Terça-feira, Agosto 22, 2017
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É difícil definir onde me sinto em casa

Lourdes Picareta | Cineasta

Lourdes Picareta nasceu há 58 anos em Santa Iría, em plena planície alentejana. Terminou o 12º ano em Almada. Fala Português, Alemão, Francês, Espanhol, Inglês e Grego. Dois anos após o 25 de Abril, mudou-se de Portugal para a Alemanha para estudar História, Arte e Literatura Alemã em Mainz e Munique. Depois, começou a interessar-se pelo jornalismo, tendo ido para a televisão germânica, onde, até hoje, trabalha para vários canais da estação alemã ARD. Faz todos os anos três ou quatro documentários longos, dos quais muitos também são transmitidos pelo canal franco-alemão ARTE e pelo canal 3sat. As suas viagens jornalísticas levam-na até muitos focos de tensão ecológicos e sociais desta nossa terra. Em 2013, o seu filme “Gemachte Armut“ foi nomeado para o cobiçado prémio alemão Grimme. No ano passado, lançou um filme de grande autenticidade na televisão alemã, que se chama “Alentejo Minha Pátria“*. A ECO123 visitou-a durante as suas férias na Costa Vicentina.

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Você é portuguesa. O seu marido é grego. Vive na Alemanha e faz férias no Alentejo. Como ocupa o seu tempo?

Vivo-o. Tenho sempre muita curiosidade. Para mim, o tempo é um bem muito precioso. É como um frasco. Pode-se esvaziar ou encher. Por vezes vale a pena enchê-lo. Mas, às vezes, também temos que esvaziá-lo. Sentir e saborear o passar do tempo. Exercer uma profissão dentro de um ambiente cultural que não é o próprio pode ser complicado e desgastante. Tem que se voltar a si próprio depois, e voltar a ter a consciência, de ter nascido em Santa Iría, numa aldeia simples, onde sobreviveram as pessoas. Os fundamentos deste modo de vida simples são importantes. O ser humano necessita de uma boa alimentação, ar puro, poucas coisas à sua volta, e do mar. Da natureza. Penso que aqui e agora na minha vida estou unificada com ela. Foi assim que eu cresci. Fazemos parte da natureza mas, muitas vezes, tratamo-la como se fosse lixo.

Como é ser uma estrangeira a viver na Alemanha?

Por vezes é muito agradável. É fácil distanciarmo-nos, por exemplo para o mundo dos expatriados. Isso é desculpa para muitas situações em que normalmente seria necessário debatermo-nos com os problemas. Mas frequentemente também faz falta a leveza de não suportar o fardo de ser excluída. Por vezes está-se com amigos ou colegas e faz-se um comentário sobre a sociedade em que se vive. Depois, a resposta que te dão, é – mas lá na tua terra é diferente? Penso que aqui estou em casa. O estar de fora sempre “implícito“, não pertencer à Alemanha, não é bom. Vivo agora há 42 anos na Alemanha. Mas sou portuguesa e sempre serei.

O que pensa sobre a Europa?

A Europa é uma história complicada, e é um sonho. Quando vim para a Alemanha, a amizade franco-alemã era uma necessidade, e, posteriormente, também a amizade com a Holanda e a Bélgica. Eu própria também acreditei nessa amizade. Mas ela transformou-se numa questão económica, e já não é suficientemente cultural. Nos nossos tempos, em que a economia domina a vida do dia a dia, penso que se perdeu a verdadeira base para a Europa, que seria o entendimento a nível cultural. A forma como a Alemanha se comportou em relação à Grécia foi a gota que fez transbordar o copo para mim. Se até lá se via a Europa como um sonho, este passou a ser um pesadelo. Se não descobrirmos uma outra forma de alcançar a união, que não se baseie em fundamentos económicos cruéis, poderemos esquecer esse sonho. Tornei-me cética. Fiz muitos filmes no estrangeiro, e por isso é que ainda vivo na Alemanha …-

…- pode explicar melhor essa frase?

Primeiro trabalhei para o ZDF. O programa chamava-se “A Vizinha Europa“. Apesar de eu ter ganho bastante dinheiro com o trabalho como tradutora nesse programa, senti que não queria ficar fechada nessa função. Teria ficado para sempre a emigrante. A certa altura disse que ia mudar para o que era na altura ainda o “Südwestfunk”, porque queria realizar um trabalho jornalístico normal. Depois disso, entrei rapidamente na redação europeia, e depois na redação mundial do ARD. Mandavam-me para todo o lado onde havia algo interessante a relatar, quer por sugestão própria ou da redação, e fizemos muitos programas diferentes. Um deles chamava-se “Países, pessoas, aventuras”. E, penso que foi com essa forma de viajar, e de perceção do mundo, que a Alemanha me tocou como portuguesa. Nós, os portugueses, sempre fomos assim. Partimos para o mundo. Senti o espírito que também é o de muitos dos portugueses. Essa curiosidade de ver algo de novo. Eu penso que não é só por necessidade financeira que temos a tendência de querer conhecer mais do mundo. O enorme mar à nossa frente, que sempre nos deu a vontade de querer ver mais. Esse desassossego permanente, que nunca queremos definir, e a procura de algo… não somos pessoas com um sentido prático. A televisão levou-me a ver os Maias, a Caatinga no Brasil, e a Índia. Foram desafios grandes para mim. Superei-os sempre. Eu acho que são essas as descobertas que criaram a minha ligação com a Alemanha e me fizeram dizer a mim própria, que é aqui que tenho a oportunidade de ver o mundo e de trabalhar temas interessantes. E eu dizia para comigo, – tens que ser tu própria ao fazê-lo e assim irás sentir-te bem.

Claro que depois casei com o meu marido, grego, e tivemos dois filhos. A Alemanha transmite-nos um forte sentimento de segurança. E, quando depois se tem filhos, quer-se dar-lhes essa segurança. O meu marido gosta muito do seu trabalho como matemático, e portanto fomos ficando, ano após ano, sempre com o sentimento de ainda não ter chegado. Ainda hoje é assim. Com a experiência que tenho comigo própria, eu não sei se algum dia poderei dizer para mim que cheguei a algum lado. Mesmo se regressasse para Portugal, também não iria chegar realmente. Estou sempre em viagem. E, é por isso que eu ainda estou na Alemanha, por que continuo a poder viajar.

Fotios Giannakopoulos e Lourdes Picareta

E em que lugares é que já esteve?

Estive em praticamente todos os países europeus. Fora da Europa estive no Burquina Faso, no Mali, na África do Sul, na Nigéria. Na América do Sul conheço o México, o Belize e a Guatemala, o Brasil, a Argentina, os EUA. E também estive em Macau, na China, Índia, Cambodja e na Tailândia.

A população na terra mais do que triplicou nos últimos 50 anos. Os problemas potenciaram-se, pelo menos se acreditarmos no jornalismo que nos traz reportagens das partes mais remotas desta terra até à nossa sala de estar. Qual é a sua ideia sobre isto?

Isso é difícil de explicar, porque nós, os jornalistas, somos enviados para reportar situações difíceis. Ou seja, não abordamos um país, focamo-nos num problema. O que depois reportamos, raramente é uma experiência positiva, é diferente de uma ida ao local como turista. Por isso, sou cuidadosa com a minha opinião. Mas o que vejo enquanto faço os meus trabalhos, até mesmo em trabalhos de temática cultural, como este filme sobre as rotas dos Maias, é, frequentemente, a exploração de pessoas, são alguns que vivem à custa de muitos, vejo uma grande falta de ética. Quando penso no meu filme sobre a prostituição infantil no Cambodja ou sobre a violência contra as mulheres na Índia, é esta a experiência que trago. Por vezes levantava-me às três da madrugada, permitindo-me uma visita a um templo, porque também queria ver algo de grande daquela cultura para variar. Para contrapor a desgraça que tinha de ver, como, por exemplo, crianças a serem vendidas aos nove anos, mal tratadas, e depois abandonadas na rua. Na Índia, passa-se o mesmo. Tenho uma conotação completamente negativa com a Ásia. É triste ver que os Maias, um povo com tanta cultura, é um dos mais pobres do mundo. Nós, os jornalistas, pensamos sempre que conseguimos mudar algo, e eu fico sempre contente quando alguém liga para a redação e diz que quer pagar os estudos àquela menina. Isso já é uma mudança. Mais do que isso não conseguimos.

E não se coloca por vezes a pergunta – o que estou eu a fazer aqui? Sente-se realizada com a vida de jornalista?

Na minha opinião, o que nos faz sentir realizados é a obra em si. Isto se posso classificar os meus filmes de obra. Quando vejo que um filme consegue chegar a certas pessoas e transmite certos sentimentos, sinto-me realizada. Mas será criar algo?

Sou filha de uma costureira e de um sapateiro. Sempre foi um prazer para a nossa família ver as pessoas usarem o vestuário feito por nós e sentirem-se bem. É esse o momento em que se sente a realização. Não a sinto quando penso que consigo mudar o mundo politicamente ou socialmente. O meu objetivo é relatar as culturas e a beleza, mas também transmitir as tragédias e os sentimentos que tive quando estive nos locais. Quando o consigo, sinto-me realizada.

O que leva sempre consigo nas viagens, qual a coisa que nunca deixa em casa?

A caixa para que eu possa pagar honorários (risos). Bem, tenho também uma garrafinha de glóbulos de arnica. Eu não sei andar a cavalo, mas apesar disso, faço-o. Fazemos expedições em que subimos glaciares com cinco ou seis cavalos carregados com o equipamento de filmagem e muito material. São locais onde um carro não consegue passar. O meu marido prepara-me sempre uma pequena bolsa de primeiros socorros para a viagem. Assim, sinto que há algo que me protege. Noutros tempos, levava sempre dois pequenos diamantes comigo. Foram-me oferecidos no Brasil. As pessoas estavam à procura diamantes e nós a filmar. Foi aí que me deram esse frasco. Eram os meus talismãs, até que me foram roubados em Siegburg. Na Alemanha!

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Há algo mais valioso para si do que o dinheiro e as viagens?

Claro que sim. A minha família, o meu marido, os meus filhos, e um dia maravilhoso como este. Talvez precisasse de um mês para enumerar tudo. O dinheiro é um mal necessário. O dinheiro é uma moeda de troca, não mais que isso.

O que é que significa para si essa moeda de troca?

Eu estou na feliz situação de não ter de medir essa importância. Porque sempre chegou para viver bem. Quando não se tem exigências demasiado altas, como precisar de cinco casas ou coisas do género, o dinheiro é uma necessidade para ter uma certa segurança na vida. Porém, na minha profissão encontramos todos os dias pessoas que têm que ganhar dinheiro, custe o que custar, para conseguir comprar um pouco de comida. Até agora consegui viver num país onde tudo está organizado. Nunca tive que lutar pelo meu salário, apesar de ter trabalhado muito para os meus filmes, tanto para o filme sobre a pobreza na Europa, como para o outro sobre a violência na Índia. Não há nenhuma relação entre o que eu faço e o valor em dinheiro que recebo em troca. Para um filme de 45 minutos há honorários fixos que são assim e pronto; não interessa o tempo que trabalhei neles.

Consegue imaginar voltar ao seu quarto de infância, em Santa Iría, e passar lá o resto dos seus dias?

Ora bem, se eu puder continuar a viajar, talvez sim. Como o meu marido é grego, talvez nos mudemos para lá. Mas isso também depende dos nossos filhos, e não podemos saber hoje que tipo de decisões iremos tomar nessa altura.

Em Santa Iría?

Não. Tem pouco a haver comigo. Mesmo sabendo que tenho lá as minhas raízes, e recordar com muito agrado esse tempo, de que gostei muito. É difícil para mim definir qual é o meu lugar fixo neste mundo.

Portanto, a sua vida é uma viagem e deve continuar a ser dessa forma?

Espero bem que sim.

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Alexis e Gilberto Orestis

Tem dois filhos, falemos deles agora. Como vê o futuro da Humanidade em tempos em que os recursos naturais escasseiam e crescem as montanhas de lixo?

No fundo, é um problema que é evitado por nós. Reparei nisso, recentemente, porque me pediram para fazer uma reportagem sobre refugiados para o próximo debate. Decidimos falar sobre o Sri Lanka e sobre a Índia, porque já hoje em dia, como consequência da subida do nível do mar, há pessoas que fugiram do Sri Lanka para a Índia, porque os seus campos estão salinizados.

Explique-me, como, como ser humano, encara o futuro da humanidade?

Eu não separo a minha condição de jornalista da minha condição de ser humano. Penso, por exemplo, porque nos deixamos desestabilizar tanto por um atentado terrorista, em que morrem duas, três, cinco ou dez pessoas…

…ou cem…

…e não pensamos que 60 milhões de pessoas podem pôr-se a caminho vindas de África e da Ásia, e que isso irá provocar guerras. Eu penso que a humanidade está a ignorá-lo. Porque isso tem a haver com a temática do meio ambiente, e não conseguimos agir consequentemente. Assumo a culpa…

… a culpa ou a responsabilidade?

Irresponsável e culpada.

Assumir a responsabilidade é algo que seria positivo?

Na Alemanha aprendemos a fazer as nossas compras localmente, diretamente na loja do agricultor, e só quando algo não existe cá, recorremos a um produto estrangeiro. Nesse ponto ajo de forma responsável. Isso faz parte do dia a dia e é importante. Mas eu não sou capaz de dizer que não andarei mais de carro, que é algo que polui a nossa atmosfera ou passo a andar num carro elétrico, como esse que tem aí. Em vez disso, deixei-me convencer pelos meus filhos a andar num R4 e na Alemanha ando de comboio.

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Andar de carro é um mal menor. E é algo que poderia mudar rapidamente. Mas também tem má consciência por causa dos voos. Quantas vezes viaja de avião por ano?

Eu não voo muitas vezes, porque os filmes que faço são longos. Faço uma viagem de avião, permaneço três ou quatro semanas no local das filmagens, e volto. Não consigo fazer mais do que quatro filmes.

Quatro voos portanto, a juntar às férias, o que significa que são cinco ou seis voos por ano, certo?

Sim, cinco.

Faz alguma ideia da quantidade de CO2 que estes voo significam?

É essa a questão, para a qual evitamos a resposta.

Conhece a sua pegada ecológica anual?

Não. Eu só sei que já passamos o limite desde o início de agosto, e que tudo o que fazemos aqui na terra desde há semanas significa um aquecimento extra da atmosfera.

Só poderia provocar uma emissão de duas toneladas e meia de CO2 por ano. Um voo para as férias, e já está atingido o limite. E isso, sem contabilizar nenhum percurso de carro, sem compras e sem ter consumido um único quilowatt-hora.

Vivemos de forma irresponsável. Mas isso não chega para chegar a essa conclusão.

Trata-se aqui de uma questão muito concreta. Como pode uma pessoa conjugar a sua vida e a sua profissão com a natureza, de forma a provocar cada vez menos emissões de dióxido de carbono. Como jornalista, piloto, condutor de camião, empresário, empregado, etc. Porque não há só um frasco para o tempo, com o CO2 é semelhante, e quando este estiver cheio, nada mais funciona. E já está a transbordar.

Porque não repensar o tempo para si? Se todos deixássemos de voar, e nos deslocássemos mais lentamente nas viagens, viveríamos de forma mais saudável. Consegue imaginar-se a viajar menos ou de outra forma?

Se eu já não viajasse de avião, teria que trabalhar menos. Na Europa poderia viajar de outra forma. Com os voos intercontinentais isso já não dá. Também é quase impossível para os operadores de câmara. Normalmente, é a emissora que define o tipo das deslocações.

Existe um documento, publicado em dezembro de 2015 em Paris. Nele dizem que “mais dois graus célsius”…

Conheço.

E isso tem algum significado?

Não. Isso é um caderno de intenções.

Portanto nada irá mudar? A humanidade irá afundar-se alegremente, a dançar e a pular?

Sim.

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E só porque nós não somos capazes de questionar a nossa forma de viver?

A não ser que apareçam 60 milhões de refugiados a bater às nossas portas, dizendo: o teu comportamento em relação ao meio ambiente originou a minha fuga. Acolhe-me.

Os refugiados são um desafio à nossa atitude ambiental?

O que podemos fazer? Já tivemos um primeiro aviso, a primeira onda de refugiados veio e está retida na Grécia e na Itália. Isso ainda é possível com mais meio milhão de pessoas, mas não com 60 milhões. Para mim, esse é que irá ser um dos maiores desafios.

Mas não será no nosso próprio comportamento que deveremos começar? Talvez não com um passo radical, mas sim com vários passos pequenos ao longo de vários anos?

Aí estarei reformada. Nessa altura irei consegui-lo. Tenho pena de não poder acrescentar mais nada. Porque temos noticiário atrás de noticiário sobre o tema do terrorismo? Não digo que não seja importante, mas não vemos o perigo e o abismo de que nos aproximamos. Talvez por não acreditarmos? Talvez por vivermos segundo a teoria de Darwin, e julgarmos que tudo se irá resolver por si só? Há algo na nossa mente que nos torna cegos perante esse perigo.

Por que razão faltam conceitos que apontem soluções?

Claro que conhece o livro de Saramago “Ensaio sobre a cegueira”. Para mim ele é uma boa metáfora para a situação em que vivemos.

Comprar produtos locais. Pensar globalmente e agir localmente.

Isso já o fazemos há 20 anos. É mais que sabido. O status-quo é a questão das viagens.

E consegue reduzir a quantidade de voos a pouco e pouco? Os jornalistas poderiam questionar profundamente os seus métodos de trabalho..

Não tenho resposta para essa questão.

Muito obrigado.

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