Sábado, Outubro 19, 2019
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Energias limpas no Orçamento de Estado?

O partido PAN (Pessoas Animais Natureza) é a nova força política na Assembleia da Republica, algo que não acontecia desde 1999 após a entrada do Bloco de Esquerda. André Silva, 39 anos, é o porta-voz e o único deputado do PAN. Formado em Engenharia Civil, é vegetariano, vive em Lisboa e tem uma horta em casa onde faz compostagem, pratica biodanza, mergulho, e pretende que o seu partido “faça parte da solução”. Na infância em casa dos avós, agricultores de profissão, em Vilar de Besteiros no concelho de Tondela, assistiu ao início “das explorações pecuárias intensivas de aves e de bovinos que começaram nos anos 80”. Atualmente leva ao plenário temas como a protecção dos animais ou preservação do ecossistema, entre outros. A sua ideologia não está à direita, nem à esquerda mas centrada numa visão holística pouco comum na política. André Silva tem vindo a afirmar-se como um deputado diferente. A ECO123 falou com ele em Lisboa.


Se amanhã passasse de deputado a Primeiro-ministro como seria o nosso País?

Amanhã no imediato, seria exactamente igual (risos). O PAN preconiza o apoio a indústrias, a atividades que sejam economicamente viáveis e consigam criar emprego, que permitam desenvolver o nosso tecido social mas que sejam sustentáveis e que sejam éticas.

Quais são os objetivos do PAN?

Pretendemos trazer temas que habitualmente não são falados pelos outros partidos políticos porque não lhes dão prioridade. Os interesses jurídicos, os direitos dos animais e as questões sociais. Nós trabalhamos em excesso, é importante criar uma sociedade onde o trabalho não seja aquilo que predomina, é necessário reduzir o horário de trabalho. Nos países do norte da Europa as pessoas trabalham menos e produzem mais. Conseguir pensar em formas alternativas de distribuir o rendimento, para que as pessoas tenham maior autonomia.

E a natureza?

É uma das nossas preocupações, ainda agora discutimos os OGM (Organismos Geneticamente Modificados) que foram chumbados pela esmagadora maioria do poder central, pelo PS e PSD, que continuam a alimentar o lobby da engenharia genética. Temos tido também várias intervenções junto do Primeiro-ministro acerca dos contratos de exploração e concessão de petróleo que achamos terríveis.

Quais são as alternativas aos OGM?

Portugal não necessita de organismos geneticamente modificados e deve enveredar por um caminho da agricultura biológica. Quando se diz que temos que ter OGM para fazer face ao nosso clima, porque determinada cultura não se adapta ou tem determinada praga, a resposta é que o nosso clima é fantástico para determinadas culturas. Então vamos investir nas culturas que se adequam ao nosso País. Não podemos querer ter milho em todo o Portugal e é isso que neste momento estamos a querer fazer. Se não temos condições para cultivar milho, podemos cultivar outros produtos autóctones e culturas que sejam mais adequadas ao clima de cada região e que produzam também valor.

A agricultura biológica pode ser o caminho?

Se conseguirmos enveredar por um caminho, não digo exclusivamente, mas na direcção de uma agricultura biológica conseguiríamos ser altamente competitivos na Europa, nas cotas de mercado e escoar os nossos produtos de origem biológica para o resto da europa. Só podemos ser competitivos fazendo algo diferente. O que estamos a fazer é igual aos outros, uma agricultura intensiva, carregada de agro-químicos que mobiliza e está a degradar os solos, esgota os nossos recursos hídricos, que está a acabar com a nossa biodiversidade e na relação custo e preço final não conseguimos ser competitivos. A criação de um programa de agricultura biológica iria permitir, regenerar solos, escoar os produtos para fora mas também, por via da alimentação, diminuir e muito o número de doentes que ocupam camas nos nossos hospitais.

André Silva
André Silva

E acabar com os OGM?

Na União Europeia só há dois países que continuam a produzir OGM: Portugal e Espanha. A indústria da engenharia genética diz que não há perigos rigorosamente nenhuns, outros dizem que há perigos para a saúde e para o impacto ambiental. Enquanto não tivermos a certeza de que os organismos geneticamente modificados são, ou não, lesivos para a saúde e para a biodiversidade não deveríamos permitir esse consumo. Neste momento a indústria da engenharia genética, com a conivência dos nossos governantes, está a fazer de todos nós cobaias, para daqui a dez ou quinze anos tirarmos conclusões sobre se os OGM são lesivos ou não para a saúde humana. Vamos ver.

Tem-se manifestado contra os subsídios à indústria do leite e da carne por parte do governo.

A mim espanta-me que o PSD e o CDS PP venham defender uma economia de mercado de livre iniciativa e estejam sempre a andar com a indústria e o lobby dos lacticínios, da carne, das carnes importadas e dos OGMs ao colo. Décadas após décadas é o governo português que os está a sustentar e deveriam encontrar alternativas dentro do sector. O PAN reconhece que são um sector importante na actividade económica do País mas defendemos que os subsídios não devem ser atribuídos para perpetuar a indústria como ela está, mas sim diversificar: as atividades, indústrias, agricultura ou alimentos que sejam mais saudáveis e que tenham menos químicos, esses sim deveriam ter mais apoios e impostos mais reduzidos.

O que está na base desta posição defendida pelo PAN?

Estamos a falar de uma indústria cuja produção é absolutamente lesiva para o ambiente, só a indústria do leite contribui com 6% total nacional para os gases de efeito de estufa que se produz no nosso País, é uma indústria extremamente lesiva para os recursos hídricos de superfície ou de profundidade e que polui os nossos solos. Por outro lado há vários estudos que nos dizem que o leite não é um super-alimento, ou um bom alimento, mas sim um mau alimento e que o seu consumo tem muitas contra indicações.

E em relação à industria da carne?

A indústria da carne e as suiniculturas são dos maiores poluidores do nosso País. O consumo de carne, segundo vários estudos, está na origem de muitas doenças. Ainda agora a OMS (Organização Mundial de Saúde) baseada num conjunto de 800 estudos com mais de 20 anos de vários países, veio dizer que o consumo de carnes de processadas aumenta a probabilidade de desenvolvermos cancro. Tal como diz sobre o tabaco, fumar um cigarro não mata imediatamente mas se fumar constantemente aumenta a probabilidade de desenvolver um cancro, da língua, da laringe ou do pulmão, o mesmo se passa com a carne. É pouco ético o governo estar a apoiar estas indústrias porque, se por um lado estão apoiar indústrias que têm implicações como o esgotamento de ecossistemas e que são absolutamente danosas para a saúde humana, depois como vamos criar um plano de saúde de combate ao cancro? Estou a falar de cancro porque a OMS associa essa doença ao consumo de lacticínios, de carnes e de carnes processadas.

E a agricultura local?

Neste momento quando um agricultor quer desenvolver um projecto e vai pedir um determinado apoio tem muitas dificuldades se tiver menos do que quatro hectares. Uma das formas de evitar o despovoamento do território passa por dar reais condições a um casal ou a pessoas que querem estar nas suas terras e querem dedicar-se à agricultura. Há algum tempo atrás apresentámos essa proposta sobre a questão da produção local e do consumo local. Nós temos condições de clima e de terra absolutamente fantásticas para produzir alimentos e para sermos, não totalmente, mas em grande parte independentes em termos alimentares e somos absolutamente dependentes. Estamos a viver uma loucura, em média os alimentos no mundo viajam 5000 quilómetros desde o seu local de produção até ao seu local de consumo e hoje estamos a almoçar e, se calhar, a comer uma couve de Itália, batatas da Nova Zelândia, brócolos da Guatemala e morangos de Espanha, é uma insanidade.

É um problema local à escala mundial?

É o paradigma da orientação geopolítica do mundo. Estamos a importar alimentos que viajam milhares e milhares de quilómetros com este tipo de política globalizada e a contribuir para o aumento da produção de emissão de gases com efeito de estufa. Para além disso, como já não temos capacidade na Europa de produzir todos os alimentos, as grandes companhias europeias e norte-americanas começam a ocupar amplas áreas do território da América do Sul e em África. Acaba-se por escravizar uma imensidão de pessoas e as culturas indígenas, com a conivência dos governos locais. Na América do Sul, os índios e as suas populações têm cada vez menos espaço e vão sendo dizimados, sempre pela mesma razão, a produção de qualquer coisa e quase sempre para comer.

Os acordos estabelecidos na COP 21 (Conferência das Nações Unidas para o Clima) em Paris, vêm reduzir a pegada ecológica?

A COP21 e os governantes estão em negação. Não podemos falar em emissão de gases com efeito de estufa sem falarmos da pecuária intensiva que é o maior poluidor mundial a todos os níveis. Ninguém quer falar nisso. É a mesma coisa que falar em cancro do pulmão e não falarmos dos cigarros.

É claro que é necessário reduzir os transportes, porque poluem muito, tal como o setor energético e a indústria. Mas os transportes de todo o mundo juntos, barcos, camiões, carros e aviões, representam 13% das emissões dos gases com efeito de estufa… A pecuária intensiva é responsável por 51% da emissão dos gases com efeito de estufa, é responsável pela erosão e desertificação dos solos, pelo consumo de água, pela degradação dos recursos hídricos e pela desflorestação. Por exemplo, 90% da desflorestação da Amazónia deve-se à criação de espaços para criação de pasto para gado que depois vai para consumo humano. Os dados que estou a falar são da ONU e da FAO (Food and Agriculture Organization). A OMS também tem vido a falar nestas questões mas não têm sido consideradas.

PANML__0690Qual a sua opinião sobre as prospecções de Petróleo e Gás no território português?

O Sr. Primeiro-ministro disse na COP21, e defende no seu programa de governo, que temos de restringir ao máximo a dependência dos combustíveis fósseis mas ao mesmo tempo estamos a investir na prospeção e consequente exploração desses mesmos combustíveis fósseis, há aqui uma grande incoerência. O que nos dizem os grandes acidentes internacionais é que, quando ocorrem, felizmente acontecem poucas vezes, são catastróficos. Estamos a assistir a um jogo perigoso e a um mau negócio. As contrapartidas financeiras para o país são más, noutros países o Estado recebe 70% do valor do barril e neste caso estamos a falar de apenas 2, 3, 4 ou 5%. Para além de que um eventual acidente pode comprometer uma das alavancas económicas do País, o setor do turismo, que representa 10% do PIB português, só o Algarve representa 5% do PIB nacional (cerca de 7 mil milhões de euros). Temos ainda o sector das pescas e dos mariscadores. Não precisamos dessas explorações de hidrocarbonetos no nosso País e o PAN defende que se deveria renegociar e acabar com esses contratos, até porque a exploração de gás comporta outros problemas associados como a possibilidade de despoletar atividade sísmica.

Sente-se sozinho como único deputado do PAN na Assembleia da Republica?

Estamos motivados mas algo constrangidos relativamente às nossas possibilidades porque o PAN, só com um deputado, não tem a mesma dignidade dos outros partidos. Como são grupos parlamentares, porque têm dois ou mais deputados, têm determinados direitos e possibilidades, ao nível do tempo de intervenções, porque eu não posso intervir na maioria dos debates, ou no agendamento de iniciativas legislativas. Mas as medidas e os valores que o PAN está a trazer, aparentemente laterais ou secundários e às vezes vistas até como exóticas, estarão a curto e médio prazo, porque não há longo prazo, no centro do debate político mais que não seja por questões financeiras. Porque dar conta das questões ambientais, mitigar as alterações climáticas, vai custar tanto mas tanto dinheiro ao Orçamento de Estado que, mais que não seja por causa disso, elas vão estar na ordem do dia. E aquilo que os principais partidos políticos têm que ter em atenção é que somos uma minoria, de facto, mas cada vez mais há pessoas que estão atentas a esta necessidade imperiosa de tomarmos conta do planeta, do ecossistema que é a nossa casa comum.

Segundo o cálculo de estudos, se a temperatura aumentar em mais dois graus, as marés começam a ser alteradas e aumentam uma série de problemas graves nos ecossistemas. Considera que o planeta está em risco?

O planeta tal como o conhecemos está em risco. O planeta nunca está em risco na medida em que se dermos cabo disto tudo e se nós próprios desaparecermos da superfície da Terra, o planeta mantém-se. Quando nós dizemos vamos salvar o planeta, é bom que comecemos a pensar que nos vamo salvar é a nós próprios como espécie, porque aquilo que nós estamos a fazer neste momento é a estragar, a delapidar, a degradar a nossa casa comum que é o planeta. Se nós continuarmos com esta atividade antropógênica tal como estamos a fazer neste momento, no limite nós estamos a falar da nossa própria sobrevivência e continuando a agir da forma como estamos a agir, estamos a colocar em causa os nossos recursos mais básicos, nomeadamente a terra para cultivar alimentos, a água que precisamos para cultivar alimentos e para beber e o ar para respirar. Quando isso acabar nós desaparecemos.

Muito obrigado.

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