Quarta-feira, Maio 24, 2017
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Índia todos os dias

Parte 3

Refúgio Kalimpong*. – A cidade em Himalaya segura-se nas encostas como um sobrevivente numa falésia. Kalimpong expandiu-se, arrasta-se e rasteja para longe sobre todos os rochedos e desfiladeiros nas dobras distantes da paisagem.

Kalimpong - Darjeeling
Kalimpong – Darjeeling – Martin & Madan

Contudo, afigura-se como uma pequena cidade alegre e charmosa. Kalimpong é o meu esconderijo indiano. Eu sempre suspiro quando me refiro ao meu quarto, que a Indira Bose, a minha senhoria, construiu para mim. Afastada da sua casa com inúmeros habitantes, abrigada de todos os olhares por uma encosta de um lado, e do outro por um denso arvoredo de bambu, lá se encontra a cabana estável, confrontada nos dois lados por uma varanda. Em um quarto há uma cama e uma pequena mesa, um armário e duas cadeiras – basta! No peitoril da janela existe um jarro de água, três recipientes em aço para pão, queijo, manteiga, biscoitos.
Aqui eu sou um eremita, aqui posso ser. Há energia eléctrica para iluminação e para o computador. No armário aguarda um pequeno fogão de aquecimento eléctrico e uma pequena ventoinha – contra o frio e o calor, mas eu procuro prescindir dos dois. Alguns livros nos armários, roupa interior e duas camisas, um boné de lã, uns calções compridos, umas ceroulas, uma sombrinha. Isso chega. A casa de banho é separada e fica na parte de trás da pequena casa, invisível a partir do quarto. O plástico está banido. É madeira nas paredes interiores até ao umbigo e as varandas com lindos corrimões pintados de branco.

Desespero Binays. – Jaiprakash, o meu fiel amigo de Kalimpong, mudou-se para Bangalore para trabalhar numa empresa financeira. É lamentável como tipicamente os jovens talentosos e bem qualificados não encontram nenhum trabalho à sua altura em cidades rurais como Kalimpong. Todos se esforçam para sair.

Eu encontro o Jaiprakash todas as noites na Main Street, e apenas para tomar um péssimo Nescafé no “3Cs”. Para ele, o Hotel Hymalayan, o meu lugar predilecto, era demasiado tranquilo, demasiado solitário – nobre demais. Ele precisava de movimento ao seu redor e de algumas meninas para fazer olhinhos. Na sua cidade eu encontro, se bem que não com tanta frequência, o Binay (31), colega do Jaiprakash. Juntos foram professores na Rockvale Business College, onde o Binay ainda se encontra. Ele é uma pessoa muito calma, reservada, de cor escura, profissional de informática, e que há já alguns meses que tem uma forte paixão por uma das suas colegas, o que o deprime e o torna ainda mais imerso em si.

A família de Binay é oriunda de Bihar. Mas os seus pais vivem há décadas em Kalimpong. O Binay nasceu em Bihar, porque é tradição que a futura mãe volte à sua terra natal para dar à luz, e que depois o filho regresse com poucos meses a Kalimpong. Ele fala Nepali, Bihari e Hindi, e também fez uma formação em inglês e ensina agora ciências informáticas. A sua namorada é de Bihar, mas vem de uma outra casta inferior. Os pais de ambos estão contra a relação e lutam contra os planos de casamento dos seus filhos. Ambos são financeiramente independentes, com educação moderna e estão nos seus trinta anos. Mas não querem casar contra a vontade dos pais. O argumento deles é: Nós não somos contra o vosso casamento, só queremos que tenham sorte, achamos que “fazem um lindo par”, mas os nossos familiares estão a criar problemas contra vocês, e o que será dos vossos irmãos que também pretendem casar? Será que eles vão encontrar companheiros dignos, quando se souber que vocês os dois são parceiros desiguais? O dote vai aumentar subitamente, as relutâncias vão acumular-se, o esforço para conseguir encontrar um marido para as suas filhas vai ser ainda maior.

Fugir? – Binay não quer nenhuma solução extrema. Os pais da rapariga planeiam acabar com o trabalho dela na faculdade e encontrar-lhe um outro lugar longínquo. Tudo bem longe da sua vista.
Os pais criaram os seus filhos com o maior cuidado. Agora pensam que eles são sua propriedade. E também para bem dos seus filhos eles não podem renunciar ao prestígio de um casamento socialmente aceitável.

Aguardando por Madan – Há um mês atrás eu convidei o Madan Thapa Magar (22 anos) para vir a Kalimpong. Hoje, pelas 16h30, ele está finalmente diante de mim! Durante muito tempo eu duvidava que o meu guia de montanha do Nepal, que

Madan
Madan

perambulou durante duas semanas ao meu lado pelo circuito de trekking de Manaslu, que me protegeu dos perigos, que era alegre e me animava a mim também, fosse aceitar o meu convite e lançar-se nesta longa viagem de autocarro de Kathmandu para Siliguri e depois de táxi para Kalimpong. Eu tinha escolhido a ligação de autocarro e comuniquei-lhe por telefone. Ele disse-me que sim, ele viria. A sua primeira viagem para a Índia. Vinte e quatro horas de autocarro. Em Kathmandu, ficou a saber que o autocarro chegava à fronteira nepalesa-indiana em Kakadvitta às seis horas da manhã. Consequentemente, eu pedi ao taxista de Siliguri para lá estar a essa hora, cerca de uma hora de distância da cidade.
O taxista esperou e esperou, com uma placa a dizer “Madan for Kalimpong” no pára-brisas do carro. Ele ligou-me àquela hora, estava com um tom de voz rabugento e cada vez mais ameaçador. Eu teria que pagar uma “compensação”, gritou, como se o atraso fosse por minha culpa.
Eu estava cada vez mais nervoso no meu quarto e tentava convencer o taxista a não voltar para trás para Siliguri. Porque caso contrário ele já não poderia exigir a sua “compensação”, eu argumentava. Ele também não conseguia ligar para o telemóvel de Madan do outro da fronteira, porque não existiam conexões entre as redes de telemóvel de ambos os países. Só perto da fronteira é que Madan conseguiu estabelecer o contacto com o taxista e dizer-lhe que estava quase lá! Madan conseguiu finalmente contactar-me. Ele estava sobre a fronteira e tinha encontrado o taxista. Estavam a caminho de Kalimpong.

Himalayan Hotel in Kalimpong (Jayanta Das)
Himalaia Hotel em Kalimpong

Himalayan Hotel – Todas as tardes eu sento-me um pouco na esplanada do Hotel Himalayan, leio o jornal, escrevo e olho o mundo a partir do meu ninho de pássaros escondido. Está nebuloso, às vezes as nuvens espalham-se pelo vale e deitam-se alguns minutos sobre a cidade como um cachecol que aquece, está sol, escurece e a luz dos candeeiros acende-se, cada vez mais forte, e eu continuo sentado na mesma cadeira e observo e observo e desfruto destas horas de sedentarismo.

A vitalidade confusa da Main Street está a partir de aqui domesticada e é levada até à poesia. Entre as árvores, a igreja MacFairlane espreita com os seus minaretes novos pintados de um bege suave nos quadrados da torre. Há três anos estes minaretes caíram ao chão com um terramoto e com a força do impacto enterraram-se pela metade no solo. Antes eu ficava sempre à espera dos sinos, que tocavam às quatro e meia. Os tons profundos dos sinos, que oscilavam maravilhosamente pelo vale, faziam-me lembrar dos sinos de Boppard, a minha cidade natal, que soavam pelo vale do Reno, e ainda mais dos leves pequenos sinos de Forno, na ramificada Stronatal, no norte da Itália, pátria da minha avó, onde poderiam oscilar à vontade. Agora, sempre que se aproximam as 16h30, eu fico à espera do sino, mas ele já não toca, ainda está a ser consertado.

Nilam MacDonald, o dono do Hotel Himalayan, organiza o jardim em redor do hotel como uma magnífica moldura de uma pedra preciosa. O meio envolvente é irregular, não tem grandes estruturas, mas deleita com miniaturas da arte do jardim. Aqui um grupo de grandes campânulas vermelhas, ali dois arbustos, artisticamente alinhados. Aqui um árvore muito alta, que dá uma sombra a uma cama de rosas, em outros lugares os arbustos baixos e com folhas densas margeiam o caminho projectado com pedras naturais. Nada parece ao acaso, mas em nenhum lugar a natureza é alvo de violência. O grande edifício de pedra do hotel parece mais condigno e massivo nesta paisagem miniatura. O edifício de estilo colonial precisa de muita madeira, desde as balaustradas na varanda, os revestimentos da sala de jantar, todos os tectos – madeira pintada com velatura escura.

O novo empregado de mesa que me traz um Masala Tea*, chama-se Paul Lepcha, pertence à tribo Lepcha, a mais difundida nestas montanhas. Alto, magro e escuro, com exagerada cortesia, sempre se curvando profundamente, ele não parece ridículo mas infantilmente simpático. Uma pessoa enérgica, sem gravitas, com ar e vento. Eu fico feliz quando observo a forma como ele serve o chá, e depois levanta os olhos e diz: “Desfrute, senhor!” e isso nunca sem o seu sorriso vencedor.

Neste lugar no canto direito da varanda, no primeiro andar, eu sinto-me em estado contemplativo, como se o sítio estivesse abençoado. Pode muito bem estar, quem sabe porquê.

Regresso no comboio – Madan iniciou o seu longo caminho de regresso para Kathmandu. Eu despeço-me de Indira e Binay, da sua noiva Priya, de Nilam e dos outros. Primeiro de táxi de Kalimpong para New Jalpaiguri. Anteriormente eu viajava

estação de comboio
Estação

de autocarro, mas desde que passei a levar o meu portátil comigo, que o evito sempre porque as peças de bagagem são transportadas no tecto do autocarro, e apesar de embaladas e amarradas, ficam expostas às estradas com pisos acidentados. A técnica moderna aqui não se consegue adaptar ao estilo de vida da população. Nós, humanos, temos capacidade de adaptação, menos os produtos feitos pelo homem.

A caminho da cidade, logo que atingimos a planície, em ambos os lados existe floresta densa, habitada por elefantes. Há assentamentos de militares indianos, campos de treino, escolas militares, e veículos militares por todo o lado. As instalações são estreitas e limitadas por vedações, estão completamente limpas, com pequenos jardins e pequenos parques, mas tudo limpo militar e meticulosamente e pintado de colorido piroso. Nenhum toque feminino, nenhum arredondamento ou talento, em lugar nenhum se permite a liberdade da natureza. Muitos edifícios de madeira são suportados por palafitas para contrariar as pragas de térmitas.

Descendo até à vida barulhenta, poeirenta, e lotada de gente da esponjosa e de caminhos já batidos cidade dupla de New Jalpaiguri e Siliguri. Com os anos, ambas as cidades se sobrepuseram uma à outra. Em nada elas se distinguem – nem por um rio ou lago ou jardim, nem por nenhuma avenida, por nenhum bairro residencial em larga escala, por nenhuma torre ou templo. Centros comerciais modernos entre cabanas e edifícios decrépitos, nenhum planeamento, nenhuma saudade da beleza. Apenas estradas e pessoas e veículos e pó e barulho.

Os bancos à frente da estação ferroviária foram removidos, temos que esperar de pé ou vamos embora. Eu procuro um restaurante tranquilo, onde possa passar o tempo. A praça da estação está rodeada de bancadas de comida, e onde só encontramos refeições simples de arroz, mas para isso ainda é cedo. Eu retorno à pequena descida para os viajantes; um quarto, sim, eu poderia tê-lo; mas um café, uma refeição, não, não é possível. Mais tarde há arroz, sim, nada mais.
Então eu caminho por aí e espero, o comboio parte às nove horas. Está uma hora atrasado, portanto, vou ter que continuar à espera de pé, desta vez numa das três grandes pontes de ferro que se estendem através da plataforma, para não perder o anúncio falante que informa qual a linha do comboio. Os anúncios são completos: Cada um em três línguas: bengali, hindi e inglês, e são repetidos inúmeras vezes, até ser feito novo anúncio. E por causa do som constante, é possível que percamos o anúncio, e que passado algum tempo já não consigamos absorver o seu sentido.
No geral, a organização das estações ferroviárias tornou-se mais clara e ordenada do que há décadas atrás. Eu recordo-me de como nós nos tínhamos que apressar ao longo dos comboios de longa distância, de compartimento em compartimento, só para descobrirmos os nossos nomes nos quadros de aviso. Nós não estávamos sozinhos, todos se apressavam. Dúzias e centenas de pessoas apressavam-se como nós, para encontrar os seus lugares antes da partida. Na altura eu viajava só na terceira classe. Os bancos de madeira não tinham estofos, e embora tivessem sido pensados para três pessoas, sentavam-se cinco pessoas neles, ou mais. Nós não queríamos incomodar ninguém que ainda pudesse ceder um cantinho da madeira. E quem protestava e insistia em ter o seu lugar todo para si, estava em minoria e era vaiado. Haveria confrontos físicos no ar. Mas o ambiente poderia rapidamente levar à bonomia novamente.

mapa* Kalimpong fica no distrito de Darjeeling, em Himalaya.
* Masala Tea – Chá com especiarias

About the author

O escritor Martin Kämpchen  escreve  o seu Diário da Índia na ECO123 , que será publicado em trechos a partir desta edição. Ele mostra como as pessoas do outro lado do globo apresentam  os seus problemas sociais, culturais, ambientais e económicos e tentam resolvê-los.

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