Terça-feira, Agosto 22, 2017
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A floresta está cheia de energia.

Palavras podem ser interpretadas de diferentes maneiras e “feitios”. Números não. São números e ponto final. Dados estatísticos de 2012, conferem que Portugal importa, cerca de 80% da energia que consome. Esta é proveniente na grande maioria de combustíveis fósseis tais como: petróleo, carvão e gás natural. Contra estes factos deviam de existir mais argumentos, de forma, a que esta realidade pudesse vir a ser uma mais amiga do ambiente.biomassa

Rapidamente se descobre que existem Países Europeus que deram grandes passos ecológicos, nomeadamente a Alemanha que já produz cerca de 8% da sua energia através da Biomassa. Porque não fazer o mesmo em Portugal? E a nível regional, nomeadamente no Algarve, um local tão problemático no que respeita aos incêndios… e o que tem sido feito para evitar tamanho flagelo? É aqui, justamente que começa a nossa estória: Gestão Florestal Controlada e as riquezas da Biomassa. Mas afinal o que é isto a que chamamos de Biomassa? (ler entrevista na página xy).

Não muito longe de Monchique, mais concretamente a 82,9Km de distância e em Loulé, fomos ao encontro da equipa do Centro de Investigação em Ciências do Ambiente e Empresariais, adiante designada por CICAE. Este centro do INUAF juntamente com a ALGAR Valorização e Tratamento de Resíduos Sólidos, e o ICNF Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, foram parceiros da PROFORBIOMED. Falamos de um projecto MED estratégico (Co-financiado pela União Europeia) ligado à promoção de energias renováveis através do uso da biomassa florestal, nos suscitou interesse em aprofundar. Foi no Instituto Superior D. Afonso III (INUAF) que conversamos acerca deste projecto que decorreu ao longo de quatro anos (2010 – 2014) e dos estudos que foram concretizados. Foram disponibilizados para 6 países: França, Grécia, Itália, Eslovénia, Espanha e Portugal através de 18 parceiros locais: 5,5 Milhões de Euros. A nível do Algarve, a parte correspondente deste investimento foi de aproximadamente 300.000€ para cada uma das 3 entidades regionais (CICAE (INUAF), ALGAR, ICNF) , sendo que esta terceira não utilizou o valor disponível. O projecto foi financiado a 75% pelo programa MED.

produção de biomassaNo local inteiramo-nos que a gestão da biomassa florestal tem de ser previamente bem estudada. Ou seja, existem passos importantes a serem dados que designarão o sucesso de qualquer que seja o projecto desenvolvido nesta área. Um dos quais assenta, após avaliação do potencial da biomassa Florestal, na análise logística. Questões como o cálculo do tempo/viagem, assim como, os custos de transporte, são fulcrais para uma eficaz estruturação. É-nos identificado o local/estação ideal para a implementação de um parque de recolha, estacionamento e distribuição: Monchique. Tal já existirá na zona do Porto de Lagos. Instalação da Algar, que por sua vez já tem a sua rede logística delineada. Neste momento está a ser criada uma Associação com outros intervenientes que já accionaram acordos com todas as autarquias algarvias, no sentido de colaborarem na implementação de uma rede de contactos, compra e de venda da biomassa a ser produzida na região.

No desenvolver da conversa analisamos os diversos estudos que foram realizados pela equipa, nomeadmente os estudos de viabiliade económica do uso da biomassa florestal residual, bem como o guia de apoio ao investimento entre outras publicações dedicadas à análise das diferentes espécies-alvo existentes pelo Algarve fora. Aqui explicam-nos que florestas não são para destruir, mas sim retirar alguns recursos florestais, que para bem da sociedade não prejudicarão o ambiente. Muito pelo contrário.

Segundo o inventário florestal Nacional (2010) e a carta de ocupação de solos do Algarve (1995), o eucalipto e o sobreiro eram as espécies que mais área ocupavam. Em terceiro encontramos o pinheiro manso, o medronheiro e por fim o pinheiro bravo. Menos representativas seriam as alfarrobeiras e as azinheiras. Olhemos para uma das realidades florestais em Monchique. Actualmente assiste-se ao crescimento invasor da espécie da Acácia. De acordo com o 6º Inventário Florestal Nacional, citads pelo ICNF (2013) esta espécie ocupa uma área de 100 ha no Algarve. Olhando de um ponto de vista ligado à biomassa, esta espécie poderia ser controlada através do desbaste e do corte propriamente dito. Desse modo limitar-se-ia a sua propagação desenfreada.

BiomassaEstudos feitos em duas amostras de biomassa proveniente da Acácia, pela Associação de Produtores Florestais da Serra do Caldeirão, nessa mesma serra, estimaram produtividades totais para a região entre os 7.675 e 13.292 toneladas por ano. É curioso como os estudos desta espécie indicam presença de Esteróis e açucares. Nos ramos das “mimosas” existe uma grande quantidade de ácido palmítico que é usado nos cremes e cosméticos. O inositol também foi lá descoberto e é um açucar, dizem que importante para transtornos mentais. Quem diria que naquela árvore que na primavera nos encanta com a sua floração amarela fossem encontrados alcoóis que são usados na medicina e farmacêutica para prevenir doenças como o Parkinson. Ciências e medicinas à parte, voltemo-nos novamente para as questões energéticas. A biomassa da “Acácia Sp” apresenta ainda um grande potencial de utilização como fonte de energia renovável. Foram observados valores médios de 3500 a 4650 Kcal/Kg e o seu processamento em pellets facilita em grande escala o seu armazenamento e transporte. Mas o que são afinal pellets?São resultantes da biomassa residual. Ou seja, da matéria que é resultante de troncos e casca, ramos e folhas. Estes “restos” são secos, moídos e acondicionados. Como resultado final obtêm-se granulados cilindricos com 6/8mm de diâmetro e 10/40mm de comprimento. Refira-se que a sua qualidade é determinada através da humidade, cinzas, densidadea granel, durabilidade mecânica e pela quantidade de finos. Segundo o estudo feito ao abrigo do projecto da Proforbiomed e tendo em consideração perdas de matéria-prima na ordem dos 30%, concluiu-se que com base na observação dos preços de mercado ao consumidor o valor de cada saca de 15kg de pellets custa cerca de €4, ou seja cerca de €0,266/Kg.

As unidades de biomassa surgem assim como uma das forças motrizes para o desenvolvimento das zonas rurais. Conciliar problemáticas como o despovamento do interior, bem como minimizar os riscos de incêndio e, com isto, ainda tornar freguesias independentes através da geração de receitas e tudo de uma forma sustentada e ecológica, poder-se-á concluir que num futuro próximo o panorama actual poderá sofrer uma grande viragem.

Importa referir que neste momento já existe uma autarquia algarvia que efectuou uma conversão do sistema de aquecimento das piscinas municipais. Falamos de S. Brás de Alportel. Ao investir um valor de € 91.000 já efectuou um retorno do investimento em menos de 20 meses. Ou seja, actualmente gasta € 58.000/ano o equivalente a 60% de redução de custos. Se antigamente tinha cerca de € 93.000 em despesas com Gasóleo actualmente passou a ter € 35.000 através do uso de pellets. O sistema de aquecimento das águas era composto por duas caldeiras com queima de gasóleo de 280kW, complementado por um sistema solar térmico com 126 coletores solares, os quais ainda permanecem. Excelente exemplo de um “pisada” ecológico e que poderá ser repetido pelas restantes autarquias algarvias. O preço baixo desta matéria-prima e a eficiência das caldeiras contribuem para que esta seja a forma mais rentável para o aquecimento das piscinas municipais, e quem sabe de outras entidades públicas tais como hospitais, centros de saúde, lares de terceira idade, entre muitos outros.

Tendo em consideração de que o uso de pellets representa uma poupança na ordem dos 50% com os custos de aquecimento, quando em comparação com o gás natural demonstra claramente a sua eficácia.

Analisemos de seguida, o que é preciso para instalar uma fábrica de pellets, que permitem obter reduções de CO2 superiores a 95% em comparação com os combustíveis fosséis, por exemplo:

  1. Identificar o local da matéria-prima e o local de escoamento do produto final. A escolha do terreno é muito importante, por isso há que procurar um plano e com alguma dimensão. Os acessos deverão ser fáceis e há que ter proximo energia Eléctrica.
  2. O dimensionamento deverá ser feito consoante a existência de matéria-prima assim como do valor do investimento disponível.
  3. A unidade de processamento deverá ser constituída por depósitos; buffers; secadores; zonas de controlo e uma sala de comando com software.
  4. Equipa técnica composta por Engº Florestal; Engº Electromecânico e Engº Electrotécnico.
  5. A certificação podera ser obtida em: www.anpeb.pt

Para bem do ambiente há ainda que ter em atenção o nível do ruído e das emissões. Outro pormenor que não poderá faltar é o cálculo dos custos de secagem, pois este factor varia consoante a estação do ano. Por último a escolha da maquinaria deverá ser local, se possivel, uma vez que a assistência técnica e alguma calibragem que tenha que ser feita, não deverá ficar muito distante do local de implantação.

biomassa pelletsTecnicamente falando, para se instalar uma fábrica de aproximadamente 50.000ton/Ano terá que contar com uma equipa de três a quatro pessoas por turno e necessitará de uma instalação com cerca de 2000kW numa área de aprox. 25.000m2. O prazo normal para a elaboração e construção de uma unidade com estas dimensões levará em média cerca de 18 meses até à laboração. Resumindo, uma unidade que processe 50.000ton/ano terá uma produção de cerca de 25.000ton em Pellets. Isto porque, a madeira em tronco quando entre na unidade detém cerca de 45% em humidade, a qual terá de ser baixada para 10% através do processo de secagem. Os ditos “restos” são então sujeitos a uma biomassa de queima que após trituração dão entrada na fornalha para obtenção de ar quente para o secador.

Mas as unidades de biomassa não produzem única e exclusivamente pellets para energia calorífica. Há unidades de cogeração que são sistemas que combinam calor e electricidade e onde se consegue produzir de uma forma independente energia electrica, ao contrário das eólicas e solares que são limitadas por questões naturais e climáticas. Nestas centrais, o vapor obtido fará girar a turbina para obtenção da energia electrica. Contudo existem ainda outras utilizações da biomassa florestal e que se prendem com obtenção de lenha, extração de compostos de valor acrescentado como óleos e essencias que são utilizados em indústrias como a cosmética, famaceutica e alimentar.

Quais os custos/investimento de uma unidade de biomassa para fabrico de pellets?

De acordo com o último projecto cofinanciado pelo QREN para a instalação de uma unidade de pellets no concelho da Póvoa do Varzim, com a dimensão de 100.000ton/ano, o investimento elegível foi de €10.088.525 dos quais €5.553.489 foram incentivo. Claro está que existem projectos com valores mais reduzidos: até a uma installação de pequena dimenção para forneçer electriciade e calor energético para uma casa particular e autosuficiente. Tudo depende da quantidade de matéria-prima existente e do valor disponivel para investir. Números são números. Ponto final.

About the author

Alexandra Monteiro (40). Alexandra significa “protetora do homem” ou “defensora da humanidade”. Ama a transparência. De temperamento criador, é no trabalho jornalístico que encontra o seu equilíbrio e razão de existir. Licenciada em Comunicação Social e Cultural, é casada e mãe de dois fantásticos filhos.

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