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Nº 54 – Economia vs Ecologia?

Sábado, 26 de Setembro de 2020

A Alemanha introduziu em 2003 um sistema de depósito para garrafas que se tem manifestado um grande sucesso na redução dos resíduos plásticos e no aumento das taxas de reciclagem. É comum ver-se, no supermercado, uma fila de pessoas frente à máquina de devolução de embalagens e garrafas com depósito. É neste local que os consumidores devolvem as suas garrafas de vidro, plástico ou grades de cerveja. Na altura, é impresso um recibo que lhes permite depois receber o valor do depósito. Atualmente, a cada garrafa de vidro é atribuído um depósito de oito cêntimos; às de plástico, de 25 cêntimos.
Embora este sistema tenha sido inicialmente mais aplicado pelos cidadãos desfavorecidos da sociedade, que viram no resgate das garrafas dos caixotes do lixo o seu garante de pão ou de um pequeno rendimento, este sistema provou ser bem-sucedido e muitos países estão a tentar reproduzi-lo.

A partir de 2020, em todo o mundo foram aproximadamente 40 os países a introduzir um sistema de depósito para garrafas. Neles incluem-se a Islândia, Equador, Holanda, Croácia e toda a Escandinávia. Nos Estados Unidos, foi introduzido em 10 estados: Califórnia, Connecticut, Hawai, Iowa, Maine, Massachusetts, Michigan, Nova Iorque, Oregon e Vermont (assim como no Guam). Encontra-se igualmente em funcionamento em grande parte do Canadá. Segundo um relatório da Changing Markets Foundation, há mais oito países que aprovaram legislação para introduzir sistemas de depósito num futuro próximo. A mesma pesquisa também relata que mais nove países estão atualmente a debater explorar a viabilidade de um sistema semelhante.

Por outro lado…

Por outro lado, a Changing Markets Foundation divulgou um novo relatório onde denuncia os piores infratores do mundo em matéria de resíduos plásticos, intitulado “A voz do lixo: manual corporativo de falsas soluções para a crise do plástico”. O relatório afirma que as empresas envolvidas estão ativamente a tomar medidas para bloquear e minar as soluções legislativas destinadas a enfrentar uma crise global sem precedentes de resíduos plásticos. Critica em particular os compromissos voluntários dos maiores produtores mundiais de plástico, que estão a ser instrumentalizados como tática para fazer descarrilar e atrasar soluções, enquanto governos e consumidores estão a ser distraídos com falsas promessas e falsas soluções.
Dos oito maiores produtores de plástico do planeta, cinco são americanos. O relatório centrou-se nas empresas que tomaram efetivamente a iniciativa de anunciar a quantidade de plástico que produzem. A Coca-Cola foi nomeada como a empresa com a maior pegada de plástico na Terra, com 2,9 milhões de toneladas de embalagens de plástico/ano, enquanto a sua maior concorrente, a Pepsico, está em segundo lugar, com 2,3 milhões de toneladas. A Nestlé, sediada na Suíça, está em terceiro lugar com 1,7 milhões de toneladas.
O relatório prossegue delineando a forma como a indústria nos Estados Unidos conseguiu transferir a responsabilidade pelos resíduos plásticos para os consumidores e as autoridades, enquanto taxas de reciclagem mais elevadas são citadas como desculpa para produzir ainda mais plástico. Na Europa, a indústria tem tentado enfraquecer e atrasar a Estratégia de Plásticos da UE e a Diretiva SUP da UE. O problema também passou para a Ásia, onde a China tem tomado iniciativas políticas que têm sido minadas pela fraca resposta empresarial. No Japão, o público permanece inconsciente do facto dos resíduos plásticos do país serem exportados ou incinerados. A América do Sul e o Uruguai, em particular, foram criticados pela atitude descarada do lobby da indústria, enquanto em África o Quénia está a ser sufocado por resíduos plásticos de empresas que procuram aumentar a sua presença no continente.

Não haverá soluções?

Neste contexto, é interessante ver que – em Portugal – 92% da água ainda está engarrafada em plástico. Porque não engarrafamos exclusivamente água, leite e sumos em vidro, que é naturalmente reutilizável, acompanhado com um sistema de depósito? Se queremos resolver o nosso problema de plástico, se queremos resolver os nossos problemas ambientais e climáticos, precisamos de recompensas, precisamos de incentivos. Vamos dar a cada consumidor uma recompensa por cada garrafa, cada lata, cada embalagem de iogurte etc. por cada matéria-prima reciclável que o consumidor traz de volta ao supermercado e se tributarmos a produção de plástico (PET, etc.) na fonte vamos ganhar duas vezes. Cada embalagem de plástico deve ser tributada directament na produção. Este seria um primeiro passo para se tornar parte da solução e não permanecer parte do problema.

Uwe Heitkamp (60)

trained TV journalist, book author and hobby botanist, father of two grown-up children, has lived in Monchique Portugal for 30 years, founder of ECO123.

Photos:dpa

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