eu conheci Portugal. Sol todos os dias em fevereiro. A princípio foi difícil, porque eu não compreendia ninguém.

Como começa o seu dia?

Sou uma pessoa que gosta de acordar cedo. Antes do pequeno-almoço pratico desporto. Depois estudo Português durante duas horas. Ao meio-dia começo a cozinhar, gosto de comer alimentos crus, mas não só. Também cozinho muitos legumes do meu próprio jardim. Em Milfontes há um pequeno mercado que vende coisas biológicas. Sinto-me muito bem integrada. Tenho vizinhos portugueses que são praticamente autosuficientes. Fazem o seu próprio vinho e o seu próprio azeite. Eu cultivo grão de bico. Quando vou lá para comprar tomate, eles oferecem-mos. Depois, sequei o tomate. O que eu não gosto são doces. Não como açúcar, chocolate. Cresci na antiga Alemanha Democrática, e ali havia poucos doces. Por isso não me custa. Com 18 anos vim pela primeira vez para a parte ocidental. Mais tarde, quando vivi na Suíça, havia chocolate tão bom. Depois de dois anos tinha dado cabo dos meus dentes. Gosto de comida forte. À tarde faço, por exemplo, uma sesta. Também gosto muito de costurar. Depois, ao fim da tarde, rego o meu jardim e no final do dia dou um passeio pela floresta ou vou a casa do vizinho.

Tem televisor?

Não. Oiço rádio e leio muitos livros.

Gosta de línguas e demonstra com elas a leveza do seu ser. É isso que gosta de fazer?

Facilita muito a vida. Fiz os meus diplomas em língua francesa em Paris e o de Inglês em Londres. Neste momento, frequento a Universidade Sénior de Odemira uma vez por semana. Vivo de forma muito simples, ando pouco de carro, e procuro prejudicar o meio ambiente o mínimo possível. Já nos anos 70 li o “Relatório do Clube de Roma”. Viver com peso e medida tornou-se o meu lema. Poucos anos depois da morte do meu marido estava sozinha com quatro filhos. Na altura, tornei-me membro dos Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear. O meu interesse pelo meio ambiente enriquece a minha vida. E, por outro lado, retirou-me dos pensamentos centrados em mim e no meu luto.

Se o Gregor não tivesse ido consigo para Portugal, mas sim para a Itália, hoje talvez vivesse na Sicília em vez de viver no Alentejo?

Sim, foi um acaso que me trouxe para Portugal. Até porque todas as outras boas experiências que vivi em Portugal foram mais tarde. Será sorte? Por exemplo, não ter dores no corpo? É da alimentação saudável. Se como carne, só como muito pouca. É importante ter em atenção o equilíbrio ácido e alcalino do corpo. Ter um teto e bons contactos sociais também faz parte da felicidade. Mesmo se o meu Português não é perfeito, pelo menos consigo conversar com as pessoas. Isso para mim é a felicidade. O que queremos mais? Sempre mais, e mais, e ainda mais… Para onde é que isso nos leva? Fico feliz só por ver as cores das flores de manhã.

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Como idealiza os seus próximos anos?

Quero ter saúde e poder viver mais alguns anos na minha quinta. Há 40 anos que não tomo medicamentos convencionais. Por ter 15 anos de experiência de medicina alternativa na Alemanha sei como me tratar a mim própria. E continua-se a aprender até ao fim da sua vida…

Os alemães não são considerados pessoas fáceis. Qual é o seu sentimento como alemã em Portugal?

Os alemães são considerados pessoas de confiança…

A sua geração ainda viveu o fascismo. Sendo alemã, ainda sente a responsabilidade pelos crimes que a Alemanha cometeu no século passado?

Refere-se à guerra?

Também aos crimes contra a humanidade. Os milhões de pessoas que foram assassinadas pelos alemães: judeus, ciganos, homosexuais, comunistas, pessoas com problemas psíquicos… como viver com esse fardo?

Eu era uma criança quando isso se passou. Não participei nesses crimes. Para mim, é importante viver com sentido de responsabilidade. Não sou conservadora. Tenho a impressão que o passado alemão já foi trabalhado. Também tem essa impressão?

Quando ainda vivia na Alemanha, presenciei até aos anos 80, juízes e políticos nazis que se mantiveram ativos durante 35 anos, como se nada se tivesse passado, até que foram descobertos: Filbinger, por exemplo. Por isso, como alemão, pergunto-me, quem sou? Quando hoje falo com alemães de mais idade, pergunto-me como se pode suportar esse „business as usual“ depois da guerra?

É uma pergunta difícil. Teria que refletir um pouco sobre isso. Nós, os alemães, somos, por vezes, como hei-de dizer, arrogantes. O que me incomoda muito na Alemanha é que ela está novamente a vender tanto armamento. Para mim, o facto de a Alemanha estar a receber tantos refugiados nestes últimos meses é uma coisa boa.

O que podem os alemães aprender na sua vida em Portugal?

A exprimir de simpatia, carinho, vontade de ajudar, compaixão e humildade.

Humildade, Saudade? Palavras inexistentes na língua alemã?

Sim, há algo ali que nós alemães não conhecemos. E quando estou num desses convívios, sinto-me terrivelmente sóbria como alemã. Todos cantam, dançam, comem e bebem. É bom poder sentir isso na minha idade.

Obrigado pela sua sinceridade.

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