Domingo, Dezembro 15, 2019
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Comunidades sustentáveis em festa

No sábado, 21 de setembro, os residentes da ecovila de Cloughjordan, Co Tipperary, na Irlanda, e a comunidade local em geral, reunir-se-ão no Festival Anual da Maçã para celebrar a colheita, celebrar aqueles que cuidam dos pomares, que trabalham a terra e que produzem comida deliciosa. Chegarão com instrumentos musicais, sacos de frutas para sumos e bolos caseiros – vai haver uma dura competição pelo prémio para a melhor tarte de maçã! As atividades incluem uma visita guiada às 70 variedades de maçã nativas da ecovila, uma visita à produção agrícola apoiada pela comunidade (CSA), que alimenta mais de 100 adultos e crianças, um workshop sobre a conservação de sementes e uma mesa redonda sobre como as iniciativas lideradas pela comunidade estão a regenerar sistemas sociais, económicos e ecológicos. À noite, haverá uma refeição partilhada (a sobremesa é tarte de maçã!) e música
ao vivo.

O evento é apenas um de centenas que têm lugar na Irlanda e em toda a Europa no âmbito do Dia Europeu da Comunidade Sustentável 2019 (EDSC19). O dia consiste numa celebração das comunidades locais que se empenham por uma Europa sem emissões de CO2, regenerativa e inclusiva. Existem milhares destas comunidades em toda a Europa, pioneiras em novas abordagens para uma vida sustentável.

A diversidade destas iniciativas é impressionante – cooperativas para a produção de energias renováveis, explorações agrícolas e jardins comunitários, empreendimentos de habitação ecológica, projetos de permacultura, boleias partilhadas, programas de redução de resíduos, e muitos mais. São prova das inúmeras formas de como as populações locais estão a transformar a sociedade face às alterações climáticas e à degradação ecológica, com algumas comunidades a reduzir o seu impacto ecológico em mais de metade

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A ecovila de Cloughjordan é um dos principais exemplos na Irlanda deste movimento liderado pela comunidade. Originalmente concebida há 20 anos por ativistas ambientais oriundos sobretudo de Dublin, hoje moram aqui mais de 100 pessoas. O espaço inclui albergue, padaria, empresas locais, centro empresarial, jardins de investigação, parcelas, a CSA, floresta, labirinto, espaço de lazer partilhado e um anfiteatro. As casas são construídas de acordo com o padrão de carta ecológica da comunidade, e são aquecidas e abastecidas com água quente a partir de um sistema de aquecimento urbano alimentado a biomassa. A ecovila recebe milhares de visitantes todos os anos, adultos e crianças da Irlanda e do exterior que vêm aprender com esta comunidade pioneira.

A nível nacional, a pegada ecológica da Cloughjordan Ecovillage é a mais baixa na Irlanda, com dois hectares globais (gHa), ligeiramente acima da capacidade ecológica do planeta (um gHa representa a produtividade média de todas as áreas biologicamente produtivas da Terra).

Há muitas outras iniciativas lideradas pela comunidade na Irlanda, como documentado no primeiro relatório de oficial sobre as “Atividades Lideradas pela Comunidade para a Sustentabilidade e as Alterações Climáticas na Europa”, um relatório inovador publicado pela ECOLISE, a Rede Europeia para Iniciativas Lideradas pela Comunidade sobre Alterações Climáticas e Sustentabilidade, em maio deste ano (e disponível para download em pdf:
www.sustainable-communities.net).

A Irlanda tem muitas redes que trabalham em prol da sustentabilidade e de um futuro com baixas emissões de carbono. Várias destas redes pode encontrar-se por toda a Irlanda: Irlanda do Norte e República da Irlanda. Algumas são exclusivamente lideradas pela comunidade, enquanto outras são apoiadas por estruturas estatais. Muitas iniciativas como a Plastic Free e Zero Waste, por exemplo, não estão associadas a nenhuma rede. A Carta da Energia dos Povos, criada em 2013, é um exemplo de participação pública liderada pela comunidade. Desde 2015, as autoridades locais em toda a República da Irlanda criaram a Rede de Participação Pública com a missão de envolver os cidadãos na tomada de decisões locais, enquanto a pioneira Assembleia dos Cidadãos da Irlanda, composta por um presidente e 99 cidadãos, selecionados aleatoriamente para serem amplamente representativos do eleitorado irlandês, apresentou recomendações claras para a ação climática.

O website da Transition Network enumera dez iniciativas na Irlanda, incluindo uma em Kinsale, Co Cork, a cidade onde Rob Hopkins ensinou permacultura antes de regressar a Inglaterra, onde depois iniciou o movimento Transition Town. Uma pesquisa de 2017 mostrou que muitas iniciativas para a transição na Irlanda estavam a colaborar localmente com grupos como a iniciativa cívica Tidy Towns e escolas locais, e nacionalmente com órgãos como a Sustainable Energy Authority Ireland (SEAI). Muitos estavam a ser apoiados por fontes de financiamento como a LEADER.

A permacultura está bem e recomenda-se na Irlanda, com uma rede informal em toda a ilha. Os cursos de Design de Permacultura são oferecidos pela Cultivate Living and Learning, uma organização ligada à sustentabilidade prática com sede em Cloughjordan Ecovillage, e Carraig Dúlra, em Co Wicklow, na costa Leste.

Outras iniciativas lideradas pela comunidade incluem The Hollies e Enriched Earth. O Hollies é um centro de formação em sustentabilidade prática com cerca de dez hectares perto de Enniskeane, em West Cork, propriedade da instituição de caridade educacional An Baile Dúlra Teoranta. O seu objetivo é criar exemplos práticos de como uma sociedade sustentável pode ser em termos de habitação, energia, jardinagem, economia e desenvolvimento comunitário. A Enriched Earth está a iniciar uma ecovila pedagógica no norte de Roscommon como protótipo para uma vida regenerativa e colabora com a Global Ecovillage Network (GEN) para desenvolver uma série de ecovilas em toda a Irlanda, incluindo a Cloughjordan Ecovillage, também membro da GEN.

Outra rede irlandesa notável é a das Comunidades Irlandesas de Energia Sustentável (SEC), formada por mais de 200 comunidades envolvidas ou interessadas em energia comunitária, e apoiada pela SEAI. Algumas têm apoiado o aproveitamento local de energia durante vários anos enquanto outras estão ainda no início. O objetivo da rede é encorajar e apoiar um movimento nacional. Uma SEC pode incluir vários consumidores de energia na comunidade, tais como proprietários de casas, clubes desportivos, centros comunitários, empresas locais e igrejas. Desta forma, uma SEC liga a energia sustentável com o desenvolvimento económico local e o bem-estar público.

Muitas destas iniciativas irlandesas irão juntar-se à Cloughjordan Ecovillage para celebrar o Dia Europeu das Comunidades Sustentáveis, a 21 de setembro. O ECOLISE, o principal organizador do dia, transmitirá mensagens das comunidades aos decisores políticos a nível europeu, ajudando, desta forma, a promover uma maior integração das abordagens lideradas pela comunidade nos grandes desafios do nosso tempo. Celebra-se assim, ao mesmo tempo, a maravilha e a diversidade da ação liderada pela comunidade e a arte de fazer uma boa tarte de maçã.

Todas as comunidades, e todos os cidadãos que estão empenhados na transformação necessária para uma Europa inclusiva, regenerativa e sem carbono, são convidadas a celebrar o Dia Europeu das Comunidades Sustentáveis. Como? Organizando um evento, por mais pequeno que seja, e inscrevendo-o em: www.sustainable-communities.net, disponível em oito línguas.

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