Quarta-feira, Maio 24, 2017
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O mundo no antropoceno*

Quando uma pessoa define a cultura como algo único criado pelo Homem, esbarra na sua retrospetiva, em primeiro lugar, na agricultura. Aquilo que as pessoas encontraram durante o seu desenvolvimento na Terra, foi uma natureza paradisíaca, mas selvagem, que era encantadora, mas da qual ainda têm medo, até hoje. A sua cultura exige, por isso, sedentariedade nas cidades e talvez o turismo tenha nascido, com o decurso dos anos, porque as pessoas continuam a ter inscrito nos genes o nomadismo, o Viajar – ainda que apenas por pouco tempo no ano.

As comunidades tornaram-se aldeias, depois cidades e, desde a Idade Média, também Estados. Agora chegámos à globalização. Isso significa, por exemplo, também, que 51% da humanidade se entende agora em apenas 19 idiomas e os restantes 49% falam perto de 7.100 idiomas. Os linguistas suspeitam que dois terços desses idiomas vão extinguir-se até ao fim deste século. Desde 1970 que já não existem 30% das línguas então faladas. A globalização devora as suas crias. Porque as pessoas não observam a extinção só na natureza, mas também na sua própria cultura. Elas próprias perdem a diversidade e mal dão por isso, porque acontece de geração para geração.

Nove das 19 grandes línguas da sua civilização têm um produto agrícola principal, o arroz, as outras dez, o trigo. Mas o cultivo do arroz parece estar em posição de manter populações grandes e densas e faz uma grande diferença em termos de organização social: elevada taxa de natalidade, baixa mortalidade infantil e elevada esperança de vida. O que desse modo se perde é a riqueza em natureza. A perda de multiplicidade biológico-genética, a morte das espécies, é um fenómeno, e vem acompanhado com a permanente globalização das redes de comunicação, o comércio mundial de pessoas, a expansão da Internet, a comunicação móvel; e o TTIP apenas virá reforçar esta situação. Mas a resistência é cada vez maior. E qual será a alternativa que as pessoas querem?

As pessoas chegaram a uma encruzilhada e têm de decidir se querem continuar a percorrer o caminho que têm percorrido até agora: o da agricultura mecanizada e industrial, com todas as suas consequências; com a continuação do desmatamento das florestas, a tecnologia genética e a contínua destruição dos solos através de fertilizantes químicos, pesticidas, herbicidas e fungicidas, com o chamado comércio livre mundial e um sistema de transportes excessivo OU, se preferem aprender com a experiência e, assim, trilhar outro caminho. Quererão organizar-se de outro modo no que toca ao comércio e à agricultura regional e local – viver organicamente em harmonia com a natureza – e praticar comércio justo, essencialmente com menos transportes sem sentido e que acarretam gastos intensivos de energia? Quererão encher novamente os seus mercados com muitos e diversos produtos cultivados organicamente de modo tradicional e locais e, desse modo, recuperar a sua boa vida?

Isso implicaria também optar por uma vida saudável e lenta, por uma organização descentralizada a todos os níveis. Porque, do ponto de vista ecológico, a cidade é um corpo estranho na natureza, o que muitas pessoas também sentem intuitivamente e as faz procurar todas as ocasiões para estarem em contacto com a natureza. Porque querem caminhar, ir até ao pé do mar e à praia, porque procuram um lugar sossegado à beira de um ribeiro para organizar um piquenique, porque sobem ao Monte Evereste?

A alimentação do mundo começa em cada um, diante da porta de casa. No entanto, quem mora na cidade tem azar, porque entre alcatrão e betão não crescem nem arroz, nem trigo, nem batatas. Comparado com a vida na quinta, o centro comercial é só um espetáculo apresentado diariamente, com muita publicidade e muitos outros tipos de produtos no meio dos alimentos: vestuário, cosmética e cinema. Basta um terramoto ou outra catástrofe natural e logo falhariam os ares condicionados e os sistemas de abertura das portas, assim como o abastecimento para as inúmeras prateleiras. As pessoas tornaram-se dependentes do conforto, convenceram-se de que torna a vida mais fácil e de que o lugar no sofá diante do televisor é um lugar seguro. Isto pode estar certo para alguns, para quem a telenovela é mais importante do que a vida real. Porque nessa sujam-se os dedos e é preciso suar – como na agricultura biológica, a mexer na terra.

A conservação da natureza, contudo, está a colocar as pessoas num conflito permanente com o seu modo de vida. Só resta uma saída: as pessoas têm de regressar às florestas e, no jardim, colocar uma semente na terra e sensibilizar os seus sentidos. Uma visita ao jardim zoológico pode proporcionar um momento de calma, uma vista para o mar, até à linha do horizonte. Com isso, aguça-se a sua perspectiva. Serve para a verdadeira conservação de flora e fauna do seu biótopo. As pessoas e a sua saudade, talvez assim destruíssem um pouco menos o seu sustento.

*Título de um livro na Editora www.oekom.de de Wolfgang Haber, Martin Held, Markus Vogt.

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