Quinta-feira, Abril 2, 2020
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O compromisso?

Testemunhos e especialistas da catástrofe que assolou Monchique há um ano foram ouvidos na audição pública de dia 3 de agosto em Monchique. Reanalisar as falhas de 2018 foi um dos objetivos dos presentes, entre eles Rui Lopes, comandante dos Bombeiros, casado e pai de dois filhos. “Compromisso” foi a palavra-chave do seu discurso.

Explique-nos, por favor, o sentido da palavra “compromisso”.
Pode ter vários sentidos: acordo, obrigação ou dívida. Quando falamos de incêndios florestais tem que haver um acordo, um compromisso da parte de todos os intervenientes na defesa da floresta contra incêndios. Falamos da prevenção e, posteriormente, das políticas de combate, quando a prevenção falhar.

O que podemos constatar se compararmos essa palavra com a realidade do ano passado?
Ainda há muito por fazer em termos de legislação. Esta deveria regulamentar o que são as matas, as próprias propriedades, não só do Estado, mas também do indivíduo comum. E que, claramente, fosse impeditiva de que houvessem propriedades ao abandono. Nos casos de falta de limpeza deveriam ser aplicadas coimas fortes e até, em caso extremo, a expropriação. Mas também aqui é preciso que o Estado seja um exemplo. E aquilo que vemos muitas vezes é que os terrenos do Estado não estão organizados nem devidamente limpos.

Falamos das monoculturas. Em Monchique temos grandes monoculturas.
Temos. Aí terá que haver um cuidado redobrado com a legislação. A sua abrangência deverá ser não só punitiva, para quem incumpre, mas também preventiva, ciente do que são as dificuldades na gestão daquilo que é património de cada um. É preciso um olhar em termos de organização. Fazem falta estudos que não se limitem a referenciar o tipo de árvores ou plantas mais indicadas, mas que refiram em que locais e de que forma devem ser plantadas.
Se chegarmos à conclusão de que um determinado terreno só pode ter uma determinada espécie florestal, e quando essa espécie represente, para o proprietário, um corte de parte do seu rendimento, então é justo que este seja ressarcido dessa parte, com a condição de o manter limpo.

Se usamos esta palavra “compromisso” e a transportarmos para 2018, como vamos interpretar as contradições?
O incêndio do ano passado tem características muito próprias. Acontece numa altura em que o país estava sob condições climatéricas devastadoras. Não me lembro, nos meus mais de 30 anos de bombeiro, de uma altura do ano – e aquilo foi cíclico, foi numa semana, mais ou menos – de estarmos em estado de alerta vermelho.
Tivémos temperaturas e sensação térmica muito elevadas, baixo nível de humidade relativa do ar, um vento também com alguma intensidade. Não é uma desculpa. O combate aos incêndios florestais, o sucesso ou o insucesso, nunca pode ser metido com as condições climatéricas. Não pode servir de desculpa. É, sim, uma condicionante. Não podemos escamotear essa situação, mas temos de estar devidamente preparados e enfrentar o problema da melhor forma possível.

O que correu mal para o fogo sair completamente fora do controlo?
Mais importante do que tentar perceber o que correu mal – porque essa análise, neste momento, está a ser feita, e ainda existe um inquérito da Administração Interna a decorrer -, é necessário que se olhe para aquela ocorrência e que se tomem medidas para que não volte a acontecer. Existiram, como já disse, várias condicionantes. Numa fase inicial o incêndio esteve dominado, durante a manhã, não existia chama ativa em todo o perímetro do incêndio. Existiam, sim, dois pontos quentes que estavam a ser sujeitos às operações de consolidação, mas depois, durante a tarde, tivemos um fenómeno…

Sábado, dia 4 de agosto…?
Sim, por volta das 15h, mais ou menos, tivemos um fenómeno climatérico no Algarve, que assolou as zonas de Albufeira, Silves e Lagoa. Registou-se um vento muito forte, inclusive alguma chuva e granizo que, segundo os metereologistas, também afetou negativamente a zona do incêndio, originando tornados de vento que permitiram a reativação do incêndio. Uma reativação daquelas tem muitas condicionantes… o combustível envolvente à área do incêndio já estava previamente aquecido e tinha sido sujeito às temperaturas geradas pelo incêndio do dia anterior.
Os operacionais envolvidos estavam cansados. No dia a seguir, no domingo, o incêndio esteve novamente praticamente dominado. Existiam apenas, mais uma vez, duas situações… depois, infelizmente, o incêndio entrou numa zona com uma linha de água bastante acentuada, que vem desde a costa até à Portela do Vento, (Ribeira do Seixe), uma zona onde os ventos são permanentes. Foi difícil, quase impossível de parar e as populações tiveram de ser evacuadas, as habitações protegidas…

Não haviam aviões disponíveis?
A grande dificuldade de operar ocorreu na segunda-feira. Devido à intensidade do fumo e à baixa de humidade fez-se aquilo a que chamamos um “tac”. Os aviões poderiam descolar, mas depois não tinham condições para voltar ao centro de Beja.

A origem deste incêndio está finalmente esclarecida?
Oficialmente, ainda não existem…

…existem relatórios.
Tudo aponta para que tenha sido originado por um cabo elétrico, mas, até agora, oficialmente, o relatório da Administração Interna ainda não saiu.

Um ano depois nem a GNR nem a PJ publicaram o relatório criminal.
Sim.

O relatório técnico já existe?
O relatório técnico, da Comissão Independente, já existe.

Como é que podem atuar melhor se tudo tornar a acontecer?
A manterem-se as condições atuais pode vir a acontecer. Se não forem tomadas medidas de incentivo para que a população volte novamente a ocupar as terras, regresse ao interior, o abandono das mesmas continuará.
As restantes pessoas investem – muitos terrenos estavam limpos -, mas dadas as características e a dinâmica do incêndio, também esses foram afetados. Isso cria um sentimento de desmotivação.

Existem medidas para melhorar a defesa deste desastre?
A Proteção Civil atua no último dos patamares da defesa da floresta contra incêndios. O nosso trabalho será, de várias maneiras, facilitado, se houver, previamente, uma boa prevenção e uma boa vigilância. No entanto, temos que nos preocupar com aquilo que é a nossa missão e não com o que compete às outras entidades. Tentamos manter uma estrutura operacional com uma dimensão significativa. Neste momento temos 58 elementos. Nas inscrições para recrutamento só temos 20 inscritos, são voluntários, mas terão de passar por uma formação de um ano para que, depois, possam integrar o quadro do Corpo de Bombeiros.
A nível da estrutura operacional, mas profissional, também temos mais uma equipa (de intervenção permanente), que entrou em funcionamento a 1 de fevereiro deste ano.

Quantas viaturas e equipas dispõem neste momento?
Temos quatro viaturas de combate a incêndios e três equipas. Cinco elementos em cada viatura. Uma está estacionada em Marmelete, 24h por dia, e temos mais duas estacionadas em Monchique.

Se tem quatro viaturas, falta uma equipa.
Essa equipa, esse veículo sai com o acionamento do segundo alarme. Se o fizermos saem mais pessoas com esse veículo. Constitui também um veículo de reserva àquilo que são as equipas consideradas profissionais, que estão em permanência à saída. Se houver uma avaria num desses três veículos, teremos o quarto. Para além disso, temos também quatro veículos-tanque.

Bastam quatro veículos em Monchique para defender um terreno de quase quatrocentos quilómetros quadrados?
Não trabalhamos sozinhos. De momento não temos capacidade para mais. A capacidade de recrutamento é muito baixa porque o concelho, em si, não tem muitos jovens. O despovoamento também nos afeta.

Receberam, por exemplo, bombeiros de Oeiras e Lamego, de qualquer sítio do país, que não tinham a mínima ideia do que apagar em Monchique.
Essa é uma falsa questão. Levanta-se muito a questão das unidades que vêm de fora desconhecerem o terreno. Para isso, adotámos algumas medidas em termos operacionais. O que é regra no combate a incêndios florestais é um trabalho desagrupado, isolado. Com o endossamento de um guia, conhecedor do terreno, a grupos organizados facilitaremos a compreensão do que são as características do terreno. Em termos de preparação todo o bombeiro, voluntário ou permanente, recebe obrigatoriamente a mesma formação no combate a incêndios, em técnicas de socorrismo, salvamento e desencarceramento.

Mas tivemos em Monchique bombeiros que não sabiam onde é que estavam.
Por vezes existem equipas que têm menor experiência porque, geograficamente, pertencem a cidades, e não a locais de interior. Nós, que somos bombeiros “do campo”, se formos combater um incêndio na cidade, certamente que temos o know-how, mas não temos a experiência do terreno. Mas isso minimiza-se com empenho, e treina-se, sim. O ano passado surgiram afirmações de que equipas estiveram sem missão atribuída…

…com viaturas estacionadas e sem ordens para agir, com casas muito perto a arder…
Por vezes essas informações chegam à sede do posto de comando. É depois necessário percebermos de que forma tudo ocorreu. As equipas estão, umas vezes em descanso, outras paradas, a aguardar a missão. O comandante do grupo, que chefia também os meios, terá informação que os próprios bombeiros não têm. Por vezes é mais fácil dizer: “não temos ordens para…”.
Apareceram também na comunicação social, nomeadamente numa estação de televisão, supostas afirmações de parte de um comandante de grupo, de que estariam há várias horas no combate ao incêndio e que não lhes era atribuída missão. Mas essa pessoa, perante as câmaras, não deu a cara. Isso é um ato de cobardia. Se eu estiver num teatro de operações, terminar a minha missão e não tiver missão atribuída, eu próprio dirijo-me ao posto de comando, fisicamente ou via rádio, e solicito que me seja atribuída missão. Não fico ali quatro ou cinco horas e depois quando alguém me pergunta, respondo: “Eu estou aqui porque não me deram missão”. Naquele caso esteve ali porque não lhe interessava ter missão.

No relatório técnico da Assembleia da República referiu-se, na página 54, que não existiram briefings do comando da Proteção Civil entre domingo, dia 5 de agosto, pelas 9h30, e terça-feira, dia 7, pelas 10h30.
Os briefings foram feitos diariamente. Não é possível. Existiram briefings e estão documentados. O briefing é uma reunião entre as diversas entidades que estão no teatro de operações, ou por representantes, estão presentes os comandantes de setor, oficiais de operações, oficiais de treinamento, de logística…

Da sexta a domingo, Vítor Vaz Pinto foi a pessoa responsável do Comando Distrital, certo?
Sim, sim.

Mas saiu no domingo.
Sim, foi substituído.

Mas a segunda comandante nacional, Patrícia Gaspar, só chegou a Monchique na terça. São dois dias sem comando.
Não, houve sempre capacidade de comando e controle. É uma falsa questão. Não sei dizer se a Comandante Patrícia chegou na terça-feira. Mas o que posso dizer é que o incêndio chega no domingo a Monchique, e quando chega o comandante Vaz Pinto ainda exercia funções. Estava presente.

Entre as 5 e as 7 horas da tarde.
Sim, posso garantir-lhe. O incêndio chega à vila entre as 10 e a meia-noite, mais ou menos.

Era ele o responsável?
Era o comandante das operações, efetivamente. Houve sempre capacidade de comando e de controlo. É preciso, contudo, perceber a dinâmica deste incêndio. Quando passa na Altura das Corchas, no domingo à tarde, abre em duas frentes enormes e com uma dinâmica que não permitia o combate direto.

O fogo não podia atravessar a EN 266.
Exatamente, não havia capacidade. Ele não pode chegar ali. Tínhamos preconizado que o incêndio não chegasse ali, que ficasse na zona do Poio do Açor.

A estrada 266 ofereceu uma chance para travar o fogo.
Exatamente. Vem de uma linha de água, e quando chega ali, abre, um veio na direção da Cantina, e outro direção a Monchique-Bemposta – Cabeço de Ferro. Aqui, a frente não permitiu a passagem dos meios de combate (jipes da GNR e um grupo de Lisboa), por volta das 18h, para o Alferce. Um grupo fica a trabalho na zona da Umbria, o outro na zona da Bemposta, e não consegue passar para o Alferce; que é atingido pela segunda frente de fogo: a da Cantina.

Lemos este relatório com muita atenção. Por que motivo os bombeiros e o comando da Proteção Civil, se não conseguiam parar o incêndio na EN 266, porque não o conseguiram fazer mais tarde na EN 267? Existia outra linha, entre Corte Pequeno e Corte Grande. Existia outra estrada, entre Caldas, Esgravatadouro e Fornalha. Porque não pararam o incêndio se tiveram 1.500 bombeiros disponíveis?
Temos que perceber a dinâmica do incêndio. Esta é facilmente perceptível vista do ar. Se analisarmos este incêndio vamos ver que começa a Norte de Monchique… no segundo dia, não no primeiro. No primeiro dia, o incêndio fica dominado na manhã de sábado, com trezentos e setenta hectares…

Na Perna da Negra.
Sim. No domingo, quando a população é evacuada, existem uns setecentos, oitocentos hectares ardidos. Mas depois suplanta tudo, alonga-se em duas frentes muito grandes. E deixa de ser possível colocar meios à sua frente. Os meios de reforço demoram tempo a chegar, e quando chegam, a preocupação é a salvaguarda das habitações. A prioridade no combate a incêndios é a salvaguarda das pessoas, dos bens, e depois a salvaguarda do ambiente. Ali, a salvaguarda das pessoas foi possível com a evacuação.

E, em muitos casos, contra a vontade das pessoas.
Em muitos sítios, contra a vontade das pessoas. É sempre discutível se foi feita da melhor forma. Aliás, é um processo de lição aprendida que requer alguns melhoramentos porque, efetivamente, não foi feita da melhor forma. Mas tinha que ser feita. Existiam sítios onde era possível deixar as pessoas, quando saudáveis, jovens, com capacidade de trabalho, até porque a população de Monchique está habituada a viver com o fogo, ao trabalho no campo, a saber como se defende. Existe muito trabalho feito em termos do projeto “Aldeias seguras, pessoas seguras”, na defesa das casas contra incêndios…

Poderão voltar a esta palavra, “compromisso”, e dizer: podemos ensinar pessoas.
Sim.

Ensinar pessoas que defendem a sua terra, o seu terreno, a sua casa.
Mas isso só é possível se o trabalho da prevenção estiver bem feito. Se, junto às habitações, o terreno estiver limpo. A vida não tem preço.

Seria uma ideia organizar um seminário, um workshop, com a população das aldeias e do campo?
Medidas de autoproteção. Podemos.

Quantas pessoas, tempo…?
Trinta, quarenta. Um ou dois fins-de-semana seria o suficiente.

Durante este inverno? Compromisso combinado?
Sim. Vamos a isso!

Voltámos uma última vez à palavra “compromisso”. Isso também significa que a Câmara Municipal e a Proteção Civil devem manter os seus compromissos…
Obviamente. Essa é sempre uma das “obrigações” da Câmara Municipal, mas para isso…

Faltaram o ano passado, e também este ano, cuidados na vegetação, limpeza, estradas, faixas…
Temos que olhar para a situação de forma a entender o porquê e não ser injustos ao ponto de dizer que entidade A ou B não cumpriu. Porque é que não cumpriu? Efetivamente existem situações em falta…

O Presidente da Câmara, na última Assembleia Municipal extraordinária, referiu que não há verba. Não há dinheiro para limpar as faixas das estradas do concelho.
Se não tem, como o poderá fazer?

Obrigado.

Uwe Heitkamp

traduções: Fernando Medronho & Penny e Tim Coombs | fotografias: Uwe Heitkamp

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