Quinta-feira, Dezembro 14, 2017
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Qual é o valor da cultura?

Foto - Alexandre Moura

Poderá a cultura viver sem estar dependente de subsídios? Giacomo Scalisi trabalha há vários anos como ator, director artístico ou programador cultural e no seu percurso já colaborou em diferentes projetos, companhias de teatro e na organização de festivais internacionais. Em 1998 chegou a Portugal para integrar o Centro Cultural de Belém (CCB) como programador cultural de teatro e novo circo, de onde saiu em 2008. Atualmente tem os seus próprios projetos na área da produção artística. O italiano radicado em Portugal reconhece que a cultura depende de subsídios para subsistir mas salienta ser uma obrigação do Estado garantir o acesso dos cidadãos à cultura.

Afinal, será que uma orquestra sinfónica com cerca de 80 elementos, com um salário de 750 euros para cada músico, poderia sobreviver apenas da bilheteira? Ou deveremos extinguir a música clássica das nossas vidas?

ECO123: A propósito de circo e do conceito de palhaço, que ganha a vida com o sorriso, estaremos a transformar o sorriso num produto económico?
G.S.
: O palhaço não faz só sorrir, faz também pensar, e são as pessoas que têm a liberdade de provocar em todos os sentidos, do ponto de vista político, cultural, ético. Sendo palhaço pode dizer-se tudo, o que depois pode deixar um rasto muito grande em cada pessoa.

Qual é o panorama atual da cultura, depende dos subsídios?

Giacomo Scalisi
Giacomo Scalisi

É importante esclarecer as diferenças entre cultura e entretenimento. Entretenimento é uma forma de produzir espetáculos, é entreter as pessoas com produtos que muitas vezes são comerciais e que sozinhos podem pagar o investimento feito. Falamos do Cirque du Soleil, de teatro no gelo ou de grandes concertos. Falar de cultura é outra coisa, é essencial e obrigatório, não é só entretenimento, é formação e ajuda as pessoas a viverem melhor, a construir uma sociedade diferente. Este tipo de intervenção tem a obrigação de ser financiado pelo Estado em Portugal. É como a escola, que serve para criar uma educação básica na sociedade, ou a saúde. A cultura está ao mesmo nível. Não é triste depender de apoios e subsídios. Não se trata de um ato de caridade, o Estado tem a obrigação de financiar os artistas para poderem criar e possibilitar às pessoas o acesso à cultura.

Parece um pouco a ‘cultura do subsídio’, ainda assim continua a ser uma cultura independente e livre?
O facto de a cultura ser financiada pelo Estado não quer dizer que seja dependente do ponto de vista artístico e criativo. São projetos que não conseguem existir somente da bilheteira, só se tiverem condições para atrair muito público mas aí passamos para o campo do entretenimento. O circo era entretenimento mas o tradicional é uma arte quase em extinção, que faz parte de uma memória coletiva bastante importante. Apesar da questão dos animais, o circo devia ter apoios para continuar a existir. O próprio circo tradicional está a mudar. O novo circo é outra coisa, aproxima-se mais das artes performativas e lança um percurso de pesquisa à volta das várias comunicações que a arte pode propor e que estão a inovar a própria linguagem da criação da arte.

A cultura pode ou não funcionar sem subsídios?
Tivemos um corte de subsídios em Portugal que pôs de joelhos todos os artistas e alguns deixaram de existir. Um dos grandes problemas em Portugal é que quando acaba o dinheiro da Europa, acabam os projetos, as câmaras não tem dinheiro mas às vezes também há falta de vontade. A cultura necessita de subsídios para existir mas também estamos habituados a procurar outras formas de financiamento, podem ser as empresas, embora não seja uma cultura que exista em Portugal. No Canadá, por exemplo, as empresas contribuem muito para a cultura. É uma possibilidade que existe.

Está fora de hipóteses a cultura ser financiada pelo público?
É importante que a cultura seja financiada pelas pessoas e estão a aparecer novas formas de financiamento, como o crowdfunding. Os bilhetes pagam-se e isso ajuda a ter um fundo de entrada para as criações. Em Portugal vivemos uma questão muito grave. Os espetáculos são criados com um grande investimento e depois não têm condições de digressão, nacional ou internacional. Há poucos programas de apoio à internacionalização e a nível nacional praticamente não há possibilidade de rentabilizar o trabalho que é feito. É algo circular. Se os teatros e as câmaras não têm dinheiro, se não fazem uma programação, não podem programar as companhias, se as companhias não são programadas, não têm dinheiro. Fazem criações, apresentam um, dois, três ou quatro espetáculos e morrem. Depois têm que começar uma nova criação.

Giacomo Scalisi ator, director artístico ou programador cultural

E se forem as próprias companhias a criar essas digressões?
As companhias tentam e há algumas que conseguem. Por exemplo, o Teatro Meridional, do Miguel Seabra, tem uma digressão nacional e às vezes internacional que é uma referência. O Tiago Rodrigues, no Teatro Nacional, também faz digressões pelo país. Existem uma série de mecanismos que estão a ser implementados mas não é fácil.

Imagine que hoje acabavam os subsídios, como faria para continuar as suas produções artísticas?
Não existe uma cultura alternativa aos subsídios, em Portugal não é possível, não se consegue fazer uma digressão com trinta datas. Se eu, como artista, vou a uma empresa e digo que quero criar um projeto, não há recetividade. Posso trabalhar sem dinheiro e depois tentar vender o espetáculo mas, se não consigo, é um investimento a custo zero. Podem fazer-se animações em centros comerciais, ou telenovelas, e sobrevive-se com dinheiro que não é de cultura, é do entretenimento. E depois fazem espetáculos e aí investem o dinheiro que ganham noutros âmbitos na própria companhia, há muitos atores a fazerem isso.

A cultura tem motivos para sorrir em Portugal?
A cultura nunca é muito sorridente, nem poderá ser. A cultura acompanha os eventos da sociedade e neste momento não temos muitos elementos para ser felizes. Estou a falar do ponto de vista político, internacional e nacional, daquilo que são os temas dominantes na sociedade. A nossa sociedade é imposta pelo poder económico. Por exemplo, no Algarve estão a tentar encontrar petróleo no mar, quando a energia do petróleo deveria ser substituída por outras energias que são o futuro. Existe a possibilidade de contaminar paraísos naturais. O que conta neste momento é uma questão de poder e de dinheiro que, muitas vezes, é contrária àquilo que é a vida que as pessoas têm.

O RBI pode ser um caminho para conferir maior poder de compra às pessoas para, eventualmente, poderem gastar com a cultura?
Acho que pode ser uma proposta interessante, confere dignidade, dá possibilidade às pessoas mais indefesas de terem o mínimo de condições e ajudar uma faixa da população mais frágil. Acho que a cultura pode beneficiar também.

Um público sem poder de compra é limitador para a cultura?
Vivemos numa sociedade muito pobre, a maior parte das pessoas vive no limiar da pobreza. Mesmo a classe média está empobrecida. Há quem só consiga ir a um espetáculo por mês, ou a cada seis meses, e quando têm que escolher um espetáculo preferem algo que já conhecem, porque é só um. Preferem gastar 30 euros por ano para ver um Cirque du Soleil, do que gastar em quatro espetáculos de novo circo que não conhecem. É difícil imaginar uma cultura que vive assim, porque toda a sociedade vive assim.

Porquê investir na cultura, qual é o seu poder?
A cultura tem muito poder e as mensagens que pode dar são fantásticas. Pode ter uma ligação direta com a sociedade, dando a possibilidade às pessoas de pensar pela própria cabeça, ter um prazer que não é só uma gargalhada mas começar a pensar sobre a vida, na relação com os filhos, na família, na sociedade. A cultura é um agente que pode entrar na sociedade e tentar modificá-la para melhor. Há estudos que demonstram que países com grande frequência cultural têm uma série de benefícios, seja a nível de saúde, psicológico ou de felicidade.

Muito obrigado.

About the author

Alexandre Moura (39). É licenciado em Ciências da Comunicação Jornalismo e nasceu em Faro. É jornalista profissional desde o ano de 2000 para órgãos nacionais e regionais de imprensa, televisão e rádio, nas áreas de atualidade, cultura, desporto e informação geral.

 

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