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Vivemos o sonho americano atrasado

Miguel Fragoso fala abertamente sobre a empresa que administra, a Eva Transportes SA, e do que mudou desde a última entrevista da ECO 123, em abril de 2015. A Eva luta para a criação de um sistema de transporte público mais fluido dentro da região do Algarve e com uma frota de 600 viaturas.

Numa altura em que as diretivas caminham cada vez mais para as energias amigas do ambiente, de quantas viaturas elétricas dispõe a Eva?
Apenas de uma. Os investimentos na frota não têm sido feitos – ainda – em veículos elétricos ou movidos a gás natural, por duas razões: a possibilidade de investimento em medidas ambientais anunciada pela entidade governamental cingiu-se a empresas públicas ou semipúblicas de transporte: Carris, STCP, Transportes Coletivos do Barreiro… e a Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros (ANTROP), que nos representa, fez chegar uma carta em tempo útil expondo a nossa posição…
E, em termos de autocarros de serviço público de passageiros, a autonomia das viaturas elétricas não melhorou muito. Para o tipo de serviço que prestamos no Algarve – substancialmente diferente do prestado noutras zonas do país – esta questão é crucial. Na minha atuação como operador preciso de um autocarro que trabalhe o maior número de horas possível.
Com o para-arranca resultante da malha viária e da sazonalidade, e problemas adicionais como ar condicionado e portas elétricas, necessitaríamos de viaturas com autonomia de sete horas.

Zero emissões de CO2 não é uma meta para a Eva Transportes nos próximos anos?

Mas são feitos enormes gastos em gasóleo…
Sem dúvida. São 600 autocarros – turismo, serviços de Expresso, transporte público – a um consumo médio de 26 litros/100Km para fazermos nove milhões de quilómetros/ano.
Registamos, contudo, uma redução do consumo específico (litros/100 Km), graças à tipologia das viaturas, à formação do pessoal. Há alguns anos o consumo rondava os 32, 33/100 e neste momento registámos uma décalage de sete, oito litros, o que, em dez anos – e atendendo à redução da frota – é substancial.
Numa empresa integralmente privada os investimentos gerem-se ao cêntimo e as questões da eletricidade e do gás – que para mim são importantes – continuam a ser sobretudo financeiras. Mas a melhor forma de energia, a mais limpa, seria mesmo a pilha de hidrogénio.
Porque não começarmos a investir na nossa própria energia – a andar a pé? Existem medidas para fechar núcleos urbanos ao trânsito automóvel no Algarve?
Não que eu conheça. Com base nos estudos que estão a ser feitos pela Associação de Municípios do Algarve (AMAL) – Comunidade Intermunicipal do Algarve e pela Universidade do Algarve, estão a criar-se zonas que privilegiam o andar a pé, como as que existem em Silves, Loulé ou Portimão. Pessoalmente sou de acordo com essa ideia. Considero muito importante que se sinta uma cidade a pé.

Como se desloca habitualmente?
De carro, mas costumo e gosto de andar a pé.

E de autocarro, não?
Ando por vezes de autocarro, mas não é o meu meio de deslocação diário.

Por que motivo?
Porque a minha vida profissional não me fixa a um só local e não existe um meio de transporte público personalizado.

Na sua opinião, por que motivo se privilegia no país a deslocação de carro?
Este não é um comportamento exclusivo. Sente-se em toda a Europa. Vivemos o chamado sonho americano atrasado. Em Portugal temos sensivelmente 1,8 veículos por familia. Ter um carro é, para além do estatuto, algo muito mais fácil do que há dez ou doze anos. Esta facilidade, aliada a um demorado planeamento ao nível do transporte público, a um crescimento exponencial em termos de dinâmica das cidades, com realidades de mobilidade diferentes de ano para ano – a verdade de hoje é a mentira de amanhã em termos de necessidades de transporte – leva a que seja fundamental interagir o mais possível com todos os peões do tabuleiro.

Porque não pensar um transporte público que contemple veículos de duas rodas?
Já existem algumas experiências no Algarve: bicicletas partilhadas em Portimão, Vilamoura, Tavira; centrais que funcionam com cartão.

Mas estão coordenadas com os transportes públicos?
Estão situadas em locais próximos dos pontos de recolha de transporte público, sim. A ponte, de forma estruturada, ainda não existe. São coisas relativamente recentes. Embora essa interligação modal seja algo fundamental para o futuro.

Existem ainda algumas disparidades entre o transporte público urbano e o restante…
A resposta aqui poderá estar nas autarquias. No Algarve ainda não existem associações nesta matéria, mas noutros locais do País as autarquias associam-se a empresas de transporte e garantem ao seu público o transporte “on demand”, à hora e para os locais pretendidos.

Porque não associar empresas ou até mesmo autarquias na criação de medidas comuns?
Será fundamental que, de futuro, se criem redes. A Eva estará sempre aberta a isso. As câmaras já têm connosco uma participação muito próxima relativamente ao transporte dos seus concidadãos até ao limite do concelho. Não estamos a falar de transporte urbano, cabendo à AMAL a gestão dos transportes interurbanos, fora do limite do concelho e cruzamento entre concelhos.
Nos últimos anos as autarquias têm feito um grande investimento em autocarros – muitas têm mesmo uma frota substancial – mas ainda não vi nenhuma no Algarve a adquirir viaturas amigas do ambiente. O único autocarro elétrico existente na região pertence a uma empresa privada.

Miguel Fragoso

O que seria preciso para tornar as energias limpas mais atrativas?
Em primeiro lugar, a existência de uma política muito objetiva, de continuidade, e não feita de medidas desgarradas que hoje são operacionais e amanhã deixam de funcionar.
No caso das viaturas elétricas, por exemplo, foram sendo criados postos de carregamento ao longo das autoestradas mas, depois dos cálculos fundamentais para uma circulação viável, as pessoas são surpreendidas com uma série de problemas. Depois, o envolvimento do saber universitário no tocante à questão da autonomia. A autonomia é um calcanhar de Aquiles na motricidade elétrica.
Com a redução do peso e dimensão das baterias de lítio potencia-se a sede pelo transporte alternativo mais amigo do ambiente. O futuro passará por energias limpas, por uma política ambiental mais concertada.

Zero emissões de CO2 não é uma meta para a Eva Transportes nos próximos anos?
Não. Isso seria utópico, apesar de desejável.

As utopias criam novas realidades…
Muitas vezes… A redução das emissões de CO2 é, contudo, uma prioridade desde há muito: através dos investimentos, da monitorização dos consumos de combustível, de um uso mais concertado do ar condicionado… nós temos feito a nossa parte. Obviamente que teríamos objetivos muito mais latos.
Os autocarros que estão afetos a todos os serviços urbanos no Algarve dispõem de viaturas relativamente novas para a idade média do resto da fota. São viaturas que já cumprem – a grande maioria – a normativa Euro 6.

O que mudou para melhor desde 2015?
Gostava que tivessem mudado muitas mais coisas. Os atrasos constantes, as obras, as interrupções de tráfego e o tráfego limitado a um sentido numa atividade como a nossa desincentiva a utilização crescente do transporte público.
As obras na EN 125 arrastaram-se com interregnos que complicaram bastante a nossa atividade, uma vez que o Algarve não tem um metro de linha dedicada ao transporte público, pese embora se esteja sistematicamente a implementar um conjunto de medidas para melhorar a utilização do transporte público.

Registaram-se melhorias?
Sim, a circulação faz-se hoje melhor, com a criação de rotundas e a limitação de cruzamentos de via. Ainda é cedo para fazer previsões, mas a velocidade média é melhor.

O ideal seria a contemplação de mais vias…
O ideal seria que se tivessem acautelado as questões da mobilidade. A rede de transportes no Algarve é uma rede muito capilar. As ligações fazem-se entre as cidades com mais peso. Só quem não anda na EN125 é que não sabe o que custa utilizar esta via nos meses de Verão, entre Albufeira e Faro, por exemplo.
A Via do Infante não é uma alternativa. Criámos serviços mais diretos, é certo, nomeadamente o transrápido, quando surgiram as portagens, para ir buscar algum público a esses serviços concretos, mas tudo acaba por afunilar na 125.
Sem uma linha dedicada ao transporte ou aos veículos prioritários, com a agravante das muitas paragens que temos de fazer ao longo do percurso, especialmente na época de Verão, é complicadíssimo cumprir horários. É quase humanamente impossível.

Temos depois outro problema: a circulação termina muito cedo… não vai além das 20 horas, verdade?
Sim, em torno das 20 horas.

Não há serviços noturnos…
Temos serviços noturnos, no âmbito das autarquias, especialmente no Verão. São feitos com viaturas e pessoal da Eva mas a definição do serviço, tarifário e linhas é decidido pela autarquia.

Quando chega ao Aeroporto que alternativas existem?
Em termos de transporte público temos duas situações desde 2015: criámos uma paragem no Aeroporto que faz a ligação entre Sevilha e Lagos três vezes ao dia. Desde junho permite que os passageiros saiam em Olhão, Tavira, Portimão, Albufeira, na Isla Canela ou na Isla Cristina.
O Próximo faz a ligação entre o Aeroporto e Faro, fruto de uma parceria entre a Eva e a autarquia, de 15 em 15 minutos, em condições de circulação ideais.

Que mudanças gostava de ver operadas até 2020?
Gostava muito que estivesse terminado o estudo de mobilidade que está a ser feito pela AMAL desde janeiro de 2016, que estivesse em pleno funcionamento e integrado o transporte urbano e interurbano e a funcionar de uma forma fluida, com uma bilhética simplificada, por forma a que se pudesse usar o mesmo cartão em vários tipos de transportes e em vários concelhos.
Potenciar a informação seria outro dos pontos relevantes. A AMAL está a desenvolver uma aplicação para telemóveis que permitirá situar o cliente e oferecer-lhe as opções de transporte completas a partir do local em que se encontre.
E já em outubro deste ano daremos início a obras de remodelação do nosso terminal, na zona de atendimento ao público e cobertura de toda a estrutura. Faremos um investimento em painéis solares em todo o terminal.

Como é o seu transporte público ideal, no futuro?
Um transporte urbano mais ecológico, mais preocupado com a imagem e a frequência, que não obrigue o passageiro a olhar para o relógio, com ligação e bilhética comum com o transporte interurbano, e com um preço justo para a oferta.

Obrigado.

Dina Adão, (45) estudou jornalismo e biblioteconomia, mãe de uma filha de 12 anos, trabalha no Colégio Internacional de Vilamoura e é freelancer da ECO123.

 

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