Terça-feira, Outubro 22, 2019
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A floresta não é uma fábrica de salsichas

Vive em Lisboa. Tem duas filhas, uma com um e outra com quatro anos. João Camargo (35 anos) licenciou-se em Engenharia Zootécnica, mas a vida surpreendeu-o com o gosto pelo Jornalismo. Entretanto, estudou Engenharia do Ambiente, para si, intelectualmente muito estimulante. Trabalhou alguns anos na área e foi viver para Moçambique. Deu aulas no Norte do País, primeiro na Faculdade de Ciências Agrárias (Lichinga), depois na Faculdade de Biologia (Pemba). Regressou a Portugal volvidos dois anos.

Sentiu-se estimulado pela cidadania politica e começou a trabalhar na Liga para a Proteção da Natureza (LPN), onde ficou quatro anos. Encontra-se a concluir o doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável. As temáticas ambientais com vertente social estão sempre presentes porque nunca há forma de resolver um problema sem pensar no outro.

Como surgiu o seu livro Portugal em Chamas?

O tema sempre me fez alguma confusão, em particular em Portugal. Diante da enorme área existente, havia pouquíssima reflexão nos anos 80, parte dos anos 90. A contestação desapareceu inversamente à expansão incrível da área de eucaliptal e ao abandono cada vez mais evidente do interior do país e das zonas rurais. Em Moçambique também me apareceu muito isto, áreas massivas, abate de floresta nativa para introdução de eucaliptal.

Eram empresas suecas, na altura. Agora sei que também lá estão a Portucel Moçambique, que faz parte do grupo Navigator. Quando voltei para trabalhar na LPN, comecei a escrever sobre o tema. Entretanto, em 2012, saiu a Lei de Assunção Cristas. Fui uma das pessoas que ajudou a montar a campanha para tentar revogar a lei da liberalização da plantação de eucalipto em áreas inferiores a dois hectares. E quando comecei a escrever publicamente sobre o tema, fui atacadíssimo, muito acima daquilo que esperava.

Por parte de quem?

De várias pessoas, muitas delas ligadas ao setor… ataques anónimos. Percebi que era muito mais forte do que aquilo que eu que eu julgava. Era muito estruturado, planeado. Olhando em retrospetiva, estava a ser muito ingénuo ao considerar apenas devido à inércia ter o país com a maior área de eucalipto do mundo. Quando escrevi isto num artigo, em 2012, reparei que nunca o tinha lido em lado algum.

Um milhão de hectares, 12 por cento do território nacional.

Depois, fui entrando nos problemas existentes, nomeadamente no grave problema do abandono, na perda do rendimento da floresta e dos produtos florestais. Fui conhecendo várias pessoas que partilhavam da mesma opinião. Foi com uma delas, Paulo Pimenta de Castro, que escrevi o livro Portugal em Chamas. É um homem que veio de um sector muito mais à direita, mas, nesta análise, convergíamos totalmente em como chegamos aqui, como a gigantesca dimensão do problema nos coloca um desafio para o futuro.

Qual a posição que tem em relação ao elemento fogo?

O fogo no Mediterrâneo é um elemento natural, não existe a possibilidade de acabar com os incêndios, obviamente.

O fogo ou o incêndio? Estou a falar sobre o elemento.

É um elemento que está presente desde que a Terra existe, e se acontecer com determinada dimensão, tem um papel e até um fator regenerador dos ecossistemas, podendo acabar com a biomassa, a biodiversidade disponível. Mas todos temos uma influência muito grande na dimensão que o fogo ocupa dentro de um ecossistema, de um território, de uma população. Uma coisa são pequenos incêndios de pequenas consequências; outra são as monstruosidades que acontecem cada vez mais, de milhares de hectares a arder ininterruptamente. A partir de determinada altura não há obstáculo, bombeiros ou meio de combate possível. Manchas ininterruptas de espécies altamente combustíveis acabam por beneficiar a frequência dos incêndios. Quando criamos essas condições, associamos isso a fatores favoráveis de escala global à ocorrência de incêndios, nomeadamente a um aumento de temperatura e redução da humidade. Estamos a criar um inferno!

Que alternativas existem?

joao camargo
João Camargo

Aquilo que tentamos desenhar como alternativa é introduzir primeiro racionalidade no território, quase inexistente. Foi criada uma situação de expansão de eucaliptos principalmente através de plantação. Não falamos só de uma expansão invasora, o principal incentivador foram as pessoas e o setor das celuloses. Foram estrangulando toda a economia rural para aquele produto. O que é introduzir racionalidade? Temos um território muito variado; a cada 100 quilómetros, para cima ou para baixo, mudam antes as condições climáticas, as espécies predominantes, a topografia.

Do Algarve ao Minho parecia que estávamos quase a sair de Marrocos e a entrar no Norte da Alemanha. O que temos, e o que fomos encontrar, são mapas de adaptação bioclimática do território.

O Instituto Superior de Agronomia (Departamento de Arquitetura Paisagística) tem um trabalho incrível, realizado por Manuela Raposo Guimarães, que nos diz que espécies, florestais e até agrícolas, fazem sentido em determinado território, mas com uma malha muito curta; não diria num metro quadrado, mas quase. Diz-nos que espécies fazem sentido numa encosta, articulando as características das espécies com as condições do solo, insolação, humidade geral e temperatura. É bastante simples. Tentamos acrescentar a isto a questão das alterações climáticas. Hoje fazem sentido determinadas misturas de espécies. Devemos esquecer a ideia de ter monoculturas, porque é totalmente absurdo tentar pegar num território tão diverso e achar que a mesma espécie funciona em toda a parte.

Mas no futuro que espécies farão sentido? Quais as que fazem sentido hoje, quais as que farão sentido com mais 1 ou 2 graus, com menos precipitação? É preciso preparar o território para o futuro em termos de alterações climáticas, dando prioridade, obviamente, a espécies autóctones, menos propensas a incêndios e mais resistentes à seca. Quando não existam autóctones, procurar espécies próximas do nosso bioma, tanto mais continentais como mediterrânicas, porque o avanço do Saara para Norte fará com que o clima mais desértico avance para cima. Podemos pensar já hoje em espécies que não existem em Portugal, mas existem em Marrocos, que podem – e devem – ser testadas a uma escala pequena, experimental, obviamente: arganas, sedas-do-atlas, pinheiros da Calabria, pinheiros de Alepo. Temos de reproduzir a abundância que andamos a combater nas últimas décadas, ao expandir pinheiro e eucalipto em escala massiva. Isto tudo implica ter pessoas no interior do país, no mundo rural, porque repensar o território não é só fazer dinheiro rapidamente, é viabilizar o território. É garantir que, com mais dois, três graus, Portugal continue a ser um país viável. Não estou a dizer financeira ou economicamente; isso são tudo construções humanas, mas viável nos recursos: água, produção alimentar.

Infelizmente, a simplificação que decorre das alterações climáticas fará com que a nossa enorme complexidade económica tenha de se simplificar. Ou nos preparamos (e esse processo pode até beneficiar a sociedade, a vida coletiva) ou não, e aí sofreremos um choque tremendo que fará com que os processos de austeridade dos últimos anos pareçam uma brincadeira. Temos dois caminhos: ou a viabilidade ou o colapso anunciado.

No nosso dia-a-dia existe tempo para refletir sobre estes dois caminhos?

Tem que haver.

As pessoas que vão trabalhar quarenta ou mais horas por semana têm capacidade para se unir, criar uma opinião e atuar em defesa da Natureza, por uma floresta com biodiversidade?

Considero que existem várias escalas de ação, todas elas complementares. Já há pessoas que estão a fazer uma parte importante desse trabalho. As próprias têm estilos de vida, processos coletivos, as coisas estão a mudar. Por outro lado, os processos de contestação, felizmente, criam sempre uma certa pressão de mudança. Embora nos digam que cada um de nós faz pouca diferença, isto é uma armadilha, é hegemonia. E a hegemonia reproduz-se pela cultura, reproduz-se nas instituições, nas escolas, na imprensa, nos sistemas de justiça, nas leis. Estamos a precisar e de um choque contra-hegemónico, porque esta hegemonia afeta as pessoas que cultivam essa hegemonia. Elas próprias consideram que não é possível mudar as coisas. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do regime económico em que vivemos. Fomos, de facto, postos dentro de uma armadilha que já se instalou dentro da nossa própria cabeça.

Cada incêndio faz cada habitante mais pobre. Que consequências terá a saída de cada família do campo para a cidade? Como podemos travar este êxodo? Como motivar jovens a regressar à terra para trabalhar com biodiversidade?

Existe um pequeno movimento de regresso ao natural. Mas é necessário um crescimento em escala. E, para crescer em escala, é preciso ter um plano. O livro tenta dar algumas pistas para pensar esse plano, a aptidão dos territórios, a racionalidade. Depois, é preciso reverter muito do que foi desmantelado nos últimos anos, porque o fenómeno do êxodo rural não é uma questão exclusiva de Portugal, aconteceu em todo o mundo e respondeu a uma série de incentivos: a atratividade das cidades, a falta de investimento no interior. Em Portugal, concretamente, o desmantelamento da rede de serviços públicos, hospitais, justiça, escolas… São fatores que desincentivam as pessoas. Não existe um movimento contra cíclico a este êxodo rural que não seja fruto de um grande investimento, de um grande plano para voltar a espalhar a população pelo território.

Esse plano de racionalização do território é extremamente benéfico também para o Litoral e para as grandes cidades. Porque esta não existe sem a água, que depende totalmente do interior. A produção alimentar terá de ser crescentemente de origem nacional ou local, até porque os grandes sistemas de distribuição e comércio internacional de alimentos têm enormes tensões e essas irão sofrer crescentes agravamentos. Portanto, Portugal foi, por uma série de incentivos externos, diminuindo a sua produção alimentar e hoje é absolutamente residual. É autosuficiente em três ou quatro produtos e nenhum deles é de consumo direto, são azeites, óleos… A produção alimentar vai depender muito mais do interior e a água, obviamente.

Se não fizermos nada qual é a perspetiva que teremos?

Eu diria que em 20, 30 anos, se a temperatura continuar a aumentar ao ritmo que está, até ao Tejo o nível de desertificação vai tornar-se muito, muito elevado.

Ou seja, Portugal será inabitável?

Inabitável não.

Mas com muito mais stress.

Sim, e com muito menos gente. Há pessoas que vivem no Saara. Mas digamos que é uma densidade populacional muito baixa e um estilo de vida muito duro. Mesmo nos piores cenários existem grandes faixas habitáveis. Nos territórios nacionais, e principalmente internacionais, a pressão habitacional é muito maior – muito mais gente em muito menos espaço e com muito maior necessidade de consumo de recursos. Essas são as condições perfeitas para toda a espécie de barbáries. A Natureza empurra-nos, aperta-nos e depois nós apertamo-nos uns com os outros.

Um êxodo para o Norte?

Sim, caminhos para Norte, sendo que nós caminhamos para o Centro e Norte da Europa. Naturalmente, os povos do Norte de África caminham para aqui, portanto a pressão é total. Mas incluir as pessoas nesse plano de adaptação pode revitalizar o país.

O que podemos fazer no dia-a-dia para diminuir as alterações climáticas?

Tento sempre tirar o ónus da ação individual, embora a considere obviamente importante, à exceção do uso do avião, por exemplo. Temos de ter um movimento de pressão política, que deverá ser à escala internacional, para fazer duas coisas, simultaneamente…

… Cenoura ou pau? O burro só se motiva com uma cenoura.

Saiu agora o atual relatório do plano intergovernamental para as alterações climáticas (IPCC). Este diz-nos uma coisa que é fortíssima e que já deveria ter sido dita há mais tempo: para conseguirmos manter o aumento da temperatura abaixo de um grau e meio temos de cortar cinquenta por cento da emissão dos gases de efeito de estufa até 2030. São 12 anos. Isso significa não só não haver novas explorações de gás, petróleo e carvão, mas também cortar produções que existem hoje; significa uma revolução energética radicalíssima. E, infelizmente, um relatório com aquela dimensão, com aquela preponderância, é pouco atrativo na sociedade civil. A sociedade civil precisa mudar os transportes, a energia, mas também a forma como se faz agricultura, como se vive no mundo rural, na floresta … Portanto, essa pressão é importantíssima. Ao nível dos comportamentos individuais todos sabemos como agir.

… ou fazer diferente…

Ou fazer diferente. Transportes, políticas públicas… As políticas públicas são externas às pessoas. É assim que se deve interpretar o Estado, não como apenas como um leviatã longe de cada um de nós, mas como algo de que nos podemos apropriar.

Menos fogo.

Menos fogo, também, claro.

Não arder petróleo, carvão, não arder gás.

Exato.

Esses três.

E não arder floresta também, se for possível. Há uma tendência para que arda cada vez mais, por isso sabemos que podemos ter uma floresta muito menos combustível e muito menos ininterrupta que permita, embora com grandes áreas, que um incêndio seja muito mais controlável. Isto, conscientes de que há condições, como as que aconteceram aqui em outubro de 2017, muito difíceis de controlar. As grandes áreas de eucaliptal e pinhal arderam incontrolavelmente, mas há áreas muito mais bio diversas, por exemplo a Mata da Margaraça, perto de Arganil, só ardeu no exterior. A diversidade de espécies e a enorme complementaridade, com complexidades diferentes, desacelera o fogo, baixa a sua altura, salvando o interior da floresta.

Há muitos sinais que mostram que a diversidade funciona muito melhor no combate aos incêndios e que, portanto, uma floresta bio diversa oferece-nos muito mais coisas – além de muito mais bem-estar: mais serviços para a água, mais produtos (frutos, cogumelos, bagas, raízes, madeira) – do que uma floresta pensada como se fosse uma fábrica. Isto, porque a Natureza, apesar de nos dar tanta coisa, não é uma fábrica de salsichas.

Obrigado.

About the author

Uwe Heitkamp, 53 anos, jornalista e realizador, vive 25 anos em Monchique, Portugal. Adore caminhadas na montanha e natação nas ribeiras e barragens. Escreve e conte histórias sobre os humanos em relação com a ecologia e a economia. Pense que ambas devem ser entendido em conjunto. O seu actual filme “Herdeiros da Revolução” conta durante 60 minutos a história de uma longa caminhada, que atravessa Portugal. Dez protagonistas desenham um relatório da sua vida na serra e no interior do país. O filme mostra profundas impressões entre a beleza da natureza e a vida humana. Qual será o caminho para o futuro de Portugal? (Assine já o ECO123 e receberá o filme na Mediateca)

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