Quarta-feira, Novembro 22, 2017
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A última palavra

Caminhar na Natureza é um dos exercícios físicos mais simples que temos ao nosso dispor. Os nossos músculos e o nosso sistema nervoso são incrivelmente aliviados por esse movimento há tanto tempo praticado pela nossa espécie. Andar a pé é um exercício primordial caído no esquecimento.

Quando nos erguemos e tornámos bípedes, tivemos a necessidade de usar mais movimento em espiral para apoiar o andar, a fala, e evitar a queda desta “torre gregária”. Comparativamente a um cão, temos muito mais músculos para rodar o nosso corpo. O grupo muscular do manguito rotador adora o balançar rítmico do caminhar e pode fazer com que todo o nosso sistema de tecidos moles descontraia, libertando os padrões fixos de tensão que todos temos.

Os flexores, músculos da parte dianteira do nosso corpo, estão mais ligados às emoções. Nas reações de lutar, fugir ou congelar, o nosso sistema nervoso pode provocar, e muitas vezes provoca, um encurtar crónico desses músculos perante o que parece ser ou é uma ameaça. Com isso perdemos a capacidade de dar uma passada larga com faci-
lidade. Avançamos com os nossos quadríceps – e a pressa e pressão passam a caracterizar a nossa forma de locomoção. A anca e a cabeça passam a liderar. Sentimos cansaço. Não nos sentimos bem.

Caminhar na natureza pode descontrair os nossos flexores: o sistema nervoso sente-se seguro e os nossos corpos podem-se recompor das reações que provocam níveis de adrenalina elevados e de um sistema nervoso simpático “em brasa”, algo tão comum nas nossas vidas e que está por detrás de tantas doenças.

O quotidiano frequentemente pode levar a longos períodos em posição sentada, combinados com uma postura curvada da coluna vertebral – longos períodos inativos e de movimentos repetitivos, que por vezes fazemos durante toda a vida.

Para se caminhar com a pélvis liberta, que roda, sobe e desce, o movimento em oito a três dimensões tem que vir da coluna vertebral e das ancas. Há muitas situações em que o nosso movimento pélvico é afetado de alguma forma pelo medo de conotações sexuais, ou medo de nos exprimirmos ou expormos. Tentamos controlar essa nossa região central restringindo o seu movimento. Por isso, não damos liberdade de movimento às nossas ancas quando estas podem comunicar com alguém. No entanto, na floresta, podemo-nos pavonear novamente; só as árvores é que estão a ver. Podemos confiar novamente nas nossas articulações triaxiais ou uniaxiais, procurando o contacto bom e determinado com o solo, pelo nosso fémur até aos pés. Seremos recompensados pelo impulso da própria terra, que nos empurra, retirando esforço ao andar. É muito difícil fazer a experiência desse efeito de impulso gravitacional sobre um chão duro e muito liso. Precisamos das curvaturas e das covinhas do solo descoberto.

Essas superfícies duras em que andamos com sapatos calçados não favorecem os nossos pés, neles torcidos e apertados. Sapatos macios ou andar a pé permite às 22 articulações delicadas do pé cumprirem a sua função de amortecimento, abrindo-se. A elevação inicia-se lá em baixo, onde a importante articulação do dedo grande do pé dá o seu impulso e ativa uma reação em cadeia até aos “poderosos” adutores, esses músculos do interior da perna que tantas vezes ficam passivos. A ativação do poder, frequentemente subestimado, desses músculos pode evitar o desgaste do quadril.

Quando caminhamos e a nossa pélvis se pode movimentar livremente, transmite-se aos músculos inferiores da nossa coluna vertebral aquele balanço e alongamento, e aquela rotação e contração que eles gostam, uma alteração contínua da sua forma. Precisam dela. São os músculos “anti gravitacionais” que trabalham continuamente para nos manter de pé. É um trabalho duro. Não se dão bem com as condições de sobrecarga estática a que são expostos tantas vezes. É esta uma das soluções para as dores nas costas. Caminhar regularmente na natureza pode prevenir e ser uma grande ajuda no alívio das dores na parte inferior das costas.

A oscilação cruzada que o andar a pé transmite quando caminhamos a bom ritmo ajuda a descontrair os músculos do pescoço, fazendo com que a cabeça deixe de querer avançar apressada, voltando a colocar-se no seu lugar, no topo. Os músculos dos ombros conseguem livrar-se da trama de preocupações e problemas, deixando-a para trás. Os músculos da respiração conseguem exalar e libertar um suspiro, sentindo-se novamente em casa na Natureza, seguindo-se a abertura do coração e do tórax com a inalação. E acabamos por descontrair mais profundamente, recordando-nos que também fazemos parte da Natureza

Jane Moore

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