Segunda-feira, Abril 24, 2017
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Comboio CP

No comboio nocturno para Lisboa

Vivemos com o Euro. Mas há algo mais que nos une? Desde o segundo Acordo de Shengen que podemos viajar livremente no espaço europeu. Os nossos sonhos de mobilidade parecem ser ilimitados. Ícaro e o Tapete Voador tornaram-se vulgares. Porém, a viagem inaugural do Titanic mostrou-nos quão vulneráveis nós, humanos, somos sempre que tentamos bater novos recordes e ignoramos as leis da natureza. A chegada do Homem à Lua em 1969 foi o preliminar de um ponto alto da nossa história. Mas pouco tempo depois, descobrimos com surpresa que afinal o nosso crescimento não parece nem tão rápido, nem tão ilimitado quanto isso – antes atingiu o seu pico. Os recursos naturais da terra são limitados. O petróleo, a electridade e a água estão a ficar escassos e cada vez mais caros. Sete biliões de pessoas correm à velocidade de fósseis nas mudanças climáticas. O final desta estrada de sentido único é um beco sem saída. Tudo poderia ser diferente, económica e ecologicamente sustentável. Mas como?

No comboio nocturno para Lisboa

 Comboio CP

Vivemos numa época em que nada é como era antes, e nem como deveria ser. Crise a cada canto. A grande maioria das pessoas perdeu o sentido de orientação, muitas os seus postos de trabalho. A minha esposa, entretanto, inscreveu-se numa formação profissional em França. Na ida, levamos o carro. Às onze horas da manhã partimos do Algarve e fazemos as doze horas de rota num Smart. Os custos totais ficam em 110 euros para o combustível e mais 15 euros das portagens, para dois. Queimamos 70 gramas de CO2* por quilómetro, num total de 95 kg de dióxido de carbono aos 1.200 km.

De regresso a Portugal, viajo sozinho. Em Tarbes, uma cidade francesa com cerca de 60.000 habitantes, tento comprar um bilhete na gare SNCF com destino a Tunes. Encurtando um pouco a história, o simpático empregado de balcão tem que desistir. Tenta de tudo mas o software actual está programado de uma forma que não lhe permite emitir-me um bilhete para a ligação Lisboa-Faro. O software não tem acesso autorizado ao Alfa Pendular. Regionalismo na ferrovia? Compro então dois bilhetes, um para o IC francês de Tarbes para Hendaye, e um segundo para o Sud Expresso de Irun para Lisboa. Preço unitário de 128 euros. Despeço-me da minha esposa, sento-me no comboio cercado de nevoeiro, passo por Lourdes onde o sol de Inverno oferece uma vista celestial dos picos cobertos de neve dos Pirinéus. Chego então a Bayonne. Tempo de espera: 20 minutos. Outra vez nevoeiro. A locomotiva é acoplada novamente à frente e atrás. Um processo laborioso. A partir de agora ela empurra o comboio até Hendaye. A rota de circulação do comboio termina aqui.

Encontro-me agora na última estação francesa antes de uma antiga fronteira, e pergunto a um outro funcionário de bilheteira de que plataforma partirá o Sud Expresso para Lisboa? Tenho quase quatro horas de escala até à partida e ainda tempo para uma caminhada junto ao mar. O funcionário explica-me que o comboio parte da Irun espanhola. Pergunto quantos quilómetros são. Quatro, é a sua resposta. Vou a pé, passando por muitos desempregados sem-abrigo. Acenderam uma fogueira para se aquecerem na ponte sobre o rio fronteiriço. O caminho leva-me acima até uma cidade cansada do consumo do feriado. Sacos de lixo amontoados em cima dos passeios aguardam a recolha pelos homens do lixo. Após uma hora a andar através de nevoeiro e betão, por um enredo de ruas e pontes, chego à estação de Irun. Espanha. Comboio nocturno RENFE para Lisboa. Nada de visita à praia.

 A 50 km/h pela Europa.

Sobrevivo ao tempo de espera e apraz-me viajar no beliche do Sud Expresso da companhia ferroviária RENFE. Às 19 horas começa: de Irun para San Sebastian, Vitoria, Burgos, Valladolid, Medina del Campo e de Salamanca para Coimbra e Lisboa, onde chego na manhã seguinte, às 07h20, à Gare do Oriente. Ainda está de noite. Atraso o relógio uma hora, tomo um café e pão com manteiga. Depois compro mais um bilhete na bilheteira da CP, desta vez pelo preço de 21,20€, para chegar ao meu destino, o Algarve. Às onze horas locais, Tunes recebe-me com sol. Para percorrer 1200 quilómetros aceito fazer uma viagem de 24 horas de comboio, pagas. Mas afinal porque lhes estou a contar esta história?

Porque a mobilidade é a essência da nossa sociedade. Se os camiões-tanque das refinarias não abastecessem diariamente os postos de combustível com gasolina e gasóleo, em cinco dias o país estaria praticamente parado. Nenhum carro andava, todos os supermercados estariam vazios, os resíduos amontoavam-se nas ruas. A mobilidade é o elemento chave da sustentabilidade da nossa civilização em Portugal, na Europa, no mundo inteiro. Se alguém pensa sobre a sustentabilidade futura de Portugal, parece que política e tecnicamente faz sentido trabalhar a ideia e os novos conceitos de mobilidade sustentável, ou por outras palavras: hoje em dia, quem ainda estaria disposto a voltar para trás, percorrendo a estrada de sentido único até ao cruzamento anterior – mas num burro?

Uma semana mais tarde volto a visitar a minha esposa. Fiz um teste. Ligo o portátil e procuro o bilhete mais barato para um voo de Lisboa para Bordéus. A EASYJET disponibiliza o bilhete de regresso por 70 euros. O voo dura uma hora e meia, e mais três horas de carro Algarve-Lisboa e outras três horas de Bordéus para Tarbes. A minha calculadora do CO2 revela-me que só no voo de ida e volta (1.111 km) eu sou responsável pela emissão de 620 kg de CO2 para a atmosfera, e mais a viagem de carro com 144 kg de CO2. Após sete horas e meia de carro-voo-carro, estou exausto e tenho que abrandar. Lentamente atinjo a minha velocidade própria. Esta é aquela com que os meus pés me levam pela vida.

 Mobilidade renovável?

2013. Em culturas inconscientes tenta-se melhorar constantemente a aberração, em vez de regressar ao ponto onde esta teve início. Teríamos que inverter a marcha e, na estrada de sentido único, voltar ao cruzamento a partir do qual poderemos percorrer o caminho certo, com técnicas de sobrevivência sustentáveis. A partilha dos bens estará no centro de tudo e o actual princípio da propriedade do carro, casa e da terra arável será substituído. Os anos 2014 até 2020 ficarão marcados em todas as áreas da vida por conflitos e disputas entre velhos e novos paradigmas. É uma década de grave crise. Como, então, vamos mover-nos no ano 2030 em Portugal e na Europa? Estou optimista de que estaremos a viajar de forma rápida e eficiente, mas limpa. Será uma história de sucesso, que finalmente porá fim a muitas e muitas décadas de lamentações.

Isto porque em 2015 existirá, na Europa comunitária, o primeiro projecto de mobilidade transnacional – o comboio. O Express nocturno, que desde o ano 2021 parte à noite de Lisboa e chega na manhã seguinte a Paris, Bruxelas e Roma, assim como a outras capitais europeias.

Por sua vez, a companhia ferroviária portuguesa CP começará, em 2018, com o comissionamento de ligações de comboios regionais modernas e energeticamente eficientes, criando milhares de postos de trabalho. As ligações de comboios regionais recebem electrificação geral e o dobro de linhas férreas com comboios pendulares a cada 30 minutos. O financiamento? Não é problema: as receitas das portagens e dos impostos sobre os combustíveis, a partir de 2016, serão directamente canalizadas para a nova companhia ferroviária CP, uma sociedade anónima, com participação pública. Jovens e pensionistas podem agora viajar livremente no sistema de transporte local e de longo curso. Todos os passageiros adultos pagariam apenas uma quantia simbólica pelo passe anual CP.

Portugal vive um novo conceito de mobilidade, com menos falsas poupanças, mas com investimentos certos: segundo princípios do ciclo económico e conceitos de mobilidades renováveis locais. A partilha das rodovias entre o carro e os carros eléctricos já começou. O metropolitano e os autocarros eléctricos e os próprios eléctricos estão a passar por um processo de renascimento. Surgem bicicletas e scooters eléctricas, táxis eléctricos estão disponíveis nas estações de comboios. Os centros de cidades como Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, Setúbal e Faro, entre outras, estarão livres de carros e serão novamente bonitos.

2030. Aqueles que ainda conduzem os seus próprios automóveis com motores de combustão, são anacronistas sem esperança e pagam pelo combustível do seu clássico um preço de cinco euros por litro, porque o preço dos combustíveis em 2018 explodiu. A aviação internacional está em forte declínio, porque é cara e não é mais rentável. Os motores alternativos começam a impor-se lentamente: navios com skysails e rotores, autocarros com propulsão híbrida e suporte solar, táxis de propulsão a hidrogénio e combustível, os primeiros aviões com motores solares. Na Alemanha faz-se de tudo para tirar milhões de desempregados da rua, depois da Mercedes, Audi, BMW, Continental e Würth terem declarado insolvência. Em Portugal, no entanto, há um optimismo generalizado, pois o país produz muito mais energia solar, eólica e hidráulica do que consome.

Na próxima edição de 21 de Junho, leia mais sobre a agricultura tradicional portuguesa, que está de novo no caminho do sucesso.

*O dióxido de carbono (CO2) decorre da queima de combustíveis fósseis (carvão, gás, petróleo). A quantidade de dióxido de carbono emitido depende directamente do consumo de combustível: Por cada quilograma de combustível, durante a combustão de um motor a jacto, são emitidos para a atmosfera 3,16 kg de CO2. O dióxido de carbono é um gás de efeito-estufa e após a sua libertação, dito de forma simples, mantém-se durante cerca de 100 anos na atmosfera, podendo assim espalhar-se por todo o globo e impulsionar o aquecimento global.

 

Fontes: www.atmosfair.de + www.futurzwei.org

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