Terça-feira, Agosto 22, 2017
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Construção ecológica, vida saudável

Rolf Disch nasceu em 1944 e é arquiteto. Vive e trabalha em Friburgo, na Alemanha. Disch tornou-se famoso pela sua inovadora obra arquitetónica na área da construção de casas solares. Por essa razão recebeu, em 2003, o “Global Energy Award”. É o inventor e desenhador das casas “Energy Plus House”, Casas de Energia Positiva. Em 2009 foi galardoado com o “Utopia-Award”. As suas casas, os seus bairros e os seus edifícios de escritórios são neutros no que toca a emissões de CO2 e singulares na sua traça arquitetónica. Produzem mais energia do que gastam. A ECO123 visitou este pioneiro no camarote do seu barco solar.


Como é que, de manhã, o arquiteto, agora com 72 anos de idade, se desloca para o seu trabalho?
De bicicleta. A minha é dobrável e posso transportá-la no elétrico e no comboio. Levo-a sempre comigo. Por exemplo, há pouco tempo estive em Viena em trabalho e também a levei. Fiz lá 70 km. É uma bicicleta estável e faz-me bem andar nela. Não vi necessidade de arranjar um carro elétrico. É que aqui também temos três lugares para o “car-sharing”. E agora queremos instalar um ponto de carga para veículos elétricos junto aos nossos escritórios. Estamos a aguardar a licença camarária.

O que o levou a construir os veículos solares com que ganhou as competições mundiais na Austrália?
Em 1987 levei quase o ano inteiro a construir o meu veículo para a Tour de Sol na Austrália. Depois da corrida, o gestor da Mercedes australiana ficou muito interessado em que eu construísse e conduzisse uma viatura para a Mercedes dalí a três anos. Entrou em contacto com a direção na Alemanha e eles também estavam muito interessados. Fiz-lhes então uma proposta. Eles encaminharam-na para a Aerospace, já que a viatura era de construção ultraleve. Mas, na altura, acharam que era cara demais. Depois, ainda ganhei uma corrida contra o piloto de Fórmula 1, Marc Surer. As viaturas estão agora no museu. Foram as primeiras do género. Mas quando se é arquiteto, costuma-se construir casas.

E não trabalha desde ontem. Como foi que tudo começou?
Comecei bem mais cedo, em 1969. No meu ateliê comecei com projetos sociais, ou seja: jardins infantis, pousadas de juventude, escolas para ensino especial, lares de idosos. Era essa a minha área. Era alcunhado de arquiteto social. Sempre me impus objetivos concretos e depois projetava aos outros as soluções.

Mas há que ter sonhos para poder ter ideias, e depois desenvolver projetos a partir destes. Qual é a origem das suas ideias?
Tem que se ser inventivo. Eu aprendi a carpintaria. Aos 14 anos lá ia eu para as obras, com a mala das ferramentas no porta bagagens da bicicleta. Imagine-se. E, após três anos, já tinha a formação feita, mas, como queria ser arquiteto, ainda aprendi dois anos a ser pedreiro. Durante os estudos fiz também cursos de soldador que me valeram mais tarde, quando tive que montar as viaturas. Tinha que soldar os finíssimos tubos para as realizar.

O que lhe ocorre quando pensa no futuro da habitação?
Penso nas cidades e nos concelhos que precisam de edifícios adequados ao futuro. Nas edificações que se pensa para zonas novas e na restauração de bairros e aldeias, onde se atrai e enraízam jovens famílias, onde projetos adequados a todas as gerações oferecem espaço atrativo para os jovens e os idosos, é necessário planear e projetar de forma convincente com 50 anos de antecedência. É esta visão credível de uma comunidade que dá o ímpeto para o regresso, evita o abandono e para o investimento particular ou empresarial. Uma Casa de Energia Positiva é muito interessante, porque possibilita ao proprietário ter rendimentos de fonte limpa e, simultaneamente, poupar nos custos fixos mensais. Representa modernidade, um modo de vida sustentável e até luxo, no seu melhor sentido. Resumindo, tudo o que uma comunidade pretende ser. E a nova forma de construir mostra a todos que pensamos nas gerações seguintes.

Como funciona uma Casa de Energia Positiva?
O ponto chave para este tipo de casa é o Sol. O telhado é composto pela maior área possível de painéis fotovoltaicos, e a água também é aquecida por painéis térmicos. A técnica antiga de fazer o telhado sombrear o sol no Verão mas deixar entrar o sol até ao fundo da casa de Inverno também é usada. Os vidros triplos, refletores de raios infra-vermelhos, deixam entrar muita luz mas, ao mesmo tempo, mantêm o calor dentro da casa. Todo o exterior da mesma está livre de fontes de calor, é isolado e hermeticamente fechado. A ventilação com recuperação de calor permite uma renovação do ar permanente quase sem perdas de calor.

Que dificuldades tem um arquiteto que pretende realizar ideias inovadoras?
O financiamento foi sempre um dos obstáculos, já que, basicamente, nunca havia dinheiro disponível. A partir do momento em que um arquiteto lida com a administração pública, também surgem as dificuldades. Principalmente, quando a responsabilidade tem que ser assumida por outrem. Temos que ser nós próprios a assumir a responsabilidade.

Como se vive na consciência de pertencer à minoria dos arquitetos que pretende construir de uma forma compatível com o futuro.
No fundo, bem. Mas quando se conhece os problemas que teremos de enfrentar como sociedade, a situação torna-se diferente. Pergunto-me sempre como conseguirei entusiasmar alguém, conquistá-lo, para que reconheça que se tem de mudar, que se tem de transformar. Isto por si só já é uma tarefa quase impossível.

Explique-nos então como é que isso pode ser feito. Na maior parte da Europa vivemos de forma confortável, acostumados ao facto de que a eletricidade está simplesmente disponível na tomada.
Em maio do ano 2000 apresentámos as primeiras cinco casas. Organizámos um dia de porta aberta. As pessoas vieram com todos os preconceitos possíveis e imaginários. Consideravam as casas caras demais. Era isso que tinha sido publicado nos jornais. Outro dos argumentos era que uma casa tem de ser bem ventilada. E mais outro, que nestas casas nem se podia abrir as janelas.

Como conseguiu desvalorizar os preconceitos?
Através da completa transparência e de tecnologia cada vez melhor. Surgiram as leis para a venda de energias renováveis na Europa, e, de um momento para o outro, valia a pena vender a sua própria energia. Até aumentámos a área dos telhados com painéis fotovoltaicos. Não foi fácil. Hoje tudo isso deixou de ser um problema. Hoje em dia sabe-se que essas casas deram provas de serem eficazes. Há pessoas que moraram nelas e que podem dar o seu testemunho.
Usar materiais naturais não é bom apenas para o ambiente natural da nossa Terra, mas também o ambiente das construções. Passamos mais de 50% da nossa vida em espaços interiores. Tanto em edifícios habitacionais como em edifícios comerciais, as Casas de Energia Positiva evitam todos os materiais nocivos. Todo o material de construção tem que ser livre de emissões. Em conjunto com sistemas de ventilação modernos, e apesar de não ter ar condicionado, responsável pelo desperdício de energia, a Casa de Energia Positiva garante sempre um ar fresco, saudável e bem temperado.

Não tem por vezes o pressentimento que tudo isto aparece tarde demais? Os políticos, que se apresentam para modificar algo, são modificados pelo sistema, em vez de modificarem o sistema em que vivemos.
Vá lá encontrar esse político que pretende mudar algo, e que tem uma visão, e está disposto a lutar por ela. Não há muitos assim. É extremamente difícil fazer política contra um lobby de donos de obra conservadores.

Como iremos concretizar o COP21 e COP22?
Na minha opinião, isso ainda irá levar algum tempo. Em vez de nos juntarmos e pensarmos no que há concretamente a fazer, somos conduzidos pelas circunstâncias. Na semana que vem estarei outra vez em Berlim, onde novamente se discute na generalidade, sem chegar a qualquer conclusão. Trata-se sempre dos postos de trabalho. Ameaçam com o corte de postos de trabalho e depois tudo acaba por ficar na mesma.

Eu venho de uma pequena aldeia no Sudoeste de Portugal em que metade das casas estão abandonadas e lentamente se transformam em ruínas. O que seria possível alterar, e por onde se poderia começar?
Pode-se pegar numa das casas em ruínas e restaurá-la. Eu procuraria um patrocinador para o financiamento. Construir uma casa modelo para mostrar o que é possível fazer. Analisaria o clima. Teria que se tentar aproveitar o arrefecimento noturno para superar o calor durante o dia. Usar um bom isolamento, também no telhado. Implementar um telhado solar, já que também é possível usar a energia do sol para o arrefecimento térmico ou elétrico. E depois, observaria também como é que antigamente os nossos avós resolviam estas questões. Com que materiais construíam as casas? De barro? Granito? Xisto? Esclarecer o encaminhamento das águas sanitárias. Há alguma central de tratamento com plantas no local? Ou uma central de tratamento com secagem?

Quanto custaria uma casa modelo com 150-200m2?
Isso é difícil de dizer. Provavelmente seria necessário renovar as paredes, o telhado e as janelas. Quanto custa a mão de obra no local? Que materiais e técnicas usaríamos? Mas, por fim, não haverá mais custos energéticos. Pode-se vender a eletricidade à rede ou, numa aldeia, criar uma rede própria. Ou construir um ponto de carga público para usar viaturas a eletricidade solar. Estimo que se tenha que contar com 300.000 euros para a renovação de uma casa desse género, talvez ainda menos. Era algo que teria que ser experimentado. Se se fizesse o saneamento de uma localidade inteira, receber-se-ia incentivos da Europa. Algo tem que ser feito em Portugal. Tem que se oferecer à juventude uma perspetiva e postos de trabalho em profissões ligadas à sustentabilidade. A natureza oferece muitas fontes de energia em Portugal. Só se precisa da tecnologia e do trabalho. Depois, poupa-se petróleo, gás e carvão. Ouvi dizer uma vez que os petroleiros chegam e nos fornecemos de petróleo e na volta levam o nosso dinheiro consigo…

Mas para concretizar uma ideia é preciso dinheiro…
… quando uma ideia é suficientemente boa, o dinheiro aparece por si só. Quando se  renova uma casa, ela é otimizada, também pela integração de tecnologia solar e pelo isolamento. Uma Casa de Energia Positiva é abastecida a 100% com energias renováveis. O seu uso é neutro no que respeita as emissões de CO2. E reduz o consumo de energia de tal forma que produz mais energia do que consome. Junta-se a isso a escolha de materiais de construção saudáveis para a habitação. Isto não se financia só com capitais próprios, mas também com incentivos, crowdfunding e donativos, criando fundos de investimento. Pode-se fundar cooperativas. A Alemanha poderia apoiar com o seu know-how – com diversas cooperações: na área da pesquisa e do desenvolvimento, assim como parcerias em projetos modelo, desenvolvimento de projetos e a sua concretização. Poderíamos colaborar na elaboração de um sistema composto 100% por energias renováveis em Portugal, com um tratamento eficaz das energias e da remodelação urbana e de edifícios, e em estudos sobre o impacto da eletrificação e autonomização dos transportes, na criação de novos modelos de negócio, de postos de trabalho, desenvolvimento de cidades e do interior e no desenvolvimento com sucesso de um sistema dual de formação profissional. Só assim é que a parceria europeia faz sentido.

O que falta para tal?
Por um lado, falta a consciência de poder mudar algo para melhor. Por outro, há pessoas a mais que simplesmente estão de barriga cheia, acomodadas e desligadas das questões. Uma Casa de Energia Positiva sustenta-se a si própria. Com os dados das habitações solares daqui definimos uma casa média: com, em média, três pessoas, 137m2 de área habitável aquecida e uma área de painéis fotovoltaicos de 49m2 com 6,3 kWp de potência nominal. Essa casa consome anualmente 79 kWh/m2, mas produz 115 kWh/m2. O superávit é, portanto, de 36 kWh/m2 de energia primária.

E o que significa financeiramente?
Para 100m2, isso significa custos acrescidos de 40.000 Euros. Mas os rendimentos durante um período de dez anos são cerca de 21.000 euros, em 15 anos chegam aos 31.500 euros e em 20 anos até aos 42.000 euros.

Muito obrigado por esta entrevista.

ROLF DISCH

www.rolfdisch.de

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