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Esquecido e apagado da memória?

Hoje, dia 17 de junho, recordo um feriado que era festejado na Alemanha durante a minha infância. Na manhã de 17 de junho, eclodiu, em todo o território da antiga RDA, o que posteriormente ficaria registado nos livros de história da Alemanha como a Revolta de 17 de junho. Os trabalhadores das grandes empresas, em particular, entraram em greve no início do turno da manhã e formaram marchas de protesto. Nos dias que antecederam a revolta, a maioria dos manifestantes ainda não tinha consciência da dimensão nacional dos protestos. Com efeito, de acordo com pesquisas recentes, em mais de 500 locais na antiga RDA ocorreram greves, manifestações ou atos de violência contra funcionários públicos ou instituições. A revolta popular de 17 de junho foi reprimida pelo Partido Comunista, em colaboração com as tropas de ocupação da URSS.

Os feriados contêm algo de irreal. Vêm e vão e são esquecidos para sempre. O dia 17 de junho já não existe. Por outro lado, há outras datas que nunca são incluídas no calendário de feriados: por exemplo, o sábado, 26 de abril de 1986, o dia em que o reator 4 da central nuclear de Chernobyl foi pelos ares e contaminou metade da Europa na semana seguinte. Ou o reator japonês de Fukushima, destruído por um maremoto, que colapsou numa sexta-feira, a 11 de março de 2011. Em redor das duas cidades existe, até hoje, uma zona de exclusão de 30 km. Muitos milhares de pessoas perderam a sua terra natal e as suas casas. Não deveríamos, no mínimo uma vez por ano, refletir sobre os escombros inabitáveis que nós, como humanidade, deixamos para trás na Terra?

Em Moçambique, celebra-se o dia 25 de setembro como data da sua independência de Portugal, a antiga potência colonial fascista. E, em Portugal, é festejado o dia 25 de abril como o dia da Revolução dos Cravos, o início da democracia. Mas, só um momento. Será que nesse dia festejamos, realmente, o início da democracia – ou, na verdade, o fim de uma ditadura que durou 48 anos? Não nos esqueçamos desse longo período cinzento que marcou duas gerações da vida dos portugueses e os transformou em silenciados colaboradores da ditadura… E mais, é lícito colocar aqui a seguinte questão. Terá havido, em Portugal, porventura, alguma revisão do fascismo? As vítimas foram reabilitadas? Os criminosos foram condenados? O que aconteceu aos lacaios da PIDE? Ou foi colocado um manto sobre esses 48 anos e à curiosidade das crianças foi respondido que, sobre isto, não haveria mais perguntas a fazer? Ora, então, do que vive a nossa democracia? De perguntas e respostas? De conversas abertas sobre o assunto com crianças que, por vezes, fazem perguntas incómodas nas aulas, que precisam de ser respondidas por testemunhas da época competentes? A democracia vive de debates abertos. Ou não?

 

Uwe Heitkamp (65)

jornalista de televisão formado, autor de livros e botânico por hobby, pai de dois filhos adultos, conhece Portugal há 30 anos, fundador da ECO123.
Traduções: Dina Adão, John Elliot, Patrícia Lara
Fotos: Picture Alliance

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