Terça-feira, Outubro 22, 2019
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O clima, um assunto para toda a vida

É uma quinta-feira solarenga em Oslo, com 32º de temperatura. A ECO123 encontra-se com o Dr. Per Espen Stoknes frente ao Parlamento norueguês. Ele não é somente psicólogo, também é economista e co-fundador da Norwegian Business School, especializada em crescimento verde. Para o visitar, Uwe Heitkamp viajou de Portugal até à Noruega de comboio (de forma a garantir uma pegada ecológica reduzida). Pretendem falar sobre o ar e o clima, e, sobretudo, sobre o livro de Dr. Per Espen Stoknes, que se tornou um bestseller.

OsloQuando comportamento e pensamento não são coerentes, acontece aquilo que é chamado de dissonância cognitiva. O termo refere-se a situações em que os sentimentos, os pensamentos e os comportamentos entram em conflito, criando uma tensão interior, que causa desconforto. Esta só desaparece quando um dos elementos muda, de forma a repor a harmonia. O psicólogo norueguês, Dr. Per Espen Stoknes, escreve que muitas pessoas agem de forma semelhante a fumadores no que toca às alterações climáticas: Eu fumo. E também sei que fumar provoca cancro.*

A ação e o conhecimento não condizem um com o outro e geram este tipo de desconforto a que chamamos dissonância: poderia deixar de fumar, mas é difícil quebrar o hábito e manter a amizade com os meus amigos fumadores. Se se continuar a fumar, essa dissonância tem que ser gerida de alguma forma.

Na generalidade, os fumadores lidam com a dissonância segundo as quatro seguintes estratégias. A primeira estratégia é uma alteração da perceção da realidade. Podem-se, por exemplo, convencer que realmente não fumam muito: em comparação com os outros, eu fumo muito menos. A sua segunda estratégia é minimizar a gravidade da sua preocupação. Desvalorizar a relação causa efeito entre o cancro e o fumo: a minha tia fuma quarenta cigarros por dia e tem saúde para dar e vender, e há quem morra de cancro sem nunca ter fumado.

A sua terceira estratégia consiste em juntar cognições-extra, como por exemplo: pratico tanto desporto que não faz diferença fumar ou não. Na quarta e mais radical estratégia, o fumador nega toda e qualquer ligação entre o fumo e a saúde. É possível ficarem convencidos que a assim chamada relação causa efeito entre o cancro e o fumo é apenas publicidade enganosa: é uma desculpa para algumas pessoas controlarem outras pessoas que gostam de ter o poder de decidir sobre a forma de vida dos outros.

No que toca à atitude das pessoas em relação às alterações climáticas, os padrões da dissonância cognitiva são semelhantes aos dos fumadores. Temos duas coisas em mente, ou duas cognições: tenho uma pegada ambiental grande, e sei que o CO2 provoca aquecimento global. Estes dois factos não combinam muito bem. Estão em conflito com a autoestima e criam uma sensação inconveniente de desconforto.

Na forma de lidar com esta dissonância parecem ser aplicadas as mesmas quatro estratégias. Primeiro, a minha pegada ecológica é insignificante. O que importa são as emissões de países longínquos: da China, dos EUA, da Rússia, etc.. Não sou eu, são eles… Segundo, posso reduzir a importância de uma cognição, começando a duvidar dela: Bem, os argumentos de que o CO2 causa o aquecimento global são fracos. Não tem havido aquecimento desde… Parece é ser do sol. Ou: são pessoas alarmistas, que exageram. Eu mantenho a cabeça fria e sou racional nesse aspeto. Nesse sentido, posso afirmar perante os outros, se me perguntarem, que talvez me preocupe o aquecimento global, mas que o assunto não tem importância. Terceiro, posso acrescentar outras cognições para me fazer sentir melhor: instalei uma bomba de calor e mudei as lâmpadas para tecnologia LED em casa, portanto agora posso voar para a Tailândia com a minha família de consciência tranquila. Posso consumir alguns produtos verdes, de forma a reduzir a minha dissonância, e para compensar outros consumos mais significativos. Quarto, posso negar e ignorar o assunto por completo: Não há provas que liguem o CO2 às alterações climáticas.

Para a maior parte de nós – escreve Per Espen Stoknes – a mensagem sobre o aquecimento global começa por criar alguns sentimentos de preocupação, desconforto, medo e culpa. Quanto mais acreditamos na mensagem, pior nos sentimos, enquanto não formos capazes de mudar o nosso comportamento, agir sobre aquilo que sabemos que aumenta a dissonância. Lutamos com esse conflito interior e começamos interiormente a negociar connosco próprios…

*“What We Think About – When We Try Not To Think About – Global Warming” Chelsea Green Publishing, USA pág. 62 e seguintes/pp. 62 ff

Conte-me algo sobre si.

Dr. Per Espen Stoknes
Dr. Per Espen Stoknes

Sou uma pessoa que gosta das montanhas, acabei de voltar de uma caminhada de uma semana nas grandes montanhas do Oeste da Noruega. Fomos abençoados com ar puro e com a água pura dos glaciares. É verdade que eles estão a derreter demasiado rapidamente, mas mesmo assim tudo era puro e estivemos na companhia de outros amigos caminhantes. Portanto agora estou descansado, de volta ao que tem sido o meu posto de trabalho nos últimos sete meses, o Parlamento. Porém, sempre tive sentimentos ambíguos perante a política, e ainda tenho, e neste momento estou contente por me retirar uns tempos no ano que vem para completar o meu novo livro sobre a economia verde, tema que também leciono na Norwegian Business School. Dirijo, nessa universidade, um mestrado em economia verde, e trabalho alternadamente na pesquisa académica, escrita, como empreendedor e como ativista político, ou de outra forma. São essas que têm sido – por assim dizer – as estações por onde passei na minha vida. Sou uma pessoa irrequieta. Pelo menos é o que penso, gosto de fazer experiências, experimentar coisas diferentes, mas há um fio condutor que volta sempre a transparecer no que quer que faça, e esse está ligado – acho – à psicologia da nossa relação com a terra: tema do livro sobre o pensamento, a inovação, a forma de vida, a tecnologia e as oportunidades, e que também inclui algumas antologias de carácter económico e cultural.

Tem cinquenta anos de idade?

Vou fazer cinquenta e um este ano.

E estudou as duas áreas, a psicologia e a economia …

Sim, comecei por ficar profundamente fascinado por Carl Jung* e a psicologia do arquétipo, e acabei por me formar psicólogo, com certificado. Depois, trabalhei em estratégia das organizações, dando consultadoria em situações específicas e futurologia, com a finalidade de introduzir as questões ambientais e climáticas no discurso político e económico. E tive que reconhecer que não entendia por que razão os economistas escolhem ver e falar sobre o mundo da forma como faziam, porque para mim, essa forma parecia-me doida e patológica. Por isso decidi que tinha que aprender a compreender o mundo do ponto de vista da economia, e fi-lo escrevendo um livro e fazendo uma pós-graduação sobre metáforas económicas, ou as imagens segundo as quais se conduz o pensamento economicista. Portanto, sou tanto economista como psicólogo e tenho experiência em ambas as áreas, bem como a tendência para estudar os temas onde essas duas áreas se tocam, juntando-as, sempre com o objetivo de servir o planeta Terra.

* Carl Gustav Jung, psicanalista suíço (1875 – 1961).

Não há muitos psicanalistas e economistas assim no mundo. Portanto, está bastante sozinho a fazer esse trabalho, certo?

(Risos) Estou bastante sozinho, mas não sou o único, felizmente. Há convergência entre as duas disciplinas, portanto temos psicólogos que estão a fazer muitos estudos sobre o comportamento na economia. É a chamada psicologia económica. Por outro lado, há economistas que vão ao encontro da psicologia, e fundaram uma área a que se chama economia comportamental. E um nome sonante nessa área, por assim dizer, a resposta da psicologia às teorias económicas de John Maynard Keynes, é Daniel Kahneman, que também recebeu o Prémio Nobel da Economia pelos seus estudos em economia comportamental.

Portanto, se eu for ter consigo como paciente, com dissonância cognitiva – doente por causa do aquecimento global – como me ajudaria?

Bem, nós os psicólogos, por regra não impomos uma solução aos pacientes, agindo, em vez disso, como parceiros na procura de uma solução, gerada pelo próprio paciente. Por isso, eu não o iria tentar mudar, mas sim sentar-me consigo para explorar essa dissonância, a forma como se manifesta na sua vida. Que imagens é que provoca? Que emoções? E que comportamentos despoleta? Que atitudes altera e como muda a sua vida? Como é que ela se exprime? E, depois de a termos explorado em empatia, sem julgamento, sem dizer que a dissonância é algo de errado e de que se tem que livrar, só depois disso, a psicologia profunda iria trabalhá-la como um sintoma, e talvez nesse sintoma encontrar a motivação para experimentar algo diferente.

Como ingiro carne agravo o aquecimento global. Hoje de manhã havia salsicha no buffet do hotel. Escolhi o queijo de cabra para o meu pequeno-almoço (risos). Será que foi uma boa decisão?

Não lhe sei dizer se foi uma boa decisão ou não, mas parece ter sido a que, de alguma forma, tem a menor pegada ecológica para essa refeição. Mas eu tenho tentado ajudar as pessoas a explorar os prazeres da vida. Se não escolher a salsicha tiver um “custo psicológico” para si que provoque tensões emocionais, que contaminem relações humanas e talvez o façam sentir zangado ou invejoso, cheio de rancor perante as pessoas que comem salsichas, então o custo social para rejeitar a salsicha talvez seja maior do que o lado economicamente positivo da pegada ambiental por ter escolhido o queijo de cabra.

Portanto, estou a perder a salsicha, mas ganho o queijo de cabra.

Depende. Teria de perguntar-lhe como se sentiu quando rejeitou a salsicha esta manhã.

… responderia que me escapa algo de que gosto, porque cresci a comer salsicha.

Sim.

Faz parte da tradição para nós, os alemães.

Bem sei.

Estava a olhar para ela. Imaginei o seu sabor e fiquei com água na boca, e depois pensei: “oh, pobre animal”. Por isso não fiz o que a imaginação pedia. Tentei racionalmente seguir um caminho diferente. Mas esse pensamento teima em voltar. E volto sempre a questionar o mesmo. Por isso também tentei tornar–me vegetariano, por pensar que é importante mudarmos a nossa atitude em vez de apontarmos o dedo aos outros, dizendo que “é necessária uma mudança”. Mas não, por vezes penso que tenho que ser diferente, outras vezes já não penso assim. Acho que se trata de um processo.

Sim.

Foi esse o meu plano esta manhã, mudar de vida.

E quando sentiu a água na boca pela vontade de comer a salsicha, essa vontade tinha o sabor doce do desejo de comer, ou amargo, por racionalmente haver uma censura?

O sabor realmente voltou quando pensei nisso há 30 minutos, e sim, tinha algo de amargo. Posso confirmar que era um pouco como um café amargo.

O mais estranho, sabe, é como nos relacionamos com os nossos sacrifícios. Quando é que esse sacrifício é um constrangimento? E quando é que o sacrifício parece levá-lo numa corrente maior e sustentável? E ambas as coisas existem em simultâneo dentro de nós, sabe?

Escreve no seu livro que temos que ganhar algo quando pensamos nas alterações climáticas, em vez de estar sempre a pensar nas perdas. Mas neste momento só se lê, ouve e vê, todos os dias, o que não se deve fazer.

Exatamente.

O que devemos fazer menos e de forma diferente, ou seja, que objetivos devemos cumprir e que comportamentos evitar?

Hummm…

… Porque ainda temos a liberdade de escolher se queremos, ou não, parar de poluir o ar do nosso planeta. Temos a oportunidade de fazer algo ou evitar fazê-lo. Podemos começar a qualquer momento. Podemos pôr o lixo no contentor, de onde este segue para o aterro. Podemos começar por evitar o lixo. Também podemos conduzir carros e voar de avião, poluindo o ar com CO2. Conduzir é divertido e confortável. Mas, ao mesmo tempo, agravamos o aquecimento global. Portanto, acha que necessitamos de novas regras, de leis diferentes, ou que nos chega o que temos atualmente?

Não, necessitamos imperativamente de novas regras e de novas estruturas que facilitem às pessoas, individualmente, a escolha de comportamentos amigos do ambiente.

Por exemplo?

Bem, por exemplo os carros. Se for mais barato e mais fácil usar transportes públicos elétricos do que o carro, acaba por ser mais conveniente usá-los. Acabará por haver menos trânsito e as viagens durariam menos tempo, seriam mais rápidas. Por exemplo, eu tenho uma bicicleta elétrica. Poderia ter mencionado logo o meu carro, que, diga-se de passagem, também é elétrico (risos), mas mesmo assim prefiro a minha bicicleta elétrica, porque é mais conveniente, mais simples. Faz-me sentir livre. Desloco-me livremente, ao ar, o que faz dessa escolha, amiga do ambiente, um prazer. Isto é algo que tem que ser trabalhado em conjunto. Foi por isso que eu entrei na política – com o objetivo de simplificar gestos como o de evitar o plástico e não deitar fora embalagens descartáveis. Por isso deveríamos preferir cestos de compras, embalagens biodegradáveis, sacos de papel ou o que quer que seja, e não usar plásticos feitos de combustíveis fósseis. Tem que se tornar a escolha mais barata e simples.

Como podemos então reconfigurar a nossa sociedade para que se torne mais amiga do clima?

GersteinwerkIsso é uma tarefa política. Conforme falámos anteriormente, é importante trabalhar para mudar as nossas atitudes, para que estejamos abertos à nossa própria mudança. Não se trata só da sociedade. E, por vezes, infelizmente, acabamos por competir uns com os outros. Eu diria que nos tornamos opositores num determinado discurso. Se diz que tem que ajustar a sua vida, talvez outro ativista diga que a ação individual não ajuda. São necessárias ações coletivas. E por isso algumas pessoas consideram que não interessa quanto se voa ou quanto se consome, porque isso é algo que tem que ser resolvido a nível estrutural. Portanto, essas pessoas nem tentam alterar nada individualmente. Eu, pessoalmente, sendo psicólogo e pensando nos sistemas sociais, dedico-me à pesquisa, e tenho curiosidade em descobrir como esses dois (ou mesmo mais) níveis se podem reforçar um ao outro. Como podemos fazer com que ações individuais se agreguem e, com isso, dar força às empresas, cidades e políticos de todo o país, em vez de os prejudicar? Porque é essa a situação com que têm que lidar os meus amigos na política hoje em dia (aponta com o dedo para o Parlamento).

Eles sabem o que devem fazer. Sabem que devem subir o preço do carbono. Que deveriam investir mais nos transportes públicos, proibir o plástico descartável. Mas têm medo de não ser reeleitos. Por isso, o meu livro, o meu projeto, procura abordar esta questão: Como podemos cuidar do ar e cuidar da terra, tendo as leis que queremos ter? Sabendo isso, podemos criar uma onda de apoio aos políticos, para que eles encontrem apoio e não sejam retirados dos cargos quando fazem o que sabem que devem fazer. Para não haver aquilo a que chamo no meu livro de armadilha da governação (The Governance Trap). Esses políticos estão à espera que as pessoas lhes deem o apoio para medidas mais ambiciosas de proteção ao clima, enquanto as pessoas estão à espera que os políticos lhes ajudem a tornar as suas vidas mais amigas do clima ou a tomar as decisões certas. Esperam liderança. Portanto, esperam liderança por parte dos políticos, e os políticos esperam o apoio das pessoas, e é aqui que tudo fica encalhado. É uma questão como a do ovo e da galinha, um ciclo vicioso, e nós estamos a tentar quebrá-lo.

É membro do Parlamento.

Fui o único membro do partido Os Verdes, em substituição da minha colega, que esteve de licença de parto.

O único?

Nesta legislatura, sim. Estivemos a 20.000 votos de ter sete deputados, porque, como sabe, há uma barreira dos 4% para os votos. Acima dos 4% recebe-se muita percentagem extra, entrando no mecanismo de distribuição. Assim, teríamos sido o partido que estaria na posição de escolher se a Esquerda ou a Direita assumiria a governação, o que se chama de “king-makers” (fazedores do rei). Estivemos perto, mas não chegou. Se 20.000 pessoas tivessem sido da opinião de que ser amigo, cuidar do meio ambiente, é o mais importante para elas, poderíamos, neste momento, estar no Governo.

Como pode alguém lidar com a sua dissonância cognitiva?

Em primeiro lugar, tento não culpar ninguém por ser assim. Tento reconhecer os benefícios que a modernidade nos deu. Não forço as pessoas a regressar à pobreza.

O que quer dizer com “pobreza”? É uma questão importante porque pode ter a sua própria produção de energia elétrica no telhado e comprar um carro elétrico em vez de um a gasolina. O carro usaria então a energia dos painéis solares. Para o economista seria uma satisfação por praticamente não haver mais custos em combustíveis. Para o psicólogo significaria a felicidade de poder conduzir gratuitamente. Fica a questão da salsicha por resolver!

Obrigado por mencionar isso, Uwe! É mesmo essa a mensagem. Perante isso, como combater o aquecimento global na Noruega, em Portugal, ou em toda a parte? Reconhecemos que o petróleo tem sido bom para a Noruega, e que temos beneficiado muito por isso. Mas agora chega. Podemos explorar os campos que já temos e deixar de parte os restantes. Depois, podemos despedir-nos da bênção que tem sido o petróleo para a Noruega. Mas o que as pessoas entendem, nesse caso, é: “Oh, ele quer fazer de nós novamente um país pobre. Está a destruir postos de trabalho. Ele vai dar cabo da nossa economia …”

É isso que dizem sobre a sua atividade no Parlamento?

Sim, é esse o sentimento que tentam provocar com essas “imagens”. E como tento substituir essas imagens de pobreza e perda de emprego, sem carros, e de uma economia a ser destruída, por outras como essa que me acabou de descrever? Com transporte gratuito providenciado pelo nosso Sol, sentindo-me bem por isso, sabendo que estamos a cuidar do ar enquanto viajamos de carro, gratuitamente. E são essas as imagens que têm que ser vistas, e sobre as quais se tem que escrever, falar, fazendo com que as pessoas consigam imaginar esse cenário. Quando tivermos pessoas suficientes a fazer isso será mais fácil, porque neste momento parecem incapazes de imaginar uma vida sem petróleo.

Da mesma forma que não conseguem imaginar uma vida sem álcool?

Sim. Ou conseguem pensar nisso, mas depois…

… talvez só com um pouco de álcool?

Exatamente! (risos) Um pouco de petróleo e talvez um pouco de salsicha.

Sim, exatamente!

E quando tens essa salsicha…

… vais querer sempre mais…

Não, não, não. Vais saborear, mastigar, e talvez notar a preciosidade que é o seu sabor, a sua gordura e o molho salgado misturando-se com a água na boca, levando todo corpo a saborear também. Que salsicha maravilhosa!

Mudemos de tema. No seu livro diz “não haver uma solução simples para resolver o aquecimento global.”

Sim. Começamos por onde?

Merkel, Juncker, Macron e António Costa vão de bicicleta para a próxima conferência sobre o clima?

Não existe uma solução única e simples. Precisamos de mudar o sistema.

E onde começamos essa mudança? Qual seria o primeiro passo?

Deixe-me indicar cinco passos. Primeiro de tudo: temos que dobrar o crescimento em energias renováveis para que toda a energia nova necessária à sociedade provenha de fontes renováveis. Depois, em segundo lugar, transitar todos os transportes de energias fósseis para eletricidade, para fontes renováveis. Em terceiro, aumentar a eficiência na indústria. Têm que se redesenhar processos de produção, que geram desperdício, para que quando haja necessidade de calor, exista isolamento para o preservar. Idem no caso dos edifícios, para que todos os equipamentos de aquecimento e refrigeração sejam a eletricidade e já não necessitem de ser alimentados por combustíveis fósseis. Em vez de usar diretamente a eletricidade para o aquecimento e a refrigeração é melhor instalar sistemas inteligentes com bombas de calor. Dessa forma obtém-se cinco a dez vezes mais energia por kilowatt/hora do que aquecendo tudo diretamente; para além de melhor isolamento.

Quarto, desenvolver e implementar uma gestão inteligente dos recursos nas cadeias alimentares: grande parte do desperdício alimentar está ligado aos combustíveis fósseis por causa dos fertilizantes; começarmos a melhorar o fluxo de água e nutricional em toda a cadeia alimentar. Necessitamos, anualmente, no mínimo, de um por cento de melhoria na eficiência até 2050, começando agora. Não mais que isso. É perfeitamente fazível. E a quinta mudança implica transitar completamente para uma economia circular, reciclando tudo o que passa pelos nossos sistemas de produção. Não haver mais lixo.

Essas cinco mudanças levar-nos-iam a criar uma economia florescente, dentro dos limites do nosso planeta, com ar e água puros, e um ecossistema possível de gerir. E é sobre isso o livro que estou a escrever agora. Como podemos impulsionar esses cinco passos, estas cinco soluções estratégicas, que consideramos suficientes? Sabemos o que temos que fazer. Sabemos que é urgente. Sabemos que cada vez mais estas soluções são financeiramente viáveis, mas continua a haver resistência à mudança. Todas estas áreas têm interesses e modelos antigos, e os seus apoiantes têm incentivos que jogam contra nós. Mas sabemos que é viável e que há um potencial para essa viabilidade nos cinco casos.

A resposta já estará no ar?

Obrigado. Todo o conceito de clima assenta na medição de padrões meteorológicos durante um longo período de tempo. Está descrito em números, Celcius, temperatura, humidade, concentrações de CO2. Portanto, quando falamos sobre o clima, temos dificuldade em que o corpo participe, porque tudo é muito cerebral, muito matemático. É invisível, não existe no tempo. Não se consegue tocar. Os cientistas dizem que não se sente o clima e tudo isto faz com que seja difícil a existência de uma relação, para o corpo e para as pessoas em geral. Por isso, uma parte do meu trabalho (em particular aquele que não é empírico, psicológico ou de ativista na Natureza) prende-se com a investigação do clima a um nível mais existencial. Como podemos sentir o clima, como podemos relacionar-nos com ele a um nível profundo e convincente? Porque, se temos que lidar com o clima, isso irá ser um assunto para toda a vida. Não podemos reparar o clima na semana que vem e depois dedicar-nos a outra coisa qualquer. É algo que irá estar sempre connosco. Até pode haver muitas pessoas que se tornem ativistas para o clima, mas ficarão completamente desgastadas, e tudo o que sobrar vão ser cinzas, como depois de um incêndio. Vão ter de recuperar, regenerar-se e encontrar caminhos novos. É por isso que, em conjunto com outros eco filósofos, quero pôr o assunto novamente em cima da mesa: sentir o ar, ser nutrido pelo ar, relacionar-me com o ar, falar do ar de uma forma especial, de uma forma diferente, uma forma que é mais respeitadora daquilo que o ar significa e que o ar faz. Porque, se por um lado temos o clima e as suas abstrações, por outro temos o reducionismo científico. Podemos dizer que o ar é composto por 21% de oxigénio, 78% de nitrogénio, menos de um por cento de argónio … e somente 0.04% são CO2, metano e hélio. Portanto, é só uma mistura passiva de moléculas atómicas a que as pessoas nem sequer dão muito valor.

Todos nós conhecemos a temperatura do corpo e como se altera quando temos febre. Sabe como é ter o corpo a quarenta graus? É ter febre e saber que se está doente.

Sim.

Será esse o nosso futuro na Terra?

Penso que essa é uma forma muito boa para começar a abordar esta questão, por relacionar o ar e o clima com o corpo humano. No caso das alterações climáticas, talvez uma alteração de um grau centígrado por século não pareça muito, mas quando se fala numa alteração de um grau no caso de uma febre, de repente surge mais compreensão. O elemento Ar é muito especial para nós, humanos. Nascemos para dentro do ar, e achamos normal. É simplesmente o pano de fundo invisível do nosso dia-a-dia e raramente falamos nisso, apesar de se dizer, por vezes: ‘oh, que bom que o ar está hoje, que bem que cheira’. Ou, de manhã, comentamos a frescura do ar ou quando falamos do vento …

… ou da humidade?

A humidade do ar … Mas, mesmo assim, não deixa de ser uma coisa exterior a nós. Aqui estou eu, e ali o que me rodeia. Ali estão o ar e a atmosfera, as moléculas, algures ali, e, claro, com os movimentos modernos ligados à meditação, um número crescente de pessoas presta atenção à sua respiração, à dualidade artificial entre o ar lá fora e o eu aqui, que é quebrada quando pensamos sobre a respiração. E quanto mais o fazemos – quanto mais pensamos na respiração – mais nos apercebemos de que aquela senhora acolá nos está a afetar com o fumo do seu cigarro. E mais nos apercebemos de que é um mistério a forma como o ar nos liga ao mundo, e por ele comunicamos, a forma como o ar nos abre o mundo a qualquer instante. E é bastante tangível, aqui e agora, tornando todas as sensações possíveis. Transporta os bafos de fumo e cheiros, as ondas – ondas de música e a minha voz neste momento. É assim que a minha voz, os meus movimentos de ar interior, são, de alguma forma, transmitidos aos movimentos que acontecem cá fora, tocados pelas pequenas correntes no ar, seguindo o seu caminho até ao ar em geral, e até essa coisa preta pequena aqui (o microfone), alterando a sua estrutura interior. E o que torna tudo isso possível é, na realidade, o ar, ligando-me a si, ligando-nos ao que os outros cidadãos de Oslo estão a fazer, ao que as pessoas no mundo estão a fazer, ligando-nos a todos de uma forma muito direta, tangível e sensual. E esse trabalho impulsiona a minha visão do mundo, como se diria na fenomenologia. O melhor mapa para a minha vida seria algo abstrato, mas a minha perceção do mundo é o mundo em que eu me encontro. Não se trata, portanto, do mundo lá fora e de mim cá dentro, trata-se da forma como eu me realizo no mundo. Estar no mundo significa estar no Ar, porque é ali que estamos desde sempre, usando-o para transformar o mundo para nós próprios, juntando tudo e construindo o mundo. E só temos dez quilómetros dele sobre nós. É isso. A camada de ar é incrivelmente fina. Conforme exemplifiquei no meu TED talk: se compararmos o tamanho da Terra com o universo, claro que o ar sobre a Terra representa uma camada muito mais fina do que a casca de uma maçã em comparação com a maçã. É só um filme finíssimo, mas é tão ativo e está tão cheio de informação, tão cheio de ligações. Torna todas as redes possíveis – todas as conversas, todos os programas de rádio, os sons e os cheiros. E transporta todas estas coisas ao mesmo tempo. Funciona todos os dias sem que demos por isso e sem que lhe estejamos gratos.

Não somos independentes do clima.

Bem, gosto de representar o clima com o ar tornado ser vivo. Esta camada de ar é como um cérebro aumentado, uma consciência aumentada. O que é o meu cérebro? Bom, algo relacionado com o meu cérebro. Sabemos disso, mas como posso ter a certeza das fronteiras do meu cérebro? Ou não será o cérebro uma forma de participar no conhecimento do ar, na consciência do ar? E, quando caminho numa floresta ou entro numa cidade com os seus edifícios, por vezes consigo inverter as coisas, sentindo-me a caminhar dentro de um cérebro de maiores dimensões, onde todos os sinais, sim, os sinais internos, estão dentro de mim. E ainda há talvez muito mais sinais a serem transmitidos e transformados pelo ar a todo o instante. Portanto, quando entro numa floresta, gosto de sentir que estou a caminhar dentro desse cérebro florestal. Imaginar como as árvores falam umas com as outras, e mudam a conversa do ar, a forma como se move e como soa. Em conjunto com todos os outros habitantes do ar, e com a sua consciência, é uma entidade viva onde sou tolerado a participar no momento que passo e respiro.

E mais. Não sei se isto interessa à ECO123, acho que não é nada de novo, mas é (diremos) uma forma ancestral mas refrescante de alguém se consciencializar sobre o ar como um cocriador ativo da sua vida, da minha vida, da vida de todos. É uma necessidade condicionante de tudo, para ter uma vida boa, para ser positivo, construtivo, criativo. Também para combater os problemas do clima, porque não faz sentido passar por todas estas lutas parlamentares e de negócios e incêndios e o que quer que seja, se não se tem este relacionamento nutritivo com o ar. Mesmo que seja só por mim, faço-o. Eu sei que sou narcisista, mas quero sentir o ar funcionar através de mim, curando-se, mantendo a vida completa e boa, como o tem feito durante os últimos, digamos, quatro mil milhões de anos. Não sabemos exatamente quando é que as primeiras coisas monocelulares surgiram e começaram a modificar o ar, mas é desde essa altura que o ar tem cuidado de si próprio. E é inacreditável que seja exatamente esse estado do ar – com essa proporção de diferentes percentagens – que nos dá, ou dá à Terra, a possibilidade de ter vida.

Será mesmo coincidência? Eu sei, é difícil de acreditar que nenhum outro planeta tenha exatamente as mesmas condições. Como pode ser possível? Se houvesse vida em Marte, ver-se-ia. Haveria traços das moléculas que interagem com a vida. De alguma forma, o ar de Marte estaria nutrido e teria também influenciado a vida, assim como cá na Terra. Porque a Terra é o único planeta que tem uma composição do ar instável, o que significa que temos cá atividade. Passa-se algo. Conseguimos ver, sentir no ar que há vida. É assim a sensação de um ar com vida. É esta a forma como a Terra cuida das árvores, como o ar me envolve, como segura o meu corpo agora mesmo com a pressão exata necessária … Sem esse ar que me segura, explodiria. Portanto, só consigo existir porque o ar segura o meu cabelo, a minha pele e os meus olhos nos seus lugares, dando-me a cada segundo o que necessito para continuar. Sou um ser do ar, e isto não sou só eu a defender a minha necessidade em salvar o clima, salvar o planeta; faço mesmo parte deste ser vivo que respira e toma conta de si. E estar em sintonia com esse ser maior dá-me uma enorme motivação e uma profunda sensação de satisfação, felicidade e alegria. Como numa festa para celebrar a vida do ar. Eu sei que existe sofrimento, sei que há dor no mundo, claro, mas há esta coisa – o ar – que perdura sempre, sempre exibindo a sua magia, compreende? E, por falar nisso, o mistério da vida do ar é algo que não é de outro mundo, mas que é muito concreto, físico. Penso que esta é a chave para os que se empenham no movimento pelo clima, para ajudá-los a evitar que continuem a poluir o ar.

Obrigado.

About the author

Uwe Heitkamp, 53 anos, jornalista e realizador, vive 25 anos em Monchique, Portugal. Adore caminhadas na montanha e natação nas ribeiras e barragens. Escreve e conte histórias sobre os humanos em relação com a ecologia e a economia. Pense que ambas devem ser entendido em conjunto. O seu actual filme “Herdeiros da Revolução” conta durante 60 minutos a história de uma longa caminhada, que atravessa Portugal. Dez protagonistas desenham um relatório da sua vida na serra e no interior do país. O filme mostra profundas impressões entre a beleza da natureza e a vida humana. Qual será o caminho para o futuro de Portugal? (Assine já o ECO123 e receberá o filme na Mediateca)

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