Quarta-feira, Novembro 22, 2017
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Cómico de corpo e alma

O que motiva alguém que é palhaço, de onde vem essa energia?
A força de se distanciar de tudo e de reconhecer que já não se quer trabalhar na sua profissão, gera muita energia. É a oportunidade de ir ao encontro da experiência de uma felicidade absoluta e de a viver em pleno. O caminho que escolhi leva-me agora a um lugar onde 20 pessoas se juntam, para escrever música, fazer coreografia de danças, pessoas que escolhem lugares abstratos, que usam uma floresta de eucaliptos como mensagem e como palco. Esta é uma motivação diferente da de há 20 anos atrás. Mas a energia, essa é a mesma. O podermo-nos reinventar sempre de novo naquilo que fazemos é uma transformação constante, todos os dias uma redescoberta.

De onde vem este homem que se chama Tosta Mista, e para onde quer ir?
Os meus avós viviam junto à fronteira com a Holanda. Nasci em 1969 e só me chamo Tosta Mista porque aqui ninguém sabe pronunciar o meu nome. Amanhã sigo para Santa Maria da Feira, perto do Porto…

E depois?

tosta mista sacos papel
Thorsten Grütchen

Para o Funchal, na Madeira, onde vou atuar durante dois dias na Feira do livro.

E depois?
No Dia da Criança, vou fazer uma atuação para crianças no Auditório de Alcochete.

E depois?
Vou estar em Torres Novas, na feira medieval. Vou ser o Bobo da Corte. E a seguir estarei em Montemor-O-Novo, perto de Évora, no Ciclo da Primavera. E depois volto para o Europark de Santa Maria da Feira. No Jardim Botânico de Coimbra vou apresentar pela primeira vez Os Sacos de Papel. E depois sigo para Guimarães…

Diz-se que, na Alemanha, as pessoas para se rir vão para a cave.
Mas os portugueses não constroem caves nas suas casas. Aqui pode-se rir – ou chorar – no meio da floresta, ou até na praia.

Mas tem algo de estranho, um alemão emigrar para Portugal para querer fazer rir as pessoas, fazer de entertainer.
Por um lado sim, mas por outro lado, isso faz parte da arte circense. Para mim, trabalhar neste meio significa movimento. Sempre senti uma certa vontade de viajar. Repare na minha estatura. Tenho 1,85 metros de altura, olhos castanhos, por vezes verdes, sou um pouco desajeitado. Isso é uma grande vantagem, porque em Portugal as pessoas gostam de tudo o que vem de fora. Um artista estrangeiro tem boas oportunidades. E é verdade que eu sou um pouco estranho…

O seu modelo de negócio é ser um Palhaço Augusto estranho?
É uma mistura entre um Palhaço Branco e a técnica. Malabarismos engraçados. Na minha profissão passei por várias fases. Programas em grupo ou a solo, e até participei num teatro itinerante. De início, dava muito valor à técnica.

Vantagem competitiva pela tecnologia?
Deixei o torno para adquirir uma técnica de malabarismo única. É uma vantagem dominar certas técnicas. O sonho de fazer malabarismo com cinco, seis ou sete bolas ao mesmo tempo. Também são imagens em movimento.

E já houve bolas que tivessem ficado pelo ar?
Já perdi uma bola uma vez, no ferry de Nápoles para Palermo.

Mas acabam sempre por vir dar à praia.
O nosso lixo acabará sempre por voltar à nossa praia. Uma bola pode assim fazer uma grande viagem. Com os anos, percebi que também é possível trabalhar sem a técnica. O importante é a presença. A abertura para novas ideias.

E agora deixou as bolas e chegou aos sacos de papel. Porquê?
Houve um momento que pensei que já não se deveria chamar a isto malabarismo, mas sim manipulação de objetos. Isso significa que se pode treinar com os objetos clássicos: massas, bolas, anéis, chapéus…, e depois transpor as técnicas para outros objetos: pedras, tudo…, a alegria em manusear o objeto, as múltiplas possibilidades do objeto. Cheguei aos sacos de papel por uma espécie de recordação. Quando vi um saco de papel pendurado em casa de uma amiga tive essa recordação de imediato. Levei alguns dos sacos e pensei para comigo que talvez pudesse fazer algo com isso.

Esses sacos têm conteúdo ou estão vazios?
Estão recheados com algumas gotas de suor e com criatividade, e também com uma pesquisa sobre o seu passado. E isto tudo acabou por ter um nome, o grande embrulho, em alemão chamo-lhe Eingetütet, ou seja, ensacado, o que não soa muito bem na tradução literal. É um jogo de palavras entre uma grande embalagem e um grande imbróglio.

O grande embrulho? E quantos sacos precisa numa apresentação?
Depende do público. Espero um dia chegar aos 500.

Todas as noites?
Todas as noites, não.

Espetadores? Ou sacos?
Sacos e espetadores. Pode acontecer que haja alguns espetadores com cabeças muito grandes, e que os sacos sejam pequenos demais. Nessa situação, haverá menos sacos do que espetadores.

Mas também se poderia usar esses sacos para outros fins, não é?
Originalmente são para embrulhar frutas e legumes. Mas, hoje em dia já não há ninguém que o faça. Usam-se os sacos de plástico. No meu caso, sou eu próprio que me meto no saco. Assim, a finalidade do saco é algo desvirtuada. Ensaco a minha mão e surge um pequeno teatro de marionetas. O Grande Embrulho, o homem na sua civilização geradora de lixo, que também é usado como objeto manipulado…

Os seus sacos têm algum significado político?
Sim, têm um significado ligado à política económica. Têm um significado informativo, informativo no sentido elucidativo. É a magia pelo objeto, mas também o elemento informativo que aparece posteriormente, quando no mercado ou no avião voltamos a ter um saco nas mãos. É que temos a opção de voltar a embrulhar a banana num saco de plástico, depois de deitar fora a casca – ou não, ou de voltar a embrulhar uma maçã ou uma laranja, acabada de tratar com pesticidas e inseticidas num saco plástico…

sacos plasticos
Tosta Mista

Os sacos têm uma infinidade de outras aplicações, não é verdade?
Exatamente. Podem ser um entretém e proteção solar na praia. Ou adorno papal no caminho a Fátima, ou para fazer de Napoleão na guerra, Robin Hood, bandido, etc.

Os seus números cómicos são preparados com rigor alemão?
No texto com que me apresento está escrito: o alemão com alma portuguesa. Nessa alma está a acontecer algo, ou seja, há muitas coisas que eu já não levo tão a sério.

E como é que é a situação no seu caso pessoal? Ainda tem muito que vá parar ao lixo?
Oh sim, e admira-me sempre ainda ser tanta coisa. Especialmente as garrafas de vinho para o vidrão. Sim, ainda tenho muito que deito fora, mas cada vez menos. Preciso de cada vez menos para viver. Como viajo muito durante os meses de verão, nessa altura não tenho lixo. São os outros que o deitam fora por mim, quando como nos restaurantes. Uma alimentação sem gerar lixo só é possível quando se vai ao mercado e embrulha tudo em sacos de papel. Depois, com esses sacos de papel ainda se pode fazer muita coisa.
O plástico, no entanto, volta sempre a entrar na nossa cadeia alimentar: no mar, pelos peixes, volta para dentro de nós. Será que temos mesmo que embrulhar tudo três ou quatro vezes, só para depois deitar tudo no lixo? Com um saco de papel isso não acontece. Que tal se nos supermercados pelo menos tivéssemos a opção entre o saco de papel e o de plástico? Qual seria a escolha do consumidor? O tema da minha peça é a reutilização da embalagem, do saco de papel. Por que razão não o havemos de reutilizar?

Já alguma vez calculou a quantidade de lixo que produz por mês?
Eu evito provocar lixo e compro em lojas pequenas. Só muito raramente, quase nunca, vou ao supermercado. E cá estamos novamente nos objetos. Acho que o supermercado é algo interessante, mas não para fazer compras. Gosto sempre de observar as pessoas dentro dos supermercados. Faz parte da minha profissão. Por vezes, até me disfarço de vendedor. É ambígua, a oferta dos supermercados e a atitude das pessoas nas compras. Tudo está a ficar ainda mais impessoal. Em breve vai ser desnecessário haver funcionários…

E aí vamos ser atendidos por um robot que nos pergunta se é tudo…
… se não deseja mais alguma coisa?

E soluções?
Sacos de serapilheira em vez de plástico. Papel e vidro em vez de plástico. Introduzir um sistema de embalagens com depósito em Portugal. Há muitas possibilidades. Basta querer.

Cá está o seu lado alemão. Qual a duração da sua atuação?
Entre 20 minutos, para crianças, e uma hora e meia.

Quando foi a última vez que esteve mesmo feliz?
sacos de papelAgora. E vou explicar-lhe porquê. Quando, em tempos, perseguia os meus sonhos, tinha uma energia que ainda era irrequieta. Seguia um caminho desconhecido; aceitei correr riscos; não pensei em Segurança Social e só fazia o que gostava para ser feliz. Foi mesmo isso que eu aprendi nos primeiros anos. E depois, quando me adaptei a uma nova cultura, aprendi uma nova língua, comecei a compreender o que pode significar riqueza e felicidade. Enriquecer a vida com uma nova língua e conhecer outras perspetivas.
Também houve uma longa fase em que tinha que defender a minha profissão. Quando chegava a algum lado, perguntavam-me sempre: o que fazes? Quando dizia que sou entertainer, eu sou palhaço, sou malabarista, as pessoas olhavam de lado e perguntavam, mas o que fazes? Palhaço é mais um palavrão do que a designação de uma profissão. No entanto, a aprendizagem desta profissão leva à diversidade. O palhaço verdadeiro pode provocar emoções das mais variadas formas, pode provocar reflexão e muitos outros estados de espírito. No fundo, o que me interessa é como tratamos da base do nosso sustento no nosso planeta, e como lidamos connosco próprios. Como irá ser quando já não houver ninguém que te mostre o que significa ser feliz? Ainda há muito por contar aqui…

Obrigado.

Não se pode escolher os progenitores, não se pode escolher o país e a localidade onde se nasce. E tudo precisa do seu tempo. Thorsten Grütchen (48), aliás, Tosta Mista – o Malabarista, vive em Aljezur e tinha 23 anos de idade quando se despediu dos seus pais. Faltava pouco para terminar a sua aprendizagem de serralheiro mecânico quando tomou a decisão mais importante da sua vida. Queria tornar-se palhaço. Além do mais, já não queria viver na Alemanha, o seu destino era Portugal. Há um momento em que se chega ao ponto de compreender que a escolha da profissão e do país em que se quer viver, tem que ser feita por si próprio.

About the author

Uwe Heitkamp, 53 anos, jornalista e realizador, vive 25 anos em Monchique, Portugal. Adore caminhadas na montanha e natação nas ribeiras e barragens. Escreve e conte histórias sobre os humanos em relação com a ecologia e a economia. Pense que ambas devem ser entendido em conjunto. O seu actual filme “Herdeiros da Revolução” conta durante 60 minutos a história de uma longa caminhada, que atravessa Portugal. Dez protagonistas desenham um relatório da sua vida na serra e no interior do país. O filme mostra profundas impressões entre a beleza da natureza e a vida humana. Qual será o caminho para o futuro de Portugal? (Assine já o ECO123 e receberá o filme na Mediateca)

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