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Um grave acidente português

O meu amigo Thomas deu entrada no Hospital de Portimão com uma pneumonia – e teve alta com Covid. É típico do sistema de saúde em Portugal. Agora, o povo votou. Andei pelas imprensas britânica e alemã em busca do que tinham escrito sobre estas eleições para a Assembleia da República Portuguesa. A partir das 12 horas de domingo, organizei a minha própria revista de imprensa internacional e só encontrei o que procurava ao meio-dia de segunda-feira. No domingo, só encontrei análises eleitorais sobre as eleições presidenciais na Polónia e na Roménia. Que, em Portugal, tenha sido escolhido um novo Parlamento e um novo Governo – ah, sim! – mas há mais alguma coisa a passar-se no Sudoeste da Europa?

Acidente no Sudoeste da Europa? Na segunda-feira, um pouco antes das 13h00, o jornalista Patrick Illinger escreve o seu primeiro comentário no Süddeutsche Zeitung, o maior jornal diário da Alemanha, com o seguinte título: “Os eleitores de Portugal premeiam os corruptos, os pederastas e os ladrões”. Patrick Illinger foi redator-chefe do sueddeutsche.de… É doutorado em Física pelo Centro de Investigação do Cern, na Suíça, sobre o tema “Antimatéria”, e é, atualmente, o responsável do Süddeutsche Zeitung, pela Península Ibérica. É o primeiro e único jornal alemão que escreve um par de linhas, por volta do meio-dia de segunda-feira. Analisei a imprensa diária de língua inglesa e não encontrei absolutamente nada, nem mesmo no “Guardian”. Ainda assim, escrevem um artigo interessante sobre a produção inglesa de queijo, e a jornalista Lisa O’Carroll diz que o novo „EU-Deal“ que a Grã-Bretanha e a Europa acabam de celebrar, já viria com um atraso de quatro anos… E, acerca das eleições para o Parlamento em Portugal, foi tão só isto.

Atualmente, a coligação centro-direita, a aliança entre o PSD e o CDS, a chamada AD, mesmo assim, só conseguiu uns escassos 33 por cento dos votos. Com isto, não consegue governar com estabilidade. Caso queira manter-se no poder por mais de um ano, precisa de um parceiro de coligação. O PS e os fascistas obtiveram 23%, cada um. Os socialistas registaram uma enorme perda, os fascistas uma enorme vantagem. Para onde é que foram os comunistas, para onde foi a esquerda? Foram atropelados no acidente. Os liberais conseguiram uma escassa percentagem sem expressão que mereça destaque.

O povo está a tomar-lhe o gosto lentamente e volta a escolher o seu próprio carniceiro. Quem é o André Ventura, do partido fascista CHEGA? Um antigo jornalista que desejaria tornar-se Primeiro-Ministro. E pode, efetivamente, consegui-lo, em breve. Só precisa de ter um pouco mais de paciência. Até porque os partidos institucionais, tanto os socialistas como os conservadores, em breve, terão que entregar o país altamente endividado, onde a corrupção é galopante. Será que 48 anos de doença, duas gerações de fascismo, não chegaram para curar um povo do fascismo? Ou, dito de outra forma: será que 50 anos de democracia, de 1974 a 2024, não conseguiram estabilizar um povo maltratado, com os salários mais baixos da Europa? Na verdade, a burocracia hidrocefálica da Segurança Social gerenciou bem os seus próprios bolsos, contudo, em pouco tempo, ficou à beira da falência. E agora? O que fazer?

Quem quer que governe o país no futuro, terá de resolver dois graves problemas: o sistema de saúde e a questão da educação escolar. Em primeiro lugar, ambas as áreas necessitam, nomeadamente, de mais médicos e enfermeiros competentes, bem como de mais professores e professoras – mais pessoal qualificado. Pedem-se investimentos. Não precisamos de mais caças F35 na Força Aérea que Portugal não está em condições de financiar. Precisamos de um sistema hospitalar em que os tempos de espera sejam encurtados radicalmente, em que deixemos de prejudicar radicalmente a saúde das pessoas, e que o nosso modelo seja um sistema de saúde humano. Este tem de ser o objetivo de cada novo governo. Uma reforma hospitalar. Igualmente precisamos de menos greves nas escolas, mais professores e menos pessoas insatisfeitas, com falta de vontade de ir trabalhar, uma reforma escolar.

O novo governo deveria colocar-se a seguinte questão: como motivar os meus professores a longo prazo, e, consequentemente, as crianças e os jovens que precisam de receber uma melhor educação? E daí, a questão: o que é que se ensina realmente na escola? Disciplinas como o português, a história, a filosofia, etc., devem ser analisadas. Penso que os professores deveriam deixar de ser um mau exemplo e não fazerem greves de 15 em 15 dias. Deviam ser contratados como funcionários públicos efetivos, receber salários bons e transparentes e, em contrapartida, deixar de ter o direito à greve.

Precisamos de reformar o nosso Estado em muitos aspetos. A começar pelo sistema de saúde e pelo sistema educativo. Para isso, precisamos de governos estáveis, que estejam em funções há mais de quatro anos e que não se deparem a cada dois meses com os mesmos conflitos que não foram resolvidos no passado. O espectro de André Ventura está apenas à espera que também o próximo governo volte a falhar. Só tem de esperar e repetir chavões. Há ainda tantos outros problemas suficientemente difíceis de resolver: os incêndios florestais e as alterações climáticas são apenas alguns deles. O próximo governo tem a tarefa de minimizar, na medida do possível, as consequências do acidente eleitoral. Não confio num hospital estatal onde queria que me tratassem uma pneumonia e saio de lá com coronavírus. Mas também não quero ter de pagar 1.000 euros num hospital privado por um dia de internamento, o que muito poucos cidadãos terão condições de fazer. Quero viver num Estado democraticamente legitimado e não numa ‘república das bananas’ como Portugal. Neste sentido, espero que a AD e o PS formem um governo estável, democraticamente legitimado e livre de qualquer corrupção. Quero que se possam orgulhar da vossa democracia, da minha, da nossa…

Uwe Heitkamp (65)

jornalista de televisão formado, autor de livros e botânico por hobby, pai de dois filhos adultos, conhece Portugal há 30 anos, fundador da ECO123.
Traduções: Dina Adão, John Elliot
Fotos: Picture Alliance

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