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DIA 5
De Alte a Salir. Poços antigos com nora

DIA 5
De Alte a Salir. Poços antigos com nora

DIA 5
De Alte a Salir. Poços antigos com nora


19 km. Cheguei ao centro do Algarve. Caminhar também significa entrar em contacto direto com as pessoas e com o seu meio. É isso que um jornalista pretende. Conhecer as pessoas de um país. O que pensam e como se sentem. Logo ao início do quinto dia, ainda em Alte, chego à Ribeira de Alte, que está completamente seca. Antigamente, havia peixes e muitos outros seres vivos nesta ribeira. Era um biótopo cheio de vida onde agora só vejo uma senhora idosa, de 72 anos, a juntar um pouco de mato. Às sextas-feiras vem o vendedor de peixe da costa até Alte. À sexta-feira, a senhora compra peixe para o grelhar no fogareiro a carvão. Paro e converso com ela sobre a cavala, um peixe que começa agora a ser mais apreciado porque as sardinhas escasseiam, o mar quase já não tem sardinha devido à sobrepesca. A cavala é um peixe que esta senhora aprecia muito. Pode ser grelhado, mas também pode ser conservado “alimado”. Para isso, salga-se bem o peixe durante dois dias e dá-se uma ligeira cozedura, depois retiram-se as espinhas e a pele para o colocar em azeite com limão, pimenta e, claro está, alho e um pouco de coentros. Portanto, iniciei o meu dia de caminhada com dois dedos de conversa… Fiquei todo o dia a pensar nesta senhora idosa que conseguiu colocar à prova os meus hábitos alimentares vegetarianos com um prato tradicional português: as “cavalas” ou “carapaus alimados”. Pergunto: O que vai haver depois do prato principal? Ela retorque: Como sobremesa? Sem hesitar, responde que já tem o arroz-doce feito. Com muita canela e as cascas do primeiro limão de um limoeiro recentemente plantado.

Mais um dia que sigo com a minha mochila de oito quilos, agora de Alte a Salir, passando por Benafim. E levo sempre mais dois quilos de água. A caminho de Benafim, passo por milhares de laranjeiras plantadas pelas encostas do vale. Vejo apenas citrinos à minha volta. O caminho passa por entre eles, laranjeiras do lado esquerdo e do lado direito, todas com rega artificial. Abruptamente, termina a plantação e já não há mais citrinos. Continuo por terras desabitadas, solidão. A placa que indicava o acesso para a Quinta do Freixo caiu e ficou apenas o poste. Depois, o caminho segue rodeado por azinheiras, alfarrobeiras, zimbro e muitas outras espécies de plantas e arbustos que, principalmente durante a primavera, são uma festa para os sentidos pela sua beleza e aromas. Imagino esta paisagem natural depois das chuvas, quando a lavanda está em flor e se veem as cores das muitas ervas aromáticas selvagens em flor. No outono só o podemos imaginar, como se fosse uma miragem. Antes de chegar a Benafim vou sempre visitar um carvalho centenário para encher os bolsos de bolotas. Ali, vemos uma quinta antiga com as casas dos trabalhadores. Está tudo desabitado e o telhado abateu. Das janelas só sobraram os aros. Era uma vez…

Dois agricultores trabalham as terras por onde segue o caminho. O primeiro passa com o trator para lavrar, e o segundo aplica adubo sintético na terra lavrada. Ainda há alguns poucos agricultores a cuidar das terras. Provavelmente não sabem que o pastor Idálio Martins tem adubo natural disponível. A comunicação, especialmente a telecomunicação entre gerações e profissões, não tem feito com que as pessoas falem melhor umas com as outras. O pastor de Salir, Idálio Martins, é o único pastor qualificado no Algarve que tem uma visão para o futuro. Abriu uma leitaria junto aos estábulos, uma pequena produção para processar o leite das suas 150 cabras. Criou três postos de trabalho. Produz queijo fresco de cabra, que vende nos minimercados das localidades da região. Os tratores continuam a levantar pó, remexendo a terra seca, e na beira do caminho estão laranjeiras abandonadas e velhas com folhas secas, quase mortas. Muitas das folhas já caíram. A água de rega escasseia. São os prenúncios das alterações climáticas. A maioria das pessoas nos seus carros, escritórios e apartamentos climatizados, ainda não o notaram. Em finais de outubro, 31 graus Celsius envolvem esta paisagem abandonada do interior. Os seus efeitos são principalmente sentidos pelas árvores e plantas, pelos animais a pastar e pelo caminhante solitário em direção a Este. Os turistas nas praias do Algarve, 30 km mais a sul, estão contentes porque faz sol. As praias do Algarve estão em alta. Ao chegar ao primeiro café da aldeia, o caminhante pede uma bica e uma água. É meio-dia e ele merece um segundo pequeno-almoço…

Quinta abandonada

Chego junto ao carvalho que os botânicos dizem ter pelo menos 600 anos de idade. Tive que passar novamente a EN124, desta vez em Benafim. Fico perplexo ao reparar que um dos seus enormes ramos se encontra partido. Pergunto ao vizinho que está a trabalhar na horta do outro lado da estrada se foi um raio, o que se passou? Não me sabe indicar a razão, mas sabe a data e hora em que aconteceu. Foi pouco depois da meia-noite. Até a terra tremeu. Quase que caiu da cama. Os serviços de Loulé tiveram que criar um suporte de madeira para os restantes ramos, porque, desde então, a árvore ficou desequilibrada. É o princípio do fim provocado também pela secura do solo e pelo facto de estar junto a uma estrada por onde passam centenas de carros por dia. O chão está coberto de bolotas. Escolho cinco, faço uma pequena pausa, e, pouco antes da uma hora, prossigo a caminhada em direção a Este.

“Caminhar, comer, dormir” é o título do livro de uma caminhante de longo curso alemã, que fez este caminho antes de mim. Christine Thürmer partiu de Sagres, passou por Tarifa, em Espanha, para depois seguir até Nordkapp, na Noruega, uma caminhada de meio ano e 4.500 km, do ponto mais a Sudoeste até ao ponto mais a Norte da Europa. Não pretendo ir tão longe. Por agora, vou até Salir, onde passo a próxima noite. Mas ainda não encontrei um local para almoçar hoje e não tenho 50 euros para um quarto individual. Peço ajuda externa: A Stefanie marca-me uma cama por 15 euros pouco depois de Salir, num Alojamento Local chamado Casa Nova, em Alagoas. É aí que este caminhante cansado irá descansar.

Há quem prefira desportos radicais. Há alguns anos houve uma pessoa que fez todo o percurso de 300 km da Via Algarviana em três dias. Partiu de Alcoutim, na fronteira espanhola, e chegou ao Cabo de São Vicente 75 horas depois. Eu fi-lo em 78 horas, repartidas por 14 dias. É o que considero mais agradável para o meu passo. Viajar envolve tempo para se poder observar as alterações nas vivências e na paisagem. Fiz a antiga Rota Vicentina e a Via Algarviana, já por 12 vezes. Sozinho, mas também com uma equipa de filmagens para o meu documentário “Herdeiros da Revolução”. Nunca esteve tão quente em outubro. Nunca vi tantos prenúncios para as alterações climáticas diante de mim e, simultaneamente, nunca vi tantas pessoas desorientadas a caminho.

 

Cruzo-me com dois casais no percurso demarcado e trocamos dois dedos de conversa. Estão cá de férias por uma semana. Um casal é dos Países Baixos e o outro é da Alemanha – e, claro que vieram de avião. Aterraram em Faro para estar cá uma semana. O que haviam de fazer? Que tal o comboio?! Vão caminhar durante cinco dias de Loulé até Silves. Depois, provavelmente um táxi irá levá-los ao aeroporto para o voo de regresso. O impacto ambiental de uma viagem dessas para o clima é desastroso. Também é possível fazer caminhadas perto de casa, ou não? Que sentido faz caminhar para ser amigo do ambiente, mas, ao mesmo tempo, voar e prejudicar o clima? A viagem de comboio só provocaria cinco por cento das emissões de CO2 comparativamente ao avião. O que se passa com as pessoas? O que pensam quando evitam pensar nas alterações climáticas?

 

Pouco antes de Salir.

Já é de tarde e desloco-me com dificuldade por um caminho cheio de pedras pontiagudas, presas na terra seca e dura do caminho. Passo pela única bomba de gasolina entre a EN124 e o acesso à EN270 e entro num caminho agrícola à esquerda. Rumo novamente a Este e continuo a caminhar sempre em frente nesta terra barrenta. Vejo um lago de rega artificial que serve um laranjal em monocultura. Descubro o lago e a plantação atrás de uma vedação alta e de um dique em pedra.

A terra aqui é tão barrenta que me recordo como colava aos meus sapatos. Mas é apenas uma recordação. Há meses que não chove e o solo está muito duro, parece pedra. Porém, há dez anos atrás, quando fiz este troço, choveu durante 12 dias. Fiquei completamente encharcado. De tempos a tempos, com a navalha, era obrigado a retirar o barro que se colava à sola dos meus sapatos de caminhada, porque senão escorregaria pela encosta abaixo. Que queres mais, digo a mim próprio, tens caminhado bem e conheces o caminho como a palma das tuas mãos. Agora, tenho que virar à esquerda e descer a montanha. Mas parece-me que algo aqui está mal. Ainda me lembro que, daqui, segui por uma subida ingreme, mas agora estou a descer. A marcação vermelha e branca indica que tenho que virar à direita. Chego a uma pequena floresta onde foram cortadas algumas árvores que tapam agora o caminho. Isto acaba aqui? Quem foram os malandros que alteraram as marcações? Onde estão os salteadores? Estarei a sonhar? Tenho que ter muita atenção para não cair. Uma pedra solta pode deitar-me ribanceira abaixo com a mochila. Mas não – não vou tropeçar e cair, e também não se trata de uma cilada do Robin dos Bosques. Volto até à última marcação e faço novamente o caminho até às árvores cortadas, e sei que tenho que tomar uma decisão, independentemente da marcação enganadora. Estou a descer do Cerro e pretendo chegar à Pena e seguir dali pela direita, passando Calçada para chegar a Almarginho.

Cá estou eu neste maravilhoso Algarve, com árvores centenárias e habitantes que ainda valorizam os tempos livres. A sinalética encontra-se interrompida aqui e há outra que aparece do nada a indicar o caminho de volta para Cerro. Portanto, sigo um caminho que decido ser o meu caminho, o caminho certo. Começo a praguejar e a maldizer a associação Almargem. Esta sinalética está uma miséria. Calma. Vou comer uma laranja e uma banana para me acalmar. Talvez tenha sido algum engraçadinho a brincar com os postes e as pedras onde estão fixas as marcações, virando-as. Por vezes, fazem brincadeiras dessas. Talvez me estejam a filmar para os apanhados? Quero chegar hoje a Salir e hei de consegui-lo a todo o custo, mesmo perante marcações a mandar-me voltar para trás. Vou seguir o meu caminho. As marcações vermelhas e brancas já não me interessam. Deixaram de ser importantes.

Chego rapidamente a uma estrada de alcatrão e agora as marcações estão novamente corretas. Estou de volta à civilização, na pequena localidade de Calçada e, após 50 metros, já estou em Cerro de Cima. Depois, continuo para Cerro de Baixo e acabo em Almarginho. Vejo pessoas a descansar sentadas frente a suas casas. Aqui, o stresse não existe. Admiro as árvores, minhas amigas, de ambos os lados do caminho. De repente, as casas estão quase todas habitadas. Aqui e ali vejo um trator, uma máquina agrícola, e galinhas, que também andam pelo mesmo caminho. Há cães atrás das vedações e dos muros a ladrar, curiosos, avisando da minha passagem. Estas árvores devem ter centenas de anos. Têm aquele cheiro a terra molhada que atesta isso mesmo. Não têm pernas e não podem ser levadas de um lado para o outro da estrada. Parece que estavam à minha espera. Há nozes pelo chão. Que beleza incrível. Dá vontade de gritar de alegria. Têm uma casca tão rugosa, parece pele de elefante, é adorável! Cirando por elas a colecionar bolotas e nozes do chão. Que pena não haver mais destas maravilhas pelo caminho! Que bom que seria se as pessoas vivessem em paz e harmonia com todos os seres da natureza! Aqui, ninguém pensaria em abater estas árvores com uma motosserra.

Romãzeira com romãs

Chego a Fonte Figueira, onde encontro as mais belas e saborosas romãs de todo o percurso. Um dos frutos está a meus pés. Caiu para o caminho. Tiro uma foto para provar que ainda estou numa realidade diferente daquela em que tudo o que conta é o dinheiro, dominando a vida e destruindo a natureza. Quando chego a Fonte Figueira, um nome que foi dado pelos mouros a este “enclave”, também chego ao primeiro poço com nora ainda intacto nesta região. É um museu agrícola em atividade neste local onde, há milhares de anos, é valorizado o que é sagrado para as pessoas: terra fértil e água abundante, mesmo no outono. Claro que é uma abundância relativa, mas chega para encher os tanques até acima. Tenho vontade de largar a mochila e tomar um banho num destes tanques. Este é um daqueles momentos mágicos numa caminhada. Realmente, só há água onde ela é tratada com respeito…

Ainda bem que, neste momento, passa um carro com duas freiras, o que me demove da ideia do banho. Viro costas e continuo em direção a Salir, ainda à procura de um local para almoçar, apesar de já serem quatro da tarde. Não vai ser fácil, mas ao entrar num restaurante, encontro o senhor Igor. Nesse momento, ainda não sabia das surpresas que esse dia me traria.

Que bom ter-me cruzado com o Igor, que me serviu uma sopa de couve e uma garrafa de sumo de fruta, que bom que pude comer uma refeição sem carne. Ele também tem um queijo fresco de cabra da leitaria de Idálio Martins, uma preciosidade ecológica. Se alguém hoje de manhã me tivesse dito que iria encontrar uma pessoa que me é querida, e que não via há anos, nunca me teria lembrado do Igor.

Foi meu colega durante muitos anos num semanário que publiquei durante 15 anos. Agora, cozinha e dirige este restaurante, tornando-se no herói do meu quinto dia de caminhada. A partir daqui tudo correrá bem – só pode. Foi uma grande surpresa que nem a trapalhada das marcações vermelhas e brancas conseguiu impedir que acontecesse. São quatro da tarde, tenho um lugar livre para me sentar e ainda por cima convidam-me para o almoço. Fico perplexo, quase sem palavras. Tiro o chapéu para o pôr na cadeira livre ao meu lado. E até há arroz-doce para sobremesa. Tornei-me amigo do Igor há muitos anos. Ele tem família natural de Cabo Verde, da ilha Santo Antão. Estudou Alemão em Lisboa e começou a trabalhar no nosso jornal como tradutor. Uma vez, trouxe-me três grãos de café da ‘sua’ ilha africana. Deu-mos e perguntou-me se conseguiria transformá-los em três plantas de café em Monchique. Agora, está a servir-me café, feito na sua máquina. Estamos em Salir, no restaurante “A Villa”. Não sou o único caminhante a passar por aqui. Era só uma questão de tempo, disse o Igor com um sorriso. Há muito que te espero.

Pouco depois de Salir.

Quem procura um sítio para passar a noite em Salir tem como opção a Casa da Mãe ou terá que seguir mais quatro quilómetros até Alagoas, para chegar à Casa Nova da D.ª Margarida e do Sr. João, que fica mesmo junto ao caminho. Passa-se por lá automaticamente quando se segue a caminhada para Cortelha e Barranco do Velho. Para quem trouxer uma tenda, este é o único parque de campismo oficial nesta rota. Mas também há uma casa de madeira e outra para hóspedes. Depois de Salir, sigo através das hortas abandonadas da aldeia. É um caminho bonito, o mais bonito de toda a Via Algarviana, estreito e selvagem e com surpresas atrás de cada curva. Novamente, descubro árvores centenárias: alfarrobeiras contorcidas, olivais, azinheiras com raízes da grossura de um braço. Coleciono bolotas e sementes destas árvores até ter cinco quilos, para depois semear no novo Jardim Botânico Florestal nas Caldas de Monchique. Descubro a diversidade esquecida em Salir e nesta região do Algarve, marcada pelo legado dos mouros. Entretanto, já tenho os bolsos completamente cheios. Chego ao portão verde da Casa Nova, uma casa sempre aberta para receber os caminhantes.

Uwe Heitkamp (60)

jornalista de televisão formado, autor de livros e botânico por hobby, pai de dois filhos adultos, conhece Portugal há 30 anos, fundador da ECO123.
Traduções: Fernando Medronho & Kathleen Becker
Fotos: Uwe Heitkamp, Henk Hin

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