Terça-feira, Dezembro 12, 2017
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Quebrar tabus e barreiras

Acílio Maria Gala tem 22 anos, vive em Lisboa e estuda Gestão do Lazer e Animação Turística, na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Ajudar os outros sempre fez parte da sua natureza. Durante a manhã é empregado de mesa, à noite frequenta as aulas. Este ano pensou, em conjunto com o seu amigo, Andrei Moreia (22), fazer férias a partir de um novo conceito.

Percorreram 3.500 km entre Lisboa e Atenas. De que forma?
Saímos da cidade de Lisboa com a mochila às costas. Deslocamo-nos a pé e através de boleias.

Qual foi a rota que traçaram?
Apanhámos um ferry de Lisboa para Almada. A partir daí começámos a caminhar rumo a Évora e também a apanhar boleias. Seguiu-se Madrid e depois alterámos a nossa rota e rumamos a San Sebastian.

Quantos dias precisaram no total para chegar à Grécia?
Partimos no dia 9 de julho e tínhamos como meta estar em Atenas a 15 de agosto, data combinada com o campo de voluntariado para o qual iríamos trabalhar. Por mero acaso, com todas as boleias e todas as pontes que criámos, conseguimos chegar dia 10 e começar o voluntariado mais cedo.

Ou seja, foi necessário um mês, a pé e com boleias. Passaram por San Sebastian, Pirenéus… e depois chegaram à França – Bordéus?
Fizemos o sul de França todo em três dias. Passámos por Toulouse e chegamos a Itália. Depois de Génova fizemos uma paragem de três dias. Por acaso, ofereceram-nos boleia para Turim e decidimos aceitar. De Turim fomos para Milão e depois fizemos toda a costa dos Balcãs. Passámos pela Eslovénia, Croácia, Montenegro, depois Bósnia, Albânia e … Grécia. Tantos países!

Gostava que nos falassem do vosso projeto de crowdfunding, o PPL Portugal, que já está completo. Conseguiram obter 800 euros em vez de 500, ou seja, mais de 150%…
Sim, gostávamos muito de chegar aos 1000 euros, mas é muito difícil. Temos, contudo, tido um bom apoio. Fazer Lisboa-Atenas de mochila às costas foi uma experiência um pouco dura, e saímos de Lisboa sem dinheiro.

Saíram sem dinheiro…?
Sim, sem dinheiro, certamente. Não gastámos nem um cêntimo nosso durante toda a viagem, porque fomos conhecendo pessoas que nos deram casa, comida, algumas até nos deram dinheiro. E conseguimos racionar toda a comida e dinheiro que nos foi sendo oferecido. Comíamos apenas o suficiente, dormíamos nas ruas… Conseguimos chegar a Atenas num instante.

Por que motivo decidiram ir a pé?
Antes de fazermos esta viagem já estávamos muito familiarizados com o tema dos refugiados, muito atentos a essa problemática. Então arranjámos uma forma de aproveitar o nosso verão e ajudar pessoas ao mesmo tempo. Pensámos viajar. Costumamos fazer viagens género low-cost extremo, e pensámos: “porque não fazer Lisboa – Atenas a pé, de mochila às costas e sem dinheiro?”

Tinham uma ideia de fundo…
O intuito desta viagem, para além de ajudar os refugiados e deslocados da guerra síria, foi quebrar tabus e barreiras, apelar às nossas raízes de nómadas e aprender o máximo possível com esta experiência. Um dos objetivos passava por mostrar às pessoas que não é preciso ter dinheiro para viver a vida no seu máximo. E conseguimos prová-lo, sobretudo a nós próprios.
O objetivo principal de viajarmos desta forma está muito relacionado com o nosso projeto dos refugiados: metermo-nos ao máximo no seu lugar, a pé e sem dinheiro. Partimos, por isso, de Lisboa com um cestinho. Ficámos cientes de que é isto que eles sentem todos os dias. Porque não podíamos fazer muito mais do que andar, sorrir e pedir boleia. De resto, nada dependia de nós, e sim das pessoas que paravam, que nos ajudavam ou não.
Todas as manhãs acordávamos com aquela incerteza: “será que alguém vai parar por nós ou teremos que caminhar?” Lembro-me de, por exemplo, passarmos dias seguidos “presos” em Génova, na Itália. Três dias seguidos a pedir boleia sem que ninguém parasse. Também não conseguíamos sair do mesmo sítio porque a única via existente era a autoestrada, a outra desviava-se muito da nossa rota. E depois de três dias seguidos a pedir boleia, lá conseguimos.

Foi duro?
Foi um bocado duro, porque muitas vezes não tínhamos dinheiro. E mesmo na rua foi um pouco duro; estamos distantes do conforto que temos nos lares. Comer o suficiente era pouco, porque tínhamos de racionar toda a nossa comida. E, depois, toda a incerteza e perceção dos sítios onde andámos também se tornavam um pouco difíceis. Mas penso que o mais difícil foi a parte física. Mesmo nos Balcãs sentimos muito calor, demasiado até, e era muito difícil encontrar uma hora boa para caminhar e em que não estivéssemos cansados.

Como e quando nasceu este plano?
Desde há quase dois anos comecei a explorar, por mim próprio, a querer ver as coisas que me rodeiam com os meus olhos e não pela tv ou pelo que ouço dizer. Tenho estado cada vez mais atento a todos estes problemas de dimensões impensavéis e tentado ao máximo apoiar as suas vítimas e ajudá-las no que me é possível. Identificamo-nos com as pessoas que estão a sofrer.
Viajamos muitas vezes de transporte público. É a nossa maneira de viajar. No último ano, no verão, fomos de Faro até Marrocos, maioritariamente a pé. Estávamos sensibilizados com o tema dos refugiados e aproveitámos para sair da nossa zona de conforto. Apanhar uma boleia é dificil para dois rapazes. Para duas raparigas ou para uma rapariga e um rapaz é mais fácil. Mas lá a fizemos e cá estamos.

Como corre agora o vosso dia a dia no que respeita aos refugiados?
Trabalhamos para a institução* no transporte entre o campo de refugiados e as cidades. Tratamos neste momento do apoio a mais de 200 refugiados. Por exemplo, cortar o cabelo, acompanhar ao médico, ao advogado, a fazer compras, entre outros.

O que farão com a verba angariada através do crowdfunding?
Doaremos todo o dinheiro à Associação Refugees Welcome Portugal.

Obrigado.

ICOARM = International Collective Operations Aiding Refugees and Migrants
www.gofundme.com/transportationservices
https://ppl.com.pt/causas/aalifestyle

 

 

 

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