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Pontos de vista de um palhaço

Uma ideia de Theobald Tiger baseada no romance com o mesmo título de Heinrich Böll

Nº 98 –

Pontos de vista de um palhaço

Uma ideia de Theobald Tiger baseada no romance com o mesmo título de Heinrich Böll

Sábado, dia 31 de julho de 2021

Se esta história fosse uma comédia apresentada no palco de um teatro, poderíamos rir à gargalhada ou suspirar, apreciar o entretenimento e aguardar pelo seu fim feliz. Poderia ser uma história de sucesso, se para além de solucionarmos os muitos problemas pequenos solucionássemos também os grandes. Não é verdade? Será essa a história que queremos ler?

Precisamos de uma certa orientação na vida, exclama o palhaço para a arena, dirigindo-se às quatro estações que o seguram. Consegue o leitor imaginar esse palhaço a subir a escada para mostrar ao público que sabe voar? Na primavera vai para o Algarve, no verão para Maiorca, no outono às Caraíbas e no inverno para Cabo Verde. Mas, de repente, cai ficando com o corrimão da escada na mão e o chão desaba sob seus pés. Cai … na areia. Todos riem, porque a situação que se está a passar é cómica. Será que somos capazes de rir sobre nós próprios? Rir sobre os outros? Partilhar o sofrimento. Chove, há relâmpagos e trovões. O tempo muda a cada minuto. Cai neve, granizo, chamas. A tenda do circo treme. Com os fogos florestais, todos nós deixámos de ter vontade de rir. De um momento para o outro, tudo se foi. A casa, a quinta e os animais. E o circo também não escapa. Se observarmos com atenção, reparamos em cada vez mais lugares no nosso belo planeta azul, em que a leveza do ser é afastada pelo drama da pobreza. Tudo isto tem uma justificação. Como encarar a vida agora? Como comédia? Como tragédia? Haverá um caminho melhor?

A história do palhaço no circo poderia continuar de várias formas para acabar bem. Mas também se poderia alterar a dramaturgia. A bela história em vez disso seria feia, uma tragédia. Alguns questionam-se, se isso é mesmo necessário? Acontece um incêndio que destrói todos os bens a um apicultor. Foi há duas semanas. Chuvas torrenciais transformam um ribeiro num mar de água que engole casas inteiras. As pessoas fogem para os telhados. Isto, não foi no circo. Foi na semana passada. Num barco de borracha, pessoas tentam vir de África para a Europa. Algumas morrem afogadas e algumas são salvas. É algo que acontece todas as semanas. Todas as semanas ficamos a ver os dramas de outros palcos. As pessoas que deixam as suas casas por causa da guerra, da seca ou da fome que ameaça as suas vidas. Algumas são salvas, outras não. Quais são as histórias que contamos e as imagens com que as ilustramos? O que estamos a fazer?

Agora, o palhaço que acabou de cair é visitado por outro bobo na arena. Larga cuidadosamente o corrimão, sacode o pó do casaco e recebe primeiros socorros. Ele sabe que, se quiser subir as escadas, terá que mudar de estratégia, mudar a sua forma de vida. Qual é que era o seu objetivo quando tentou subir a primeira vez? Pretendia voar e ver outros países? Voar leve como um pássaro? E depois…

Não tens casa? Pergunta o bobo ao palhaço. Porque é que queres voar e para onde queres ir? Não são esses os aviões que tornam o nosso planeta azul mais inóspito, de ano para ano? Há cada vez mais tempestades e fenómenos metrológicos caóticos, calor, tempestade, alterações stress e temperaturas extremas, não é verdade? A coisa está preta lá em cima! Já não nos conseguimos guiar pelas quatro estações, caro colega, diz ao outro com toda a calma. A vida, que durante muito tempo era um círculo, está a tornar-se uma linha. O que aconteceu ao círculo? Cada vez mais pessoas vivem em stress e em pânico. Ficaram doentes porque perderam a orientação. Será que nós os comediantes conseguimos mudar isso? Ou estaremos só a brincar às histórias como acontece aqui no circo? Todos poderiam participar. Até os próprios contadores de histórias. Todos nós sabemos, que é o clima que determina o tempo. Tanto o bom como o mau tempo. Seria uma lufada de ar fresco cá em baixo!

O bobo diz ao palhaço: o clima precisa de muitas histórias de sucesso. É a isso que se chama comprometimento. O palhaço responde: A meta dos 1,5 graus só é possível conseguir, se agirmos. É a isso que se chama seriedade. Queres mesmo continuar como até aqui? pergunta o bobo ao palhaço. Voar é pura liberdade, responde. Se deres um ritmo mais lento à tua vida, já não precisas de voar e assim proteges o clima: uma alimentação saudável, sexo melhor e estar alerta a cada passo? Descansar. Que tal um pouco de descanso? Descanso em vez de estar a fazer filhos.

O palhaço responde resignado Tive muitos anos, para me adaptar, mudar, desenvolver a minha personalidade. Mas falava muito e fazia pouco. Queria viajar, voar, e ir ver o mundo. Era assim que vivia a vida. O outro responde: A nossa arte irá desaparecer e levar tudo consigo pelo abismo se continuarmos a virar o disco e tocar o mesmo…

Não é só no Canadá que, há várias semanas, estão a arder as florestas. O comentador diz, que todos os incêndio, onde quer que seja no mundo, devem ser evitados. A meta deve ser fazer tudo para que de futuro já não haja incêndios. Todos podem ajudar. Vamos plantar novas árvores em vez de fica a vê-las arder.

Se a situação não fosse tão séria, se se tratasse só de uma palhaçada no circo, poderíamos rir à gargalhada ou suspirar, apreciar o entretenimento, e esta história teria realmente um fim feliz. Ou será melhor observar com mais atenção? Seria uma história de sucesso se para além dos muitos pequenos problemas conseguíssemos resolver os grandes. Será assim? Tudo depende de nós. Precisamos de uma certa orientação na vida, exclama o palhaço e sai. Cai o pano.

Heinrich Böll (21.12.1917 – 16.7.1985) foi um dos mais notáveis escritores do pós-guerra no século 20, tendo escrito romances, peças de teatro e contos. Em 1972, recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Também trabalhou como tradutor de literatura inglesa para o alemão em colaboração com sua mulher Annemarie Böll.

Theobald Tiger

jornalista com métodos de investigação, trabalha com pseudónimo e tem um nome impronunciável. O verdadeiro Theobald Tiger viveu de 9 de Janeiro de 1890 (Berlim) a 21 de Dezembro de 1935 (Gotemburgo) e trabalhou como jornalista, escritor e satirista. https://en.wikipedia.org/wiki/Theobald_Tiger

fotos:dpa

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