Quinta-feira, Novembro 21, 2019
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Ameixial Permacultura

Interior, um Futuro Com Vida.

Caminhos para recuperar um Algarve sem dependência do turismo.

Foi na pequena aldeia do Ameixial1, situada no concelho de Loulé, que teve lugar, neste último Outono, a cerimónia de apresentação dos projectos finais do Curso de Design em Permacultura.

Curso de Design em Permacultura.Esta apresentação contou com a participação dos seus 15 alunos e a afluência de muitos populares que, com alguma estranheza e muita curiosidade, foram entrando, observando e questionando as propostas e soluções que os alunos “desenharam”. Estas surgiam em cartazes espalhados por todo o recinto, facilitando a explicação e compreensão de temas tão variados como a gestão da água, eficiência energética, florestação, produção agrícola, inclusão social ou gestão de resíduos.

O curso em si teve a duração de 12 dias, decorrendo entre 6 e 17 de Setembro de 2014, e contou com o apoio da associação Terra Crua, da Junta de Freguesia do Ameixial, da Câmara Municipal de Loulé e da Câmara Municipal de Almodôvar. Do seu currículo fizeram parte disciplinas tão variadas como Éticas e Princípios da Permacultura, Climas e Microclimas, Sucessão Natural, Solos, Aquacultura, Florestas Comestíveis, Bioconstrução, Eficiência Energética, Energias Renováveis, Comunidades Sustentáveis ou Design Social.

O curso procurou dar capacitação aos alunos enquanto designers éticos e regenerativos, e envolveu a aldeia do Ameixial, no sentido em que os objectos de design foram espaços públicos da freguesia que estavam abandonados ou mal aproveitados. Foi a primeira de muitas iniciativas englobadas no projecto, e pretendeu (com sucesso) dar uma amostra dos sistemas, modelos, técnicas e estratégias que a Permacultura pode oferecer a uma localidade, na melhoria da qualidade de vida dos seus habitantes e na recuperação dos espaços públicos. Tendo sido idealizado no âmbito da iniciativa de repovoamento e revitalização do Ameixial (Loulé) e de Santa Cruz (Almodôvar), trata-se de um projecto que está a ser desenvolvido com foco no repovoamento através de jovens, e a criação de postos de trabalho nestas regiões desertificadas. Os objectivos em vista são portanto a revitalização económica, social e cultural destas zonas esquecidas e abandonadas.

A entidade organizadora e promotora da iniciativa é o próprio núcleo fundador do projecto, ou seja, a Comissão Instaladora da Associação Semina Futuri. Contou ainda com a participação, apoio e dinamização dos facilitadores Lesley Martin, André Carvalho e Sandra Santos.

Para saber mais sobre este projecto a Eco123 falou com Nuno “Mamede” Santos e Mélanie Santos, um dos casais pioneiros deste projecto de habitação e repovoamento do interior do país.

ECO123: Nomes, idades e profissões?

Nuno Santos e Mélanie Santos: Somos os habitantes pioneiros do projecto, actualmente a habitar na freguesia de Santa Cruz (Almodovar) Temos 35 e 22 anos, e somos regeneradores a tempo inteiro.

O que fazia antes deste projecto? Que trabalho fazia e onde vivia?

Cartaz Ameixial em transiçãoTínhamos a mesma ocupação, mas noutra zona do país mais propriamente em Góis. Eu (Nuno Santos) dou formação em Bioconstrução há uns anos, e ultimamente trabalho essencialmente em consultoria, design e educação ambiental. A Mélanie veio há dois anos da Bélgica, onde estava envolvida num projecto de educação alternativa, e onde deu os primeiros passos em Permacultura. Neste momento divide-se entre a educação das nossas filhas, ao estudo do shiatsu e ao desenvolvimento das tarefas iniciais mas essenciais à implementação do projecto.

Explique-nos o projecto em traços gerais.

Resumidamente, o projecto é recuperar um pouco do brilho que estas povoações tinham, num contexto de sustentabilidade. Ou seja, usufruir deste planeta, sem comprometer o futuro, e criando abundância. Queremos atrair e fixar habitantes nesta zona, reduzir o êxodo rural, diminuir o desemprego, criar as “nossas” crianças de forma saudável, segura e consciente. Enfim, tudo a que temos direito.

Porquê o Ameixial?
Na verdade o projecto envolve duas freguesias, divididas por um magnífico rio, o Vascão, embora as características culturais, sociais, geográficas e económicas sejam iguais. São estas zonas erodidas de árvores, solos e gentes que têm a maior necessidade de projectos de regeneração. É aqui que a necessidade aguça o engenho, é aqui que se abrem janelas de oportunidade e há uma maior receptividade a ideias novas.

Teve uma grande adesão?
O curso esteve praticamente com lotação esgotada. E na noite da apresentação, passaram pelo local pelo menos umas 60 pessoas.

Que ideias surgiram do grupo formado?
Muitas. Como referi atrás, desenvolveram-se os traços iniciais de toda uma freguesia em Transição. No final do curso os habitantes da freguesia foram convidados a visitar-nos e a ter contacto com algumas das soluções que os alunos desenharam, como a gestão da água, eficiência energética, florestação, produção agrícola, inclusão social, gestão de residuos, entre muitos outros temas que despertaram a curiosidade de quem por lá passou no dia da apresentação.

Como vão ser aplicadas no terreno?
Todas as ideias vão ser objecto de design mais profundo, no entanto, o povoamento já se iniciou. A maior parte das ideias e designs compreendem a participação activa da população, por envolver as suas terras e recursos.

 E a população, como recebeu estas ideias?
Tivemos um bom feedback no geral. Era de prever algum cepticismo inicial, mas foi quase residual. Fomos muito bem recebidos pelos locais e depois do curso foram-nos disponibilizados terrenos e casas para a aplicação dos projectos.

É um projecto familiar? Como foi possível a convergência de todos os membros da família para uma transição tão grande?
Não só, é um projecto comunitário, embora em moldes diferentes do que estamos habituados quando pensamos em comunidade. Trata-se de resgatar o modelo de comunidade em aldeia, mas em muitas aldeias da mesma região.

Têm alguns apoios?
Por enquanto temos apoio das autarquias de Loulé e de Almodôvar e dos habitantes e proprietários locais.

A ideia é apenas ajudar a população a melhorar as suas condições de vida ou visa também algum tipo de lucro?
Na nossa perspectiva, não é possível a revitalização ecológica sem a revitalização social e económica. Estes são os três eixos da sustentabilidade. Se plantarmos uma floresta sem envolver pessoas e sem criar retorno financeiro, a floresta arde, ou alguém a corta. Se esta não der algum tipo de retorno económico, não haverá ninguém que queira cuidar dela.

Que futuro para este projecto? E para Portugal?
Este projecto é essencial para o correcto desenvolvimento desta região. Portugal é neste momento um dos exemplos mundiais em termos de quantidade de projectos neste contexto, e por duas razões: a necessidade, e a ligação que quase todos os Portugueses têm com o meio rural. Se este projecto tiver o devido apoio, temos um brilhante futuro pela frente.

Como seria possível chegar a um equilíbrio entre ecologia e economia?
Nuno MamedeParece-me que temos de trazer um pouco de economia aos projectos ecológicos, e um pouco de ecologia aos projectos económicos. Muitos projectos ambientais falharam por dependerem única e exclusivamente de inputs financeiros exteriores, e não conseguirem criar retorno financeiro. Mas, por outro lado, qualquer produção (até a celulose) pode ser convertida e adaptada para melhores resultados a nível ecológico.

Estando ainda na sua fase inicial de implementação, e aguardando pela luz verde de financiamentos e apoios das instituições oficiais, este projecto de revitalização do interior do país vai avançando e preparando o terreno para os seus primeiros 12 meses. Esta iniciativa pode ser acompanhada, por enquanto, através da sua página no facebook e, mais tarde, no site oficial do projecto. Também é possível testemunhar no terreno a aplicação de técnicas e conhecimentos simples, práticos e eficientes aos níveis ecológico e financeiro.

É com grande expectativa e optimismo que a ECO123 acompanhará o desenrolar deste projecto. Para já, constata-se o facto de existir uma nova geração que está a ser bem influenciada e que já dá sinais de uma maior proximidade à natureza. Este pode bem ser o exemplo que faltava para que algumas pessoas optem por um futuro com qualidade de vida no interior do país.

Contactos:
Semina Futuri – Associação para a Revitalização Social, Cultural e Ecológica do Algarve
E-mail: seminafuturi@gmail.com
Facebook: www.facebook.com/pages/Semina-Futuri/156052337867069

Ameixial é uma freguesia do concelho de Loulé , com 123,85 km² de área e 439 habitantes (2011). Densidade: 3,5 hab/km².

About the author

João Gonçalves (31) Natural da Serpa. Licenciatura em Marketing, Comunicação Empresarial, Produção Audiovisual na Universidade do Algarve, em Faro. Trabalha actualmente como realizador, operador de câmara e editor. Vive em Faro.

 

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