Terça-feira, Junho 2, 2020
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Monchique 2030 – Entrevistas

ENERGIA/MOBILIDADE/FLORESTA

Daniela Dommett, 19
Estudante, natural de Monchique com família da África do Sul.

“Eu vivo numa casa que é completamente sustentável, temos energias renováveis. Mas também gosto de viajar, portanto, quero optar por transportes mais sustentáveis. Ir de comboio em vez de avião ou ir a pé, mesmo. Porquê não?

 

Depois, acho que a nível da comunidade há passos que poderíamos tomar todos juntos, como uma melhor manutenção da floresta, o que poderia contribuir para reduzir a nossa pegada ecológica como comunidade. Não é só plantar árvores, mas tratar das florestas. As espécies têm que ser mesmo bem escolhidas e tratadas de uma forma mais sensível.”

 

 

 

 

 


CONSTRUÇÃO/ALIMENTAÇÃO/MOBILIDADE/ENERGIA

Stephen Hugman, 65
Engenheiro de recursos hídricos, nasceu na Inglaterra, vive em Monchique à 26 anos

“Primeiro, vivo em Monchique e tenho uma casa reabilitada, cuja reconstrução e criação de condições de conforto precisava de muito menos recursos, minerais e energia do que uma casa nova. É bem isolada e precisa de pouca energia para aquecer e para refrescar no verão.

Quase não como carne em casa, o que é a segunda principal causa de produção de carbono na atmosfera.

E o terceiro, o mais difícil: vivendo em Monchique, é sempre preciso ter transportes. Mas com as novas tecnologias já podemos comunicar facilmente sem necessidade de nos deslocarmos. Tenho trabalhado muito através da internet e tenho colegas que trabalham daqui para outros países. Vivendo dentro da vila, ando bem a pé. É acessível ir a Portimão, a cidade mais perto, de autocarro, mas não é fácil, por escassez de horários, e o custo em relação a ir em viatura própria, não é muito grande. Seria muito bom ter um carro que não usasse combustíveis fósseis mas, na realidade, não vale a pena comprar uma viatura nova porque a quantidade de energia usada na produção de um carro é superior à que irei usar no uso da viatura que já possuo. Se o meu carro se estragar, é interessante, porque este ano vi, pela primeira vez, um mercado de venda de carros elétricos em segunda mão. Mas se comprar um, como já foram vendidos uma vez, não estou a criar necessidade de construir um outro. Poderei então pensar em trocar a minha viatura velha, a gasolina, por outra, usada, mas elétrica. E é fantástico que Monchique seja um exportador de energia renovável e que a energia aqui consumida seja, também ela, quase toda renovável.”

 

 

 


ENERGIA/MOBILIDADE/ECONOMIA LOCAL/FLORESTA

John roy dommet
John Roye Dommett, 23
Licenciatura em Ciencias Politica e Economia, futuro agricultor, nasceu na África do Sul e cresceu em Monchique

“Eu vivo numa quinta não convencional, a nossa energia é à base da combinação de energia solar e eólica. É desafiante, às vezes, ter que estar sempre consciente dos nossos consumos elétricos porque sabemos que diariamente há um limite, não podemos ter a televisão sempre ligada, não podemos deixar as luzes ligadas porque somos forçados a poupar energia e usar a energia que temos.

Estou a trabalhar para ter independência financeira para que sempre que viajo consiga fazer o ‘carbon offset’ das minhas milhas de carbono, porque quando viajamos, estamos a emitir carbono. O meu objetivo seria de ter a medição anual do meu consumo de carbono e investir igual quantia em dinheiro para neutralizar as minhas emissões de carbono.

Mais ações concretas: quero investir o dinheiro que estou a poupar em empresas que tenham ações de ‘ethical consumption funds’. Quero ‘desinvestir’ o dinheiro de mercados externos e investi-lo no nosso mercado local, monchiqueiro: consumir produtos locais para que a pegada seja pequena.

Gostava de plantar mais árvores, e tenho que fazer isso este mês, todos os meses plantar um bocadinho.”

 

 

 

 

 


RECICLAGEM/PLÁSTICO/CONSUMO DE ÁGUA/MOBILIDADE/AGRICULTURA

Fábio Carpella
Fábio Carpella, 32
Arqueólogo, natural de Lagos

“Recentemente mudei um hábito que tinha no dia-a-dia que era comprar garrafas de água de plástico. Arranjei garrafões de vidro e mês e meio a mês e meio vou a Fóia buscar água, oito garrafões de vidro. E em casa uso essa água. Portanto, fecho as garrafas com cortiça e assim reduzo o consumo de plástico e da água que vem com micro-plástico.

Na minha casa é tudo elétrico, portanto não utilizamos gás e temos painéis solares quer para a água, quer para a eletricidade.

Gostava de ter um carro elétrico para reduzir a minha pegada ecológica, porque faço cerca de 80 quilómetros todos os dias de Bensafrim para Monchique por causa do trabalho, mas seria necessária a existência de mais postos de abastecimento para dar esse passo.

E a minha grande ambição agora é de pegar num terreno de família que temos na zona de Bensafrim e começar a fazer agricultura biológica, o que já faço na minha casa, mas muito reduzido: dez couves por ano, dez alhos, é quase uma brincadeira, um hobby. O ideal era produzir para a família toda, e quiçá um dia para a comunidade local. Tinha que me dedicar a isso. Para abraçar o desafio por inteiro tinha que abandonar o meu emprego em Monchique mas estaria disposto a isso se conseguisse sustentar a minha família e obter rendimento disso.”

 


 

ECONOMIA LOCAL/RECICLAGEM/PLÁSTICO

Nadine Moleiro
Nadine Moleiro, 37
Trabalha no departamento vendas e distribuicao da revista ECO123, tem nacionalidade alemã, mas cresceu em Portugal e vive em Monchique

“Desde que voltei para Monchique compro tudo local e evito comprar nos grandes supermercados. Reciclo tudo o que posso: vidro, plástico, e mesmo quando vou jantar fora tento evitar as latas, as garrafas de plástico. Tento sempre pedir o vidro para ver se conseguimos mudar a mentalidade dos vendedores, para demonstrar que o público manda. E no futuro ter uma horta, mas isto ainda é um sonho.”

 

 

 

 

 

 

 


MOBILIDADE/ALIMENTAÇÃO/RECICLAGEM

Katharina
Katharina, 33
Psicóloga, é de Göttingen e vive em Aljezur

“Nunca na minha vida possuí um carro, ando de bicicleta ou vou à boleia.

Sei que a vida assim, supostamente, é mais complicada, ou que simplesmente exige mais planeamento. Para mim, isto tem a haver com a zona de conforto, e com a disposição que se tem para questionar as coisas: será que tenho mesmo que ir ao supermercado? Quase não compro nada novo, também já não tenho a necessidade de comprar constantemente coisas novas. De certa forma, libertei-me disso.

Só viajo até à Alemanha muito raramente, mas, nesse âmbito, fica a questão das alternativas às viagens de avião: ir à boleia ou de comboio.

E depois há o tema do desperdício alimentar, que me preocupa há muitos anos. Por exemplo, o Intermarché em Aljezur: não me surpreendeu nada encontrar lá mesmo muitos produtos nos caixotes do lixo. Desde alimentos, baterias, detergente, até creme solar… tinha tudo o que se possa imaginar em produtos de supermercado. O que faço concretamente nesse caso não é muito apetitoso. Realmente, retiro tudo o que ainda se possa aproveitar, legumes e “fruta feia”, e levo tudo em malas na minha bicicleta. Em casa, lavo tudo bem para depois consumir ou dar a amigos.

Durante o ano passado, no total, só em Aljezur retirei mais de 100 quilogramas de produtos alimentares do lixo.”

 

 


ENERGIA/FLORESTA/TURISMO/MOBILIDADE

RABAN VON MENTZINGEN
RABAN VON MENTZINGEN, 83
É oriundo de Friburgo, foi adido de imprensa na Embaixada Alemã. Atualmente vive em Aljezur

“Estou, atualmente, a fundar uma associação para os concelhos de Monchique, Aljezur e Odemira que tem como objetivo fomentar o retorno da floresta natural em Portugal, fazendo pressão junto dos municípios e do Estado, dando voz a quem diz: queremos de volta as florestas naturais e reduzir, passo a passo, a área ocupada com eucalipto. É que não é coerente, por um lado, querer turismo ecológico e, por outro, ter cá o eucalipto. Da mesma forma como não ficam bem as estufas da agroindústria. Por um lado, andam, a alta voz, a apoiar o turismo de natureza, e, por outro, criam estes obstáculos.

Para mim, pessoalmente, é fundamental reduzir a minha pegada ecológica: produzo energia solar. Planto legumes em agricultura biológica, sem usar adubos sintéticos. Desloco-me numa bicicleta elétrica, quase todos os dias vou e volto nela os dez quilómetros para Aljezur. Até já bati num carro, mas com sorte: o carro ficou estragado e eu e a bicicleta ficámos bem.”

 

 

 

 

 

 


MOBILIDADE/ALIMENTAÇÃO/ECONOMIA LOCAL/COMPOSTAGEM/AGRICULTURA

Gil Penha-Lopes
Gil Penha-Lopes, 37
Investigador na FCUL, vive a norte de Lisboa numa zona mais rural

“Durante estes últimos dois anos já não temos carros a gasolina nem a Diesel na minha família, mas temos um carro elétrico. De dois carros, passamos a ter um carro que basicamente só temos porque a Escola Waldorf mais perto, onde gostamos de ter a minha filha, está um pouco afastada. Caso contrário, já nem carro teríamos.

Há cerca de dez anos somos maioritariamente vegetarianos, a tender para o vegan. O consumo de carne é raro, exceto quando somos convidados para um evento. Consumimos produtos locais, somos membros de uma CSA – Community Supported Agriculture. Começamos com a Herdade do Freixo do Meio durante uns tempos e agora com mais alguns locais ao pé de Odivelas.

No âmbito da minha investigação e do meu trabalho, cheguei a viajar duas vezes por mês durante uns três anos e 2017 foi o ano em que fiz apenas uma viagem de avião durante todo o ano. Portanto, foi assim uma declaração: só vou lá para fora quando tem mesmo que ser e quando é para estar durante algum período. E também estou mais focado na investigação local e regional.

Ao nível da Faculdade temos alguma iniciativa de sustentabilidade, o projeto Horta FCUL e, dentro desta comunidade, temos ainda o projeto de investigação “Permaculture Living Lab”, que tem como função fazer investigação através da criação de sustentabilidade na faculdade. Fizemos o reaproveitamento das águas de chuvas, tudo o que é recursos de jardinagem que seriam mandados fora, nós fazemos a compostagem. O ano passado compostamos 40 toneladas de material. E agora estamos a fazer o reaproveitamento de todos os recursos de restos de alimentos não cozinhados para fazer compostagem a ser utilizada na nutrição de sistemas da faculdade ou para estarem disponíveis aos seus membros. No ano passado, só de um bar, nós conseguimos fazer uma tonelada de composto e agora vamos ter mais sete bares, sendo que um deles é a cantina principal. Portanto, vamos aumentar isto em cerca de 20 a 50 vezes.E

Para o futuro, tenciono ir viver para perto dos meus sogros e nessa casa termos painéis solares e outros tipos de sistemas alternativos de aquecimento e produzir maioritariamente a minha comida. Já está em processo, já diria que metade dos meus vegetais vêm de uma horta doméstica. E o carro elétrico vai ser o meu último carro, a partir de agora será ou comunitário ou não vai ser preciso porque vão existir mais bicicletas e está tudo muito mais próximo.”

 


ENERGIA/AGRICULTURA/PLÁSTICO

João Vila
João Vila, 51
Agricultor, natural de Monchique

“Eu comecei a reduzir a minha pegada ecológica quando deixei de morar em Monchique e passei a viver no campo. A minha casa só tem eletricidade de painéis solares e tenho um coletor solar para a água quente. Portanto, não tenho contratos com a EDP nem com a câmara municipal para o abastecimento da água. Depois, procuro utilizar os alimentos da minha quinta, muitas vezes até utilizo alimentos selvagens como as labaças, folhas com as quais se pode fazer salada, sopa ou omelete. E faço agricultura biológica, produzo frutas para vender e legumes para me alimentar e à minha família. Procuro deixar de usar plásticos, cotonetes ou embalagens champô, substituindo-o por sabão.”

 

 

 

 

 

 


ALIMENTAÇÃO/MOBILIDADE

Pedro Neves Mota
Pedro Neves Mota, 51
Artista plástico e professor de meditação, é de Lisboa mas vive entre Berlim e Monchique

“Eu sou vegan, às vezes posso comer peixe ou queijo, mas de maneira geral não como animais porque já não é preciso. É muito importante ter uma alimentação saudável. Tenho 51 anos e estou em forma, também sou cozinheiro dessa área: macrobiótica, vegan e ‘raw food’. Recomendo que as pessoas tenham uma dieta alimentar baseada em plantas, o que reduz logo imenso a nossa pegada de carbono. E eu quase não ando de carro, ando sempre de transportes públicos quando estou em Lisboa. E quando vimos para Monchique, partilhamos um carro, vamos todos juntos.”

 

 

 

 

 

 

 


ALIMENTAÇÃO/RECICLAGEM

Cidália Cruz
Cidália Cruz, 46
Rececionista, é do Barreiro mas vive em Albufeira

“Eu tento, todos os dias, mudar algum hábito que tenho. Comecei a levar uma garrafa de água minha para o trabalho, para não usar as garrafas de plástico de lá. Levo um saco de pano para o supermercado. Não consumo carne. O gado é um dos maiores poluidores a nível mundial, o que faz com que haja monoculturas e as monoculturas, por exemplo de soja, são 80 por cento para o gado, e não para consumo humano.

Tenho um projeto que se chama ‘raizes.org’ onde estou a alertar as pessoas para uma outra forma de alimentação. Além do vegetarianismo, há que aproveitar os alimentos por inteiro: as cascas, os caroços, as sementes. Cozinhei uma vez uma simples sopa de espinafres e pesei o lixo que essa sopa deixou para trás: as cascas da cebola, da cenoura, da batata e os talos do espinafre e era mais do que meio kilo de lixo. Mas esse lixo, proveniente de produtos biológicos, pode ser aproveitado. Eu fiz paté com a casca da cenoura, fiz crepes com os talos do espinafre e pastéis de batata da sua casca. Da cebola dá para fazer um chá. É uma forma de aproveitar melhor a energia dispendida no cultivo destes alimentos. A água, a energia e o solo também são recursos limitados.”

 

 

 

 

 


ALIMENTAÇÃO/MOBILIDADE/CONSUMO DE ÁGUA

Bernd Freyer
Bernd Freyer, 60
Professor no departamento de Recursos Naturais e Ciências da Vida na Universidade de Viena (Universität für Bodenkultur Wien) e diretor do Instituto para a Agricultura Ecológica. É natural de Estugarda

“Quero consumir mais produtos produzidos de forma ecológica. Isso não significa que deixe totalmente de comer carne, já que temos prados naturais que requerem que haja pastoreio, o que leva a que haja leite e alguma carne. No entanto, é fácil seguir a recomendação de consumir no máximo 20 quilogramas de carne por ano e por pessoa*, mantendo assim uma nutrição equilibrada no que toca às proteínas, sem necessitar de carne que seja produzida com recurso ao milho.
De resto, em Viena vive-se melhor sem carro, e a mobilidade é responsável por grande parte da pegada ecológica. No que toca aos químicos no meu próprio lar, reduzi-os praticamente a zero, já que isso só leva à criação de estirpes bacterianas alternativas de que não precisamos para nada. Outro aspeto que é possível reduzir é o consumo de papel, bem como o consumo de água. Isso significa, concretamente, que tomo um duche em menos de meia hora e escolho mais programas de lavagem curtos.”

* O consumo de 20 kg de carne por pessoa e por ano, corresponde a cerca de 400 gramas por semana, já contabilizando todas as partes animais comestíveis, como por exemplo os órgãos, a pele e as cartilagens.

 

 

 

 


AGRICULTURA/ALIMENTAÇÃO/TURISMO

Tim Coombs
Tim Coombs, 66
Professor, veio do sul de Inglaterra para viver no Alferce, Monchique

“Temos meio hectare de terreno, e nele tentamos produzir muito do que necessitamos para a nossa alimentação. Gostaríamos, de, um dia, ter um “bed and breakfast” em que oferecemos comida produzida por nós, comprando menos, é essa a nossa esperança. E fazemos muitas coisas, tais como doces, conservas e chutneys. Durante o verão, quando temos hóspedes, orgulhamo-nos de poder dizer, por vezes, que tudo o que está à mesa veio do nosso jardim. Ou então que foi feito com produtos da Monique, de Monchique, dos seus ovos e do seu queijo. Tentamos, portanto, ter produtos alimentares locais, evitando os supermercados, reciclando tudo. E pensamos disponibilizar bicicletas no nosso “bed and breakfast”, dando um desconto aos hóspedes que as usem em vez do carro. É uma forma de incentivar o turismo verde, especialmente em Monchique. É, também, uma forma de apoiar os ciclistas, caminhantes e as pessoas que têm uma postura ecológica, que se preocupam com o meio ambiente, indo ao seu encontro com coisas que espelham os nossos valores e o nosso desejo de mudar o mundo.”

 

 

 

 


AGRICULTURA/ECONOMIA/LOCAL

Davina Lloyd
Davina Lloyd
Uma das habitantes seniores de Monchique, foi jornalista e professora em Londres e tem origens na Índia

“Acho que adoraria ter galinhas. Se pensar que os ovos vêm das galinhas e são embalados algures e depois enviados para os supermercados, e que eu tenho que me deslocar de carro para os adquirir e regressar a casa… deve existir uma forma mais fácil, mais rápida e também mais amiga do ambiente. Portanto, se eu tivesse galinhas, os ovos iriam “viajar” muito menos.”

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