Quinta-feira, Julho 19, 2018
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Enraizar na “Soloção”

O solo, de acordo com o dicionário Priberam, é definido como: “i) porção de superfície terrestre (chão, terra); ii) revestimento sobre o qual se anda (chão, pavimento); iii) parte superficial da terra que se pode cultivar ou onde podem crescer plantas; iv) terreno.” Tendo formação em biologia, considero que o solo é o tecido conjuntivo desta pele planetária. Desta forma, a definição de solo morto encontrada no Priberam deveria dar lugar a uma outra que expressa um solo vivo, ecossistema fundamental à vida e do qual provimos, nos alimentamos e ao qual voltamos. O solo pode ser um dos bens mais preciosos que deixamos às nossas gerações futuras e é dos ecossistemas naturais que mais demoram a criar e desenvolver.

De uma forma genérica, o solo é criado pela meteorização e erosão das rochas, processo promovido inicialmente pelas chuvas, as alterações de temperatura e o vento. Os líquenes e as primeiras plantas transportadas pelo ar exercem também uma ação química e física que vai deteriorando a rocha ao mesmo tempo que modificam a composição deste solo que vai sendo criado, aumentando a sua percentagem em matéria orgânica. Este húmus é um oásis para microorganismos (como bactérias), fungos e uma variedade de animais que se alimenta e degrada este material, tornando disponíveis os nutrientes necessários a um ecossistema cada vez mais complexo. À medida que o solo cresce e se torna mais maduro, não só fica mais “alto” (profundo) como a sua composição e biomassa atinge valores muito elevados. Uma das leis herméticas, a lei da correspondência, diz que “tal acima como abaixo” mostrando que a harmonia dos opostos e complementares é uma regra da Natureza. Desta forma, a biomassa e diversidade de organismos abaixo do solo e a biomassa que vemos a crescer por cima deste solo é proporcional. Num deserto a vida no subsolo é diminuta enquanto numa floresta tropical é uma densa “festa vibrante e interespecífica”.

Desde o início da humanidade que os solos têm sido considerados de extrema importância e que os usos antropogénicos do solo afetam a sua produtividade (1). Hoje em dia temos maior noção de que as nossas práticas agrícolas convencionais têm degradado o solo e são perdidas anualmente por erosão cerca de 24 mil milhões de toneladas devido a más práticas de gestão (2). Felizmente as recentes (ou não tanto) filosofias, culturas e práticas agrícolas como a agricultura sintrópica, a permacultura, entre outras, têm desenhado e testado modelos de regeneração dos solos. Ao mesmo tempo têm promovido uma cultura de maior conexão com a Natureza, da qual também fazemos parte integrante, e que estamos a descobrir, como um jovem que volta a casa depois das suas aventuras pela independência.

O solo tem um papel fundamental nos ciclos de água, carbono e nutrientes, assim como é um elemento fundamental para conseguirmos responder às alterações climáticas e um forte aliado na concretização de diversos objetivos do desenvolvimento sustentável (2). Não só o solo contem cerca de 80% de todo o carbono “terrestre”, como este valor representa mais de três vezes o que existe na atmosfera (3). Por outro lado, um solo maduro é uma autêntica esponja de água e um filtro que vai carregando os aquíferos que têm uma dinâmica musical ouvida na última edição desta revista. Talvez os solos tenham também o seu ritmo e melodia precisando apenas de uns pés descalços para que nos possamos enraizar neste planeta vivo.

Talvez a raiz do desafio humanitário deste século esteja na Soloção… mesmo debaixo dos nossos pés.

Referências:
• Neill J. R. & Winiwarter V. Breaking the sod: humankind, history, and soil. Science 304, 1627-1629 (2004);
• Safeguarding our soils. Nat. Commun. 8, 1989 (2017);
• Ontl, T. A. & Schulte, L. A. (2012) Soil Carbon Storage. Nature Education Knowledge 3(10):35.

About the author

Gil Pessanha Penha-Lopes
Tem 36 anos. É um pai recente que dedica a sua vida a estudar a Natureza. Desde 2011, pesquisa soluções de adaptação às mudanças climáticas a serem aplicadas ao nível local, bem como outros paradigmas que sustentem a resiliência comunitária, tais como a Transição, a Permacultura e a Biomimética. Lecciona, desde 2013, no Doutoramento em Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Lisboa.

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