Quarta-feira, Fevereiro 26, 2020
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Aviso ao investidor

A Universidade de Aveiro (UA) avisa que, futuramente, em Portugal e especialmente no interior, devido ao fenómeno das alterações climáticas, a água das chuvas se irá reduzir em 30 %. Paula Quinteiro é a investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) que dirige esta pesquisa, e apela a quem tem responsabilidades políticas na matéria para que fomente um aproveitamento das águas da chuva mais eficaz. Aconselha a reter maiores quantidades de água da chuva em cisternas e outras formas de armazenamento, e ao gasto mais ponderado, poupado e sustentável. Os resultados da pesquisa ligada ao projeto “CLICURB” apontam um cenário preocupante, em que a falta de chuvas poderá levar ao desaparecimento de fontes e ribeiros, e ao abaixamento dos níveis de aquíferos subterrâneos.

O aviso dirige-se especialmente aos agricultores e silvicultores, e aos municípios e às empresas fornecedoras de água, aconselhando desde já um investimento que preveja um Portugal mais seco.

A silvicultura com eucalipto (50 litros de água/dia) e a agricultura com abacate (60 litros de água/dia) são as duas espécies de árvore privilegiadas nas monoculturas agroindustriais em Portugal. Mas a falta de água também irá afetar as framboesas (20 litros de água/dia) e muitas outras plantações nas estufas do sul do país. O aviso sobre o clima da Universidade de Aveiro dirige-se especialmente aos investidores, que julgando estar a agir com esperteza, esperam obter mais rendimento com os seus métodos de produção, exportando sem custos alfandegários, abacate, framboesa e outros produtos de monocultura para os supermercados de outros países da UE na Europa central e do norte. A política económica e agrária atual é dominada pelo dinheiro e pelos subsídios, não tendo em consideração valores ecológicos. O querer sempre mais e mais depressa já levou à estagnação da produção dos citrinos. Até agora, muitos agricultores tinham a perceção que a água é um bem sem limite e disponível para sempre.

Águas passadas não movem moinhos.

O gasto tremendo de água das monoculturas contrasta fortemente com a realidade climática. A água é cada vez mais um bem escasso. Em breve, em Portugal, já não irá

haver água disponível sem limite para regar as monoculturas. Muito irá mudar durante os próximos 20 anos: teremos menos água, menos turistas, mais incêndios. E será tudo isto só por causa das alterações climáticas? Este assunto vai-nos sair caro. As monoculturas nascem de uma ideia simples. Baseia-se no pensamento linear de uma certa geração de silvicultores e agricultores, no pensamento linear de uma economia que até hoje sempre se centrou no crescimento. E a política atual repete as mesmas rezas, seguindo o “terço” do crescimento económico sem compreender que o crescimento já não pode continuar a ser a meta económica em nenhuma das áreas da sociedade. Recursos como a água do nosso planeta irão forçosamente desaparecer se o crescimento continuar a ser o impulsionador da economia. A situação na agricultura lembra outro projeto a acontecer atualmente, o novo aeroporto do Montijo. Há uma casta conservadora de economistas a ter a visão errada na sua bola de cristal de um crescimento continuado do tráfego aéreo. O que não veem é que o turismo de massas conforme existe hoje tem os seus dias contados.

+info: www.ua.pt (CI.107-SCIRP/2019)

Uwe Heitkamp

traduções: Fernando Medronho & Penny e Tim Coombs | fotografias: Emídio Palma

 

 

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