Segunda-feira, Maio 27, 2019
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Entrevista-BJ Boulter

A minha expressão de esperança

Vários anos de trabalho estão na base deste filme. Ela parece estar exausta. Por isso esperamos algumas semanas por esta entrevista. A nossa entrevista pessoal é antecedida por muitas trocas de pensamentos animadas ao telemóvel. Mas porque me quer filmar, pergunta BJ Boulter numa das suas mensagens? A resposta é que determinadas testemunhas da história contemporânea ganharam o seu lugar na nossa galeria de retratos. Embora não muito convencida, ela aceita. Finalmente, nós nos encontramos com a La Grande Dame do Filme na sua Quinta de Ochalá, em Estômbar, Lagoa. Junto da versão miniatura do seu adorado Lago Vitória, há uma mesa e mais três cadeiras. Ela acomodou-se numa delas e deu as outras duas para nos sentarmos. Uma amoreira sombreia o cenário. Depois começa a chover.

A Alma Certa - Cartaz
A Alma Certa – Cartaz

Tão profissional que é BJ abriu no momento certo uma sombrinha de grandes dimensões entre a mesa e a câmara. E assim o nosso pequeno espaço manteve-se relativamente seco. Testamos o som e conversamos um pouco sobre o primeiro filme de ficção produzido por ela e realizado pelo seu filho, que foi rodado no Algarve e que estreou este ano nas salas de cinema. Alguns dias antes, BJ e a equipa de filmagens nos tinham convidado para assistir à estreia do filme no Teatro das Figuras, em Faro. Com casa lotada (800 lugares) houve aplausos de pé e uma festa que se prolongou até de manhã.

Nós estamos mais interessados no que se passa nos bastidores do negócio do glamour com o seu tapete vermelho: na economia do filme. Porque o filme é um meio e também arte contemporânea; um jogo de interação entre imagem e som; mas acima de tudo a combinação de todas as artes antigas desde o romance e histórias sobre música e dança, pintura, fotografia e escultura até à arquitectura e design. Depois o guião do filme começa a ganhar forma, e paralelamente o aspecto comercial da cinematografia ganha contornos. Realizador e produtor têm que pensar sobre a produção e o orçamento para a implementação de um guião: sobre o equipamento de câmara e os dias de filmagem, honorários dos actores, custos dos trabalhos de estúdio. A listagem dos custos é longa e aumenta ainda mais a cada dia.

A questão que se coloca é se a arte, imaginação e paciência para arrecadar fundos para um projecto cinematográfico, não serão muitas das vezes desvalorizadas. A Eco123 perguntou à produtora BJ Boulter se as suas longas experiências fílmicas em África provaram ter sido benéficas:

ECO123: Primeiro gostaríamos de falar sobre África: as origens da sua alma.

BJ Boulter: África, de facto.

BJ quer dizer Barbara Jane?
Sim, isso mesmo.

Então, a Barbara Jane onde nasceu?
Oh, eu nasci em Inglaterra.

O que a fez ir para África?
A minha mãe. Ela embarcou num navio comigo ainda bebé. Levou-me a encontrar-me com o meu pai, que na altura estava na Tanzânia.

Quando veio para o Algarve?
Em 1962 – para estar junto dos meus pais.

O que mudou entretanto?
No Algarve eu diria que a atitude. A atitude mudou.

Como assim?
Eu penso que é menos feliz do que antes.

Isso leva-nos ao ponto. Dinheiro. Que significa para si?
Dinheiro. É um meio para atingir um fim. Se quisermos um carro, precisamos de dinheiro para comprar um. Se quisermos viajar para algum lugar, precisamos de dinheiro para comprar o bilhete.

Para um filme também?
Entrevista BJExacto, se quisermos fazer um filme, precisamos de dinheiro para isso. Neste caso, quisemos fazer um filme, e por isso elaborámos um orçamento. E depois analisámos quantas partes desse orçamento estariam disponíveis para nós através de pessoas que nos ofereciam esses bens e serviços ou financiavam através de dinheiro, ou membros da equipa que nos ofereciam os seus serviços gratuitamente ou por muito barato, ou o que quer que fosse. E decidimos avançar, especialmente porque na altura nunca tinha ouvido falar em crowdfunding. Mas procurei saber o quanto antes.

Interrompemos a nossa entrevista para uma breve pausa. Os sapos coaxam. O sol está de volta. BJ Boulter conta-nos como foi parar à indústria cinematográfica em meados dos anos 1980. Ela começou a escolher locais para rodar spots publicitários na África Oriental, e também cenários de filmagem e figurinos. Trabalhou em Hong Kong e Austrália. Depois, as cenas que ela desenhava na altura no seu bloco de notas eram enviadas por Fax para Londres para serem aprovadas. Era no tempo em que as chamadas telefónicas eram muito mais caras e os telefones por satélite ainda não existiam. E era esta luz única que a fascinava em África e que aí a inspirava à pintura. A luz é este carácter natural único, que torna também o Algarve num dos mais atraentes locais para filmar da Europa. BJ Boulter reside aqui há mais de meio século.

Quanto à nossa pergunta sobre quanto teria custado o filme bilingue de 93 minutos «The Right Juice» (título português «A Alma Certa»), BJ Boulter pareceu fugir várias vezes. “Não tenho todos os números em mente”, afirmou. Porém, quem a conhece, sabe que isso não é verdade. Ela não poupa elogios a todos aqueles que colaboraram voluntariamente no projecto. Por último revela-nos que foram recolhidos 75.000 euros de fundos de financiamento activo da longa-metragem e ainda igual montante em espécie: um filme de baixo orçamento, que estreou este ano nas salas de cinema da Lusomundo e que se encontra agora à venda em DVD.

E um dia decidiu fazer o seu primeiro filme?
(Risos). Sim, embora eu tenha estado toda a minha vida na indústria do cinema. Eu comecei como designer, primeiro de figurinos e depois de cenários. Durante muitos anos eu criei cenários em estúdios e em locais por todo o mundo. Pouco a pouco, tornei-me produtora executiva. Os produtores executivos num dado lugar do outro lado do mundo organizam tudo o que é necessário para a produção que vai ser feita. O meu filho, que na altura ainda não tinha quarenta anos, sempre quis fazer um filme. E falámos sobre filmes, sobretudo sobre filmes em África onde custa uma fortuna fazer um. Guiões e ideias diferentes. Ele na altura já tinha feito todo o trabalho do livro, começando provavelmente como runner, mas também fez trabalho de câmara e efeitos especiais. Fez edição, fez um pouco de tudo; primeiro assistente, todos os diferentes trabalhos. Há cerca de uma década atrás, ele decidiu que queria ser realizador e começou então a realizar spots publicitários, curtas-metragens e documentários. E foi por isso que sonhou em fazer uma longa-metragem. Num mês de Outubro, em que estávamos a almoçar em Silves com o meu cunhado e a minha irmã, o Christjan disse “Sabem uma coisa, este é o melhor sítio para rodar um filme. Pois nós conhecemos e adoramos. Tem luz, tem pessoas, tem as histórias. Tem tudo o que precisamos para podermos fazer um filme. E nós não temos dinheiro nenhum e, por isso, vamos pedir ajuda às pessoas”.

Descreveria esta experiência cinematográfica como emocionante?
Emocionante, essa é uma boa palavra, porque foi mesmo assim. E o mais emocionante veio das pessoas que quiseram ajudar, isso é que foi fabuloso.

Após esta experiência, que fará de diferente no futuro?
Diferente em termos de fazer filmes?

Sim.
Não voltaria a fazer isto sem dinheiro. É um enorme embaraço. Usamos muitos chapéus diferentes. E não conseguimos fazer o nosso próprio trabalho com satisfação própria e ainda descansar o suficiente. Acabamos por ter tantos trabalhos no nosso prato. Neste filme, muitos de nós partilhámos diferentes trabalhos. E trabalhámos muito arduamente para conseguirmos fazê-lo. E isso devido à falta de dinheiro.

P.S.: Uma parte considerável dos € 75.000 do orçamento do filme «The Right Juice» foram recolhidos através do Crowdfunding e de 30 patrocinadores locais.

About the author

João Gonçalves (31) Natural da Serpa. Licenciatura em Marketing, Comunicação Empresarial, Produção Audiovisual na Universidade do Algarve, em Faro. Trabalha actualmente como realizador, operador de câmara e editor. Vive em Faro.

About the author

Uwe Heitkamp, 53 anos, jornalista e realizador, vive 25 anos em Monchique, Portugal. Adore caminhadas na montanha e natação nas ribeiras e barragens. Escreve e conte histórias sobre os humanos em relação com a ecologia e a economia. Pense que ambas devem ser entendido em conjunto. O seu actual filme “Herdeiros da Revolução” conta durante 60 minutos a história de uma longa caminhada, que atravessa Portugal. Dez protagonistas desenham um relatório da sua vida na serra e no interior do país. O filme mostra profundas impressões entre a beleza da natureza e a vida humana. Qual será o caminho para o futuro de Portugal? (Assine já o ECO123 e receberá o filme na Mediateca)

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