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Da antiguidade à atualidade

A economia global em 358 páginas
Da antiguidade à atualidade

Da antiguidade à atualidade

Sábado, dia 3 de fevereiro de 2024.

A pequena editora Haupt-Verlag, sediada em Berna, na Suíça, publicou um grande livro. Conta a história das especiarias ao longo de 5000 anos e foi escrito pelo jornalista norueguês Thomas Reinertsen Berg e traduzido do norueguês para o alemão. Porque não está este livro também traduzido para português e inglês? E por que razão tem de ser um norueguês a escrever um livro sobre a história das especiarias, uma vez que, nesta matéria, Portugal desempenha um papel tão importante, a par da Holanda, da Inglaterra, da China, da Índia, do Vietname, da Indonésia e do Sri Lanka? Não seria também um bom tema para um autor português?

Não estaria a falar-se de importantes tesouros culinários? Este livro explica os motivos que levaram Portugal à rivalidade com Espanha, competindo nos mares para aumentar a sua riqueza nacional. Esta fonte de riqueza foi perseguida durante centenas de anos, foram feitas longas viagens, vividos naufrágios em longas batalhas navais – com navios carregados de noz-moscada, canela, pimenta, gengibre, cardamomo e cravinho. Navegaram durante enormes tempestades em alto mar, nas quais muitos marinheiros acabaram por perder a vida. Esta é, também, a história das guerras coloniais, da opressão, da escravatura e do engano – e a história da nossa gastronomia…

… o que seria hoje do arroz doce – e até mesmo do pastel de nata – sem a canela? O livro exibe onze capítulos de muito boa leitura, 330 páginas fascinantes, ilustradas com antigas cartas náuticas antigas e ilustrações de botânica.

Não existirão leitoras e leitores em Portugal interessados num livro tão bonito? As editoras também têm de ter lucro e encontrar muitas e muitos compradores. Os portugueses não leem bons livros de história? O leitor ficará também a conhecer alguns factos desconfortáveis acerca de portugueses, holandeses e ingleses e da sua cobiça pelas especiarias. Talvez isto explique o motivo pelo qual o livro tenha sido escrito por um norueguês e, até agora, tenha sido publicado apenas na Alemanha e na Suíça neutra.

Porque o comércio de especiarias foi também o início da escravatura. E Portugal teve o seu quinhão de responsabilidade nisso. Para aumentar os lucros e reduzir os custos, os portugueses necessitavam de mão de obra barata para as plantações. A solução mais fácil passava por encher os seus navios vazios com escravos de África na viagem de ida para “Maluka” (as Molucas), via Goa, e regressar a Lisboa, Lagos, Sevilha, Antuérpia, Amesterdão e Londres com os navios carregados de especiarias.

Se lermos o livro detidamente, tomamos consciência da origem do capitalismo dos dias de hoje e de todas as suas miseráveis consequências. Todos competem contra todos, um pouco mais de cada vez: não invejamos o sucesso dos outros, mas preferimos afundar os seus navios, de preferência roubá-los primeiro e apoderar-nos das cargas. As potências europeias em mutação – desde os romanos e os gregos, passando pelos árabes e os egípcios – não são propriamente compassivas no tratamento que dão aos povos da Indonésia e às tribos da Índia, do Sri Lanka e de África. Direitos humanos? Comércio justo? Ganhos para todos? Nada disso. Tudo isso veio muito mais tarde, se é que chegou a acontecer.

Hoje, quando estou em frente à prateleira das especiarias num supermercado e procuro noz-moscada, canela ou pimenta, apercebo-me de que, cada vez mais, prefiro o original à cópia moída ou à mistura de especiarias. Porquê? O que é que toda a gente já não tentou misturar e esticar para ganhar dinheiro: canela com farinha de madeira, malagueta em pó com bosta de burro, etc.? O que o petróleo foi ontem e o lítio é hoje, as especiarias foram anteontem – enquanto o ouro, a prata e o cobalto continuam a ser tão valiosos como sempre foram. Será que a humanidade e a sua ganância ainda podem ser controladas?  Die Geschichte der Gewürze, Genuss, Gier und Globalisierung (A História das Especiarias, do Prazer gastronómico, da Ganância e da Globalização), de Thomas Reinertsen Berg, é um livro escrito de forma muito profunda e divertida.

 

Livro: Die Geschichte der Gewürze

Genuss, Gier und Globalisierung, 358 páginas, 38 euros

(A História das Especiarias, Prazer, Cobiça e Globalização)

de Thomas Reinertsen Berg

publicado por Haupt-Verlag, Berna, Suíça

ISBN 978-3-258-08357-5

Uwe Heitkamp (64)

jornalista de televisão formado, autor de livros e botânico por hobby, pai de dois filhos adultos, conhece Portugal há 30 anos, fundador da ECO123.
Traduções: Dina Adão, John Elliot, Rudolfo Martins, Kathleen Becker, Patrícia Lara
Photos:Uwe Heitkamp

 

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