Quarta-feira, Novembro 22, 2017
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Reutilizar, reduzir e reciclar

ECO123: É difícil viver em Monchique, ou é fácil?
É mais fácil do que costumava ser. Nós fomos os primeiros estrangeiros a chegar. O acolhimento de estrangeiros é muito melhor do que costumava ser. Economicamente, é mais difícil hoje em dia. Isso significa basicamente que tens de passar uma percentagem maior do teu tempo a trabalhar do que antes. Faço jardinagem e trabalho com computadores. Primeiro, estudei Engenharia Eletrónica em Portimão, e, depois, fiz um curso profissional em Faro. Quando era mais novo, a eletrónica era o que me interessava. O meu pai foi eletricista durante muitos anos e eu dei seguimento a esse interesse no mundo dos computadores.

Está a trabalhar em áreas opostas, na agricultura e nas Tecnologias da Informação (TI). Como consegue conciliar as duas coisas?
Ou é uma, ou a outra. Tento reparar as coisas sempre que possível, em vez de as deitar fora. Reciclo muito. É a reutilização de coisas novas.

Como é que faz isso?
A maior parte das coisas aprendi eu próprio, não no curso. O curso só foi de sete meses, não foi tão longo como eu gostaria. Depois, trabalhei numa loja durante seis meses. A seguir, tentei fazer reparações de TI na nossa aldeia, mas não tinha clientes suficientes. As pessoas querem sempre o último modelo, o que está na moda. Portanto, por agora parei e estou desempregado. Quer dizer, se tiver peças em segunda mão disponíveis, irei sugerir sempre a substituição das peças avariadas por peças em segunda mão. Sai mais barato ao cliente e é melhor para o meio ambiente. Mas não ganhava o suficiente. Penso que os benefícios de estar oficialmente a trabalhar não eram suficientes para valer a pena esse género de complicações.

Está desempregado mas não recebe qualquer dinheiro do Estado?
Não. Não ganhava o suficiente para sequer pagar Segurança Social. Isso só seria possível se eu tivesse trabalhado numa empresa e fosse despedido.

Como vive e como gostaria de viver?
Tenho um jardim com cerca de 30 espécies de plantas: batata, tomate, pepino e muitas outras coisas. É bastante pequeno porque ainda estou no início, comecei há alguns meses só para mim próprio. Só faço trocas quando tenho excedentes. E tenho uma motorroçadora. Limpo as terras à volta das casas, a faixa de proteção dos fogos de 50 metros e vivo de pequenos trabalhos de jardinagem. Consigo sobreviver, mas não prosperar. Como muitos outros, vivo, neste momento, com dificuldades financeiras. Precisaria de 600 a 700 euros por mês para pagar os impostos e a Segurança Social.

E o futuro?
Neste momento, não penso nisso.

Falemos do presente, então.
Não preciso de muito para viver. Criámos um sistema de timeshare, um banco de tempo em que quem queira participar pode trocar serviços individuais específicos; por exemplo babysitting por jardinagem ou batatas por peras, pão por fruta. Um trabalho que eu faça para alguém que participa no banco de tempo é compensado com serviços ou bens que essa pessoa prepara ou tem para mim. Não há dinheiro envolvido nisto. Neste momento trabalho todo o tempo que posso no meu jardim. Também troco sementes. Faço os possíveis para reutilizar coisas, evitar e separar lixo, e recuso sempre os plásticos nos supermercados. Fazem sempre uma cara estranha.

Não come carne ou peixe, leite e queijo, certo?
Nunca comi. Tive a sorte de ter sido criado assim. Toda a minha vida vivi de forma vegana. Foi muito difícil nos primeiros tempos na escola, eu não estava preparado para um estilo de vida com carne. Só nos últimos três anos é que os estudantes começaram a ter acesso a este tipo de dieta. Eu fui o primeiro na escola em Monchique, e isso foi muito difícil.

Tem algum exemplo atual do que poderia funcionar melhor?
Precisamos de nos livrar do eucalipto, porque esse é o principal combustível para os incêndios que temos tido, e continuam a plantar novos eucaliptos em locais onde ainda não os havia. É uma vergonha que Monchique esteja a seguir por esse caminho. Os incêndios também vão destruir o turismo.

Obrigado.

Jeremy Walton (39) nasceu em Inglaterra e aos seis anos de idade veio com os seus pais para Portugal. Compraram uma casa antiga em Monchique e restauraram-na. Depois de doze anos na escola, estudou tecnologia informática e tornou-se técnico de reparação de computadores.

Theobald Tiger

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