Quarta-feira, Novembro 22, 2017
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Não há planeta B

Como é que se começou a interessar pelo ambiente?
Comecei por me interessar sobre a sociedade de consumo que estava a despontar em Portugal em meados dos anos 80. Comecei a trabalhar no Expresso e tinha uma secção que se chamava Bolsa do Consumidor. Estávamos numa sociedade fechada, um mercado muito restrito, e com a pré-adesão à União Europeia entrámos no comboio da economia de mercado e foi um boom de consumismo absolutamente inédito e brutal sem termos na altura legislação ambiental. Acabámos por criar imensas externalidades e muito impactos negativos do ponto de vista ambiental. Um indicador muito interessante é a produção de resíduos. Cada vez que uma sociedade entra em crescimento, produz muito mais resíduos. Mas não havia tratamento, não havia recolha seletiva, não havia nada. Ia tudo parar às lixeiras a céu aberto que eram mais de 300. Sem legislação não havias regras, não havia limites.

O ambiente mexe com tudo…
Não são só as questões dos resíduos, das águas, é também a questão do desordenamento do território, porque esse também foi o modelo de crescimento de Portugal. Os anos 90 foram muito baseados na construção, fosse de obras públicas ou privado, criando uma série de problemas ligados ao ordenamento do território e aos impactos sobre a conservação da natureza. O país tinha-se mantido conservado à força durante tantos anos que era difícil que a sociedade, ela própria, acarinhasse as áreas protegidas. Mas a partir dos anos 90 começa a entrar o normativo europeu. É quando se cria o Ministério do Ambiente e é quando se transpõe para a lei portuguesa uma série de diretivas.

A Expo98 contribuiu para a nossa visibilidade para o exterior em termos ambientais?
A Expo98 teve dois aspetos importantes. Por um lado, a questão dos oceanos. Demorou muito tempo até que o país assumisse verdadeiramente a questão dos oceanos e do mar como um desígnio importante em termos económicos e sociais. Por outro lado, a capacidade de recuperar uma zona degradada. Infelizmente foi “à portuguesa”, começou muito bem com a despoluição dos solos, mas depois atamancou-se uma parte e hoje está à vista.

Do ponto de vista urbano foi uma reabilitação muito interessante e muito importante, apesar de ter carga construtiva a mais. E também foi a primeira em que nos começámos a afirmar como lugar importante de visita e que se vê no boom quase excessivo do turismo em Portugal. Temos uma tendência de passar do oito para o 80 de uma forma muito irrefletida em muitas coisas e isso tem-nos trazido alguns problemas. Temos de ser mais racionais nas decisões estratégicas que tomamos.

 Luísa Schmidt - investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, jornalista, escritora, membro do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável
Luísa Schmidt

O seu livro pretende manter essa memória e alertar para o que foi feito e o que não foi feito?
Sim, acho que sobretudo essa foi a minha intenção. Fui buscar um artigo para cada um destes temas desde os anos 90 até agora e faço um enquadramento que dá pistas até para o que se passa hoje a certos níveis. Mostra quem era o responsável, quem é que tomou aquelas decisões, no fundo, quem é que esteve a lutar pelo bem comum e pelo interesse público e quem não esteve. É importante percebermos essa evolução para também sabermos porque é que emperrámos constantemente em algumas decisões.

Há alguns artigos que me angustiam um bocadinho porque podiam ter sido escritos atualmente. É o caso da questão das florestas. Este pára-arranca nas políticas ambientais e de conservação da natureza dá sempre mau resultado. Vimos o que aconteceu o ano passado com o desordenamento florestal e com os incêndios que proliferaram por todo o lado.

A sociedade civil também está mais sensível a estas questões…
A sociedade civil entretanto também se começou a preocupar com o ambiente e a conservação da natureza de uma maneira muito diferente, com as novas gerações já com uma formação na área mais forte.

Também as autarquias têm feito uma evolução positiva. Estamos a trabalhar num projeto com 26 autarquias e com o envolvimento das populações locais na criação de estratégias de adaptação às alterações climáticas locais. Vê-se uma mentalidade já diferente, seja dos autarcas e dos técnicos das autarquias, seja das entidades e das pessoas que vivem nos sítios. Há mais transparência e mais exigência naquilo que se vai decidindo e acho que as coisas têm evoluído mais positivamente.

Na área da educação ambiental, sobretudo junto dos mais jovens, o que é que tem sido feito?
Há uma altura muito florescente para a educação ambiental que é a segunda metade dos anos 90, quando Guterres declara a sua paixão pela educação e põe no Ministério da Educação pessoas que têm sensibilidade ao tema e conseguem articular o Ministério da Educação com o do Ambiente e o do Emprego. Tudo isso marcou uma geração que neste momento está nas autarquias, nos lugares de decisão. Portanto, têm muito mais sensibilidade às questões ambientais.

É através da educação ambiental que podemos ancorar estas matérias e torná-las apaixonantes. Mas em 2009 acabaram com a Área de Projeto, que era extremamente importante, porque aí se formavam cidadãos atentos aos problemas do mundo de hoje. Estas matérias estão no nosso quotidiano. Vemos agora com o Acordo de Paris. Neste momento isto não é um problema da América, é um problema do planeta e da humanidade. Hoje os jovens e as crianças têm de ter uma formação mais forte sobre os problemas que se vão colocar e que têm a ver muito com estas matérias – a ciência, o ambiente…

As questões humanas e os valores humanos…
Os valores ambientais e humanos estão muito articulados. Por exemplo, na encíclica do Papa Laudato Si’, quando vemos estes dirigentes isolacionistas a dizer “nós estamos assim” e o resto da humanidade que se amanhe, somos todos nós que estamos em causa, somos interdependentes, não há planeta B, portanto temos todos de nos organizar no sentido de continuarmos aqui a viver com humanismo. O efeito perverso positivo da atitude de Donald Trump é criar o que se chama em sociologia, um fenómeno de subpolítica, que é juntar agentes, pessoas e grupos que seria improvável estarem unidos, em torno, neste caso, de um mal comum.

A comunicação de ciência está a chegar eficazmente às pessoas?
Os novos financiamentos para investigação dão muita importância à questão da ciência aberta e da disseminação da ciência e da investigação. As decisões hoje passam muito pela ciência e pelo conhecimento que é trazido aos políticos e às populações sobre a investigação científica e os resultados científicos. E isso cria a tal responsabilidade social do cientista. As pessoas precisam de descodificação do que se passa ao nível da ciência e também têm de entrar mais vezes na criação da própria ciência. O saber local é cada vez mais importante.

Os políticos têm consciência da importância da ciência na tomada de decisões?
Este governo quer, com um documento que vai sair brevemente sobre ciência aberta, criar uma nova dinâmica ao nível não só do acesso aos dados, seja daquilo que se produz nos laboratórios, nas universidades, nos centros de investigação e na administração pública, mas também na avaliação dos investigadores e dos professores, onde também entre a comunicação da ciência, ou seja, o que eles chamam a responsabilidade social do cientista.

O que também fala este documento e que há muito tempo nós defendemos, é a ciência cidadã, ou seja, serem os próprios jovens e crianças a recolherem dados, mas seriamente, sobre as suas comunidades. Isto envolve-as na vida local e nacional, começam a perceber melhor as coisas. Defendemos também que haja um ano dedicado ao associativismo, seja ele o que for, dedicado à sociedade e ao bem comum.

Este boom de aposta no turismo em Portugal também vem trazer alguns impactos…
Eu acho que Portugal tem um cluster que devia ser muito mais trabalhado que é o turismo de saúde, ligado às termas. Temos águas termais absolutamente fantásticas e uma população europeia envelhecida. Algumas das zonas que foram dedicadas ao turismo de massas, neste momento, não só as pessoas já não gostam, já não procuram tanto, como muitas dessas zonas provavelmente não se vão aguentar porque entretanto deixam de ter praia. É preciso investirmos no turismo mais sustentável, no turismo de natureza, o birdwatching, por exemplo. Temos imensos turistas já a procurar.

Relativamente a Lisboa, para o turismo não se tornar uma atividade depredadora, não podemos continuar a assistir às populações a serem expulsas dos bairros como são neste momento. Perdemos a nossa característica. O que é interessante numa cidade como Lisboa é a mistura social e a cultura, ver aquelas populações diferentes e diversificadas nos bairros antigos.

Falemos agora da Luísa, como é que vive no dia a dia, estas questões do ambiente?
Eu tive a sorte de poder trabalhar na universidade nas questões do ambiente, do consumo e da comunicação e ao mesmo tempo trabalhar no jornalismo, ou seja, tentar de certo modo intervir na sociedade. Na universidade eu consigo através dos meus trabalhos perceber “como é que o quarto se arruma” e depois, na área do jornalismo consigo “dar o pontapé na porta”, ou seja, servir muitas vezes de denúncia, outras vezes de pedagogia, trazer estes assuntos para a praça pública para serem discutidos e tentar intervir a esse nível.

No meu dia a dia, em termos de resíduos, tento não só separar como reduzir ao máximo. Acabei com o saco de plástico e adotei aqueles sacos únicos para as compras. Ao nível do desperdício alimentar, que desde sempre me preocupa, eu tento não ter. A única coisa que não consigo fazer infelizmente é deixar de utilizar o carro para vir para a universidade. Sou altamente sensível às questões da eficiência energética, ruído, tenho um grande respeito por tudo o que tem a ver com a água e portanto tenho cuidado a esse nível. Enfim, tento seguir um pouco tudo aquilo que vou defendendo em termos pedagógicos. Faço muitas intervenções nas escolas, nas autarquias, nos média, sempre que me convidam, e escrevendo no Expresso. Estou sempre disponível para tudo o que me desafiem no sentido de trabalhar para um país melhor, porque sou muito patriota no meio disto tudo.

Onde é que se pode interferir para melhor promover o bem comum?
É na escola, seja a escola primária, seja a universidade; é nas autarquias, nos média, nas ONG e depois nas empresas. No documento da Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável, o grupo da comissão nacional da UNESCO identificou onde se devia intervir e onde há capacidade de mudança. E cada vez é mais importante trabalhar sobretudo com as escolas. A educação é básica em tudo. E não se vislumbra hoje a educação sem a articulação do ambiente com as questões sociais, com as questões culturais e até económicas, uma economia circular cada vez mais.

Como queremos viver?
Essa é a questão mais importante. Queremos viver com melhor ambiente, melhor saúde pública e mais qualificada, mais qualidade de vida, mais justiça social e ambiental, mais equidade, menos desigualdades sociais, uma economia menos pressionante dos recursos, ou seja, uma economia verde ou circular, em que tudo é reaproveitável. Fundamentalmente queremos viver de uma forma coletivamente mais gratificante e com uma atenção que seja simultaneamente local e global e com mais ciência, mais conhecimento, mais saber, com mais confiança nos poderes, sejam eles quais forem, mas também com mais ética e mais responsabilidade por parte desses poderes. E queremos viver também com mais esperança.

Obrigada.

Viver com melhor ambiente no planeta que temos é o desejo de Luísa Schmidt, uma mulher que aceita desafios e se preocupa profundamente com as questões da equidade e da justiça. Luísa Schmidt é investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, jornalista, escritora, membro do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS). Falámos com ela, entre outros assuntos, sobre o seu último livro Portugal: Ambientes de Mudança. Erros, Mentiras e Conquistas, uma reflexão sobre um conjunto de artigos publicados como colunista do semanário Expresso.

Rosália Cera

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