Sexta-feira, Julho 3, 2020
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I can’t get no satisfaction

by Theobald Tiger

Como está a viver sem o seu futebol aos domingos, sem a discoteca aos sábados e a missa às sextas-feiras? Está satisfeito com a desaceleração forçada durante o Estado de Emergência e agora, no Estado de Calamidade?

A sua vida, possivelmente, não é fácil. Há várias coisas que se opõem à nossa relação com o mundo. Por exemplo, o medo de uma pandemia e o receio de sobrevivência económica. O medo é um assassino da ligação ao outro, impede-nos de construir um acesso ao mundo que nos rodeia. Faz-nos ficar presos em nós próprios, por assim dizer.

Nas sociedades modernas, as pessoas adiam frequentemente as suas expectativas. Todos sabemos o seguinte: “Quando as crianças saírem de casa, poderei, finalmente, voltar a tocar piano” ou “Quando construir uma casa, posso finalmente estar mais vezes ao ar livre.”

Agora, que muitos de nós poderíamos finalmente fazer tudo isso – descobrimos que não é assim tão fácil. Não nos sentamos ao piano e experimentamos, de um momento para o outro, sentimentos inesperados de felicidade e uma nova ligação ao mundo. Entendo esta proximidade como uma forma certa e bem-sucedida de nos relacionarmos com o mundo. Não se trata propriamente de trabalhar em algo ou concluir tarefas, mas sim em envolver-me em algo como, por exemplo, escrever uma boa reportagem, que realmente significa algo para mim, me toca e me move interiormente.

Não sou apenas tocado passivamente, mas respondo ao que me chama e sinto-me auto motivado. Ao escrever, por exemplo, sou capaz de transformar palavras e frases em histórias, ouço-me a mim próprio e respondo. Neste processo, experimento sempre uma transformação: Eu não permaneço o mesmo.

O problema, porém, é que essa ligação não pode simplesmente ser produzida, comprada ou forçada. Nos dias que correm é frequente sentarmo-nos ao portátil ou pegarmos numa peça de literatura clássica e… nada acontecer. Não nos sentimos tocados nem transformados.

Antes do Covid-19, há 20 ou 30 anos atrás, habituámo-nos a uma forma de agitação, diria mesmo de agressão. E esta não desaparece da noite para o dia. Esquecemo-nos largamente de como o mundo pode ser uma ponte e temos agora de realizar um grande esforço para o encontrar de novo. E o que nos restará se não nos organizarmos, não formos ativos e trabalharmos? Preocupa-me que muitas pessoas não não o consigam de todo suportar. Isto é-lhe familiar?

 

Fugimos instintivamente para o mundo digital, que restabelece o nosso alcance e aceleração perdidos. Posso verificar rapidamente a aplicação de notícias para ver o que se passa em Nova Iorque ou na Ásia, posso transmitir este vídeo e este comentário a todos os meus amigos. Infelizmente, vamos apenas fazer o que sempre fizemos: Escapamos para a roda do hamster.

Love Is Strong?

Então…?

Primeiro. O mundo digital e o mundo físico estão a afastar-se radicalmente. Uma aceleração digital histórica a nível mundial é confrontada com uma desaceleração histórica da vida. A alta velocidade a que o mundo está a abrandar deixa-nos atordoados. Em janeiro jamais sonharíamos com as coisas que temos que cancelar e repensar agora. Muitos assustam-se com isso, precisamente porque o mundo fora das suas janelas permaneceu o mesmo: muito poucos de nós veem os vizinhos a morrer ou pessoas doentes a sofrer. O que vemos e o que nos assusta são as curvas em constante crescimento na televisão.

O medo de perder o emprego é mais do que apenas o medo de perder a fonte de rendimento. O sociólogo alemão Max Weber já o sabia: nos tempos modernos, o trabalho tornou-se, para muitos, o eixo, a conexão mais importante com o mundo. E esta conexão é, em primeiro lugar, a relação social fiável com os colegas. Pode certamente comparar isto com as relações familiares: Os meus colegas estão simplesmente lá, não me consigo ver livre deles e eles não se conseguem ver livres de mim.

Gimme shelter!

Em segundo lugar, trabalhar num mundo resistente é um eixo desta ligação. O camionista que conduz o seu camião sente-se auto motivado porque manobra com segurança a sua carga de 30 toneladas de eucalipto através do trânsito indisciplinado. Para os jornalistas, é o texto em que trabalham que os conquista. O trabalho é como o cordão umbilical para o mundo. Dá-nos um lugar no conjunto social. E, através do trabalho, também me alimento. Algo volta: o meu rendimento, mas também o sentimento de que tudo passa a fazer sentido. Quando se compreende a importância do trabalho para o indivíduo hoje em dia, compreende-se também o que está em jogo socialmente se muitas pessoas perderem os seus empregos agora. Precisamente nesta situação, milhões de pessoas que perdem os seus empregos precisam de um rendimento básico incondicional a nível supranacional.

Terçeiro. Há provas históricas de que as sociedades funcionam de acordo com o seu percurso. Há sempre pontos históricos em que o caminho pode mudar, em que as rotinas e as instituições são quebradas. Estamos precisamente neste ponto: não sabemos o que fazer, não temos um programa acabado. Agora é importante não nos precipitarmos de imediato. O que se aplica ao indivíduo também se aplica ao coletivo: temos agora de fazer um intervalo e perceber – e depois considerar o que podemos fazer a partir daí. Ouvir e responder em vez de fazer e otimizar: este é o momento básico da conexão, e esta crise pode tornar-se um momento de conexão coletiva, que inicia uma mudança de rumo, uma mudança de paradigma.

Sympathy For The Devil?

Então…?

É importante reconhecer o que acabou de acontecer, porque, na verdade, é dificilmente compreensível. Este gigantesco sistema económico, que tinha sido concebido para crescer durante 250 anos e parecia imutável, acabou de parar no seu caminho. Nas minhas análises da aceleração, quase desespero com a questão: como sair deste sistema? Leve o transporte. O número de aviões, comboios, carros, camiões, navios, bicicletas – tudo se limitou a aumentar durante 250 anos -, mesmo em tempos de guerra e apesar de todas as críticas ao crescimento e das preocupações com o clima. Parecia uma lei da Natureza que a economia iria crescer. E agora, no espaço de duas semanas, paralisámos tudo. Não foi o vírus que nos impediu. O vírus não faz cair aviões, não fecha fábricas, não cancela concertos. Foi uma ação política. Uma lição que podemos aprender com a crise é que somos sempre e muito fortemente capazes de ação política. De certa forma, estamos atualmente a viver um espírito de união coletivo: juntos, somos capazes de ultrapassar uma máquina gigantesca, com 250 anos!

A humanidade moderna foi impulsionada pelo desejo de tornar o mundo disponível: penetrar nele cientificamente melhor, regulamentá-lo tecnicamente melhor, controlá-lo economicamente. E agora vem este pequeno monstro chamado Covid-19 mostrar-nos o pouco controlo que de facto temos sobre o mundo. Aqui está algo que ainda não investigámos cientificamente, que ainda não podemos combater medicamente, que ainda não podemos controlar económica e politicamente. O vírus tem realmente todas as características de um monstro: os monstros podem espreitar a cada esquina, não os vemos na maioria das vezes, só sentimos a sua presença. Isto descreve o que estamos a passar quando saímos de casa: Pode haver qualquer coisa no ar. A próxima pessoa que encontrarmos poderá ser uma ameaça mortal. O monstro está em todo o lado e muda tudo, mas não conseguimos vê-lo nem controlá-lo. Estamos confrontados com a precariedade da nossa existência e do nosso sistema. A nossa própria insuficiência, a nossa própria mortalidade.

You Can’t Always Get What You Want?

Podemos ver as coisas dessa forma: Numa crise, algo que já estava em vigor na sociedade, rompe-se. Mas, apesar de todas as esperanças utópicas, estou inicialmente cético quanto às consequências imediatas. Sempre sonhei que iríamos encontrar uma forma de estabilização social que não se baseasse no aumento e no crescimento. Mas ainda não encontrámos nenhum outro modo, acabámos de entrar numa crise. Se se para um sistema de aumento, como se fez agora, não se tem um novo estado, apenas um sistema disfuncional. Existe, evidentemente, o perigo de, depois de o vírus ter desaparecido ou de termos encontrado uma cura, continuarmos imediatamente como antes. No final, será aquilo a que eu chamo uma desaceleração funcional temporária: Vou a um mosteiro de férias ou faço uma caminhada pela Via Algarviana, para depois poder voltar a ser realmente rápido e eficiente no trabalho. Na atual crise, pode também acontecer que, posteriormente, se verifique um surto de crescimento económico sem precedentes. Então, pelo menos, não teremos ultrapassado o problema do sistema.

Por outro lado, a experiência da pandemia é também a de uma total perda de controlo. Até agora, não existe nem uma vacina, nem um antídoto, nem uma estratégia eficaz para conter a propagação do vírus. A vida de muitas pessoas tem sido desacelerada de um dia para o outro. Escrevo conscientemente: de muitas pessoas. Enfermeiros, médicos, pais solteiros com filhos – estas pessoas têm menos tempo e mais stress do que o habitual.

Living In A Ghost Town?

Uma coisa, porém, já podemos ver muito claramente: no antigo sistema, havia um desequilíbrio entre os mercados desencadeados e um Estado cada vez mais fraco. Neste momento, temos um Estado gigantesco. Quando até António Costa diz agora à TAP para se manter em terra, uma coisa é clara: faz sentido que as instituições económicas tenham de servir a sociedade e não o contrário. É isso que devemos conseguir: colocar a economia de novo ao serviço das necessidades da sociedade. E muito de bom está também a ser criado ao nível da ação comunitária. Estamos a assistir a uma série de ações de solidariedade: Pessoas que ajudam os seus vizinhos, idosos, fazendo música em conjunto nas varandas ou aplaudindo o pessoal de enfermagem. Vemos que as pessoas em crise estão dispostas a agir em conjunto e a pensar nos outros que não estão a ir tão bem. Esta é uma oportunidade histórica. Não devemos deixá-la passar em branco!

Theobald Tiger

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