Quarta-feira, Novembro 22, 2017
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A natureza desconhece o que é o lixo

Quanto precisa o ser humano para ser feliz? Será que mais posses e mais consumo também significam mais felicidade? Esta fórmula está basicamente correta ou errada? As respostas são as mesmas no campo e na cidade? Somos mais felizes com mais idade ou na nossa juventude? Será verdade que ter mais contribui mais para a felicidade do que o desenvolvimento do seu próprio SER? Ou será que aqueles entre nós que têm menos e consomem menos são mais felizes? Somos mais felizes sozinhos ou em comunidade? Estará correta a fórmula TER + AMAR + SER = FELICIDADE? Ou será que encontramos a nossa felicidade noutro lugar completamente diferente, ou seja, individualmente, cada um por si e à sua forma? E, se assim for, o deitar fora, fazer lixo, faz parte da felicidade ou é antes expressão de infelicidade? Atiramos coisas para o lixo porque nos esquecemos que, para sermos felizes, também temos de viver em harmonia com o nosso planeta? Porque deitamos metade dos nossos alimentos fora? Porque produzimos 400 quilos de lixo por habitante/ano? Como queremos viver? A ECO123 colocou estas e outras questões a nove pessoas.

Eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles. Neste preciso momento, todos estão a deitar algo fora. É fácil de dizer, não é? Deita ao lixo. Deita algo fora. Longe da vista, longe do coração. Quem vier a seguir que se amanhe. Ou talvez não? Estou na minha cozinha a arrumar as garrafas vazias do último mês. Oito garrafas de vinho e uma garrafa vazia de azeite. Este é o meu dia de ir até ao vidrão e arrumar a minha casa: casa de banho, quarto, sala, cozinha e escritório. Para o papel, encontrei uma solução minha, bastante prática, sobre a qual irei falar mais tarde. Somente a quantidade de plástico das embalagens é que me deixa sempre ficar com problemas de consciência. O que posso fazer, que soluções haverá para poder abdicar de todas estas embalagens de plástico? Mudar de hábitos nas compras? Não posso deixar as embalagens de líquidos como o leite, mesmo do leite de soja ou de aveia, na caixa do supermercado. Abdicar deles? Já risquei o iogurte, juntamente com o seu lixo desprezível, da lista de compras, mas não da minha alimentação, já que agora o produzo eu próprio, uma vez por semana.

lixo-queimado

Mesmo sendo só um pequeno passo, é um passo em frente, um primeiro passo para um futuro mais sustentável. E é com um primeiro passo que começa toda a viagem para um mundo novo que cada um de nós pode escolher para si, e, depois, pode também voltar atrás para novamente escolher um novo caminho…

A embalagem do gel de banho e do shampoo também acabam no contentor para o plástico, da mesma forma que a lâmpada avariada vai parar ao lixo para resíduos perigosos. E agora? O que acontece com isto? Longe da vista, longe do coração?

Levo o chamado lixo orgânico no balde até ao monte do composto. Faço-o quase todos os dias. Chamo-lhe a excursão ao meu jardim. Mas quem é que pode ter o seu próprio jardim na cidade, onde cada metro quadrado é alvo de especulação imobiliária?

O designer Marco Balsinha apresenta-me em Lisboa uma ideia para o tratamento do lixo orgânico. Encontrámo-nos num café em Entrecampos. Ele faz uma demonstração e explica o funcionamento do seu compostador Uroboro*, composto por quatro ou cinco peças em barro que encaixam umas nas outras, e que transformam resíduos orgânicos de cozinha em terra. É possível observar como as minhocas aproveitam as cascas de batata e de cenoura para as transformar em húmus…

Talvez este desafio seja muito exigente, mas, na nossa vida, queremos orientar-nos por metas altas, porque a realidade do desperdício não pode ser a verdade última. Por isso, a questão que se coloca é: haverá uma solução consensual para reduzirmos o volume do lixo produzido com a nossa atividade na Terra, de tal forma que, num futuro próximo, cheguemos ao ponto de LIXO-ZERO?

lixeira

O suposto especialista em resíduos, Miguel Ferreira, de Faro, está céptico quanto a isso, já que, hoje em dia, o lixo ainda pertence ao sistema, e ao seu negócio. A empresa que o mesmo representa ganha dinheiro com isso. Compra e vende papel, vidro e plástico, e emprega 212 trabalhadores que, no entanto, tratam principalmente do lixo de um negócio linear, enterrando-o debaixo da terra, em depósitos selados. O turismo do Algarve é o maior produtor de lixo em Portugal, diz Miguel Ferreira. Estatisticamente, cada algarvio produz o dobro da quantidade de lixo, quando comparado com a restante população do país. Mais do que 1.000 quilogramas de lixo indiferenciado por pessoa e por ano são gerados no Algarve, e tem que ser enterrado nos dois aterros sanitários em Cortelha (Loulé) e Porto de Lagos (Portimão). Leia a entrevista com Miguel Ferreira nas páginas 23 a 29.

Será que uma gestão linear significa entrar num voo low-cost e encher a atmosfera de CO2, entrar num carro alugado e queimar gasolina e gasóleo, entrar num hotel e gastar em média 220 litros de água preciosa por hóspede diariamente, alimentar-se inconscientemente e despachar o lixo – no sistema turístico – em que o Sol, a areia e o mar, misturados com um pouco de álcool, obscurecem completamente a consciência das atitudes sustentáveis?

E qual é que seria a alternativa para esta forma de turismo? Ficar em casa e viajar menos, consumir menos, gastar menos água e deixar menos lixo? Como é que isso pode funcionar? E o que fazer com todos os empregados de mesa e de limpezas dos restaurantes e hotéis? Um caminhante que se perde pelo caminho volta atrás, ao ponto onde seguiu erradamente. O que significaria isso para a nossa economia, e que significado teria esta decisão? Voltar atrás, até ao cruzamento onde nos perdemos?

C2C (Cradle to Cradle)

A economia e as atitudes circulares são as palavras passe para um futuro com uma economia mais sustentável que começa em cada um de nós: por um lado, com a redução da exploração e do gasto desenfreado e orientado no crescimento dos recursos naturais; e por outro, com a reutilização e revalorização, assim como reparação de produtos, especialmente de aparelhos elétricos e eletrónicos, e a plena reciclagem dos mesmos.

Esse tipo de máximas obriga a um pensamento diferente em relação ao tempo. Porque o tempo não é dinheiro. Quem viaja, deveria incluir o tempo da deslocação no tempo de férias. A solução? Evitar voos de longo curso. Em vez de viajar de avião, poder-se-ia ponderar uma viagem de comboio nas férias. O que irá levar mais tempo, mas também poupa até 80% dos recursos e emissões. As viagens com transportes públicos ou com o carro elétrico, a bicicleta elétrica ou uma caminhada, para além de pouparem recursos, são atividades saudáveis. Na alimentação, ter em atenção que todos os ingredientes da refeição sejam da região e produzidos de forma amiga do ambiente, e tendo em conta a manutenção do peso e medida certos.

Porque só quem toma o seu tempo e mantém o peso e a medida – porque tudo precisa do seu tempo – na sua viagem em família ou sozinho, quem abranda o seu ritmo e pondera cuidadosamente as suas decisões, aproveita melhor a vida. Talvez também se encontre aqui a porta de entrada para a felicidade. Com a pergunta, Como queremos viver?, a ECO123 desafia todos aqueles que se sentem tocados a parar por um momento e a pensar em como poderemos agir para concretizar o desafio: LIXO-ZERO. Porque a Natureza, ela própria, desconhece o que é o lixo. Tudo é reutilizado e transformado. Será que não somos capazes?

O que é que isso significaria na prática? Cá vai um exemplo: triture o papel, papel de jornal, toalhetes, papel de escritório – não use papel plastificado. Amoleça esse papel triturado num bidon com água. Depois de uma semana ficará com uma consistência paposa. Depois, forme pequenas porções ou blocos de papel machê, pressionando. No verão, coloque estes blocos ao Sol, até secarem. No inverno seguinte, podem ser queimados na lareira para aquecer a casa. Reciclar papel?

 

About the author

Uwe Heitkamp, 53 anos, jornalista e realizador, vive 25 anos em Monchique, Portugal. Adore caminhadas na montanha e natação nas ribeiras e barragens. Escreve e conte histórias sobre os humanos em relação com a ecologia e a economia. Pense que ambas devem ser entendido em conjunto. O seu actual filme “Herdeiros da Revolução” conta durante 60 minutos a história de uma longa caminhada, que atravessa Portugal. Dez protagonistas desenham um relatório da sua vida na serra e no interior do país. O filme mostra profundas impressões entre a beleza da natureza e a vida humana. Qual será o caminho para o futuro de Portugal? (Assine já o ECO123 e receberá o filme na Mediateca)

 

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