Sábado, Julho 22, 2017
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Pedrógão Grande

Relembrar. O que iremos relembrar do fim de semana de 17 e 18 de junho de 2017 daqui a um ano, daqui a dois anos, daqui a dez anos, ou seja, em 2027? O que iremos mudar nas nossas vidas nesse espaço de tempo e o que iremos querer perante as horríveis imagens e as muitas vítimas dos incêndios florestais? Porque até hoje o que ardia todos os anos era a floresta, a fauna, a Natureza – e essas, como sabemos, não conseguem falar. A Natureza não tem lobby. Qual será a próxima questão? Qual será o próximo tema? A questão central é: estaremos dispostos a mudar algo nas nossas vidas? Para isso temos que reconhecer que cometemos erros graves e conseguir assumir esses erros. Hoje e agora; sem dó e com abertura para o que resultar disso, sem tabus. Queremos isso? Ou pretendemos somente tocar a superfície, como de costume?

Começo o meu dia com as imagens dos carros incendiados, a vítima queimada coberta por um lençol deitada na estada. A morte bateu-nos à porta. As imagens não me saem da cabeça. Temos que procurar as causas para que estas mortes não tenham sido em vão. Ou não? Ou será melhor varrer o que aconteceu para debaixo do tapete, como tem acontecido até aqui?

Errámos no caminho. Vamos confessar que uma grande parte do caminho percorrido por nós desde 1974 foi um erro? Já que antes de 1974 a direção que seguíamos estava errada – como saber agora se o caminho tomado depois de 1974 foi o correto? Tudo começou por causa do dinheiro, não foi? Ou serão a ganância e o medo que nos tornam desorientados e insensíveis para o caminho certo? Todos nós queremos ser felizes e, no entanto, somos tão infelizes, especialmente agora que muitos de nós perderam quase tudo, a vida, a Natureza, tudo à nossa volta ardeu. E vai continuar a arder!

É a água que nos dá vida. Sem água estaríamos todos perdidos. É também isto que afirmam os poucos que sobreviveram na aldeia Nodeirinho. Os onze que morreram queimados não tinham água e só os que se puderam molhar numa cisterna sobreviveram ao fogo. Se sabemos tão bem que a água é o elixir da vida, porque não subjugamos todo o resto a esse elemento? Porque plantamos eucalipto, se sabemos que o eucalipto nos retira a água para a transformar em óleo, e que arde tão facilmente? Seremos cobardes demais para enfrentar as multinacionais Navigator/Portucel/Soporcel/Semapa, vendendo-nos por alguns euros a essas empresas? Há anos que sabemos que o eucalipto é um terrível agente acelerador de incêndios. Reforça qualquer incêndio florestal. E ainda não cheguei ao fim da minha historia.

Também sabemos que o nosso lar no campo, a casa, a quinta e as terras nos protegem quando geridas corretamente, sustentavelmente, quando amamos a nossa Terra. O bom gera coisas boas. Quem cozinha a gás tem que saber que uma bilha de gás pode explodir com o fogo. Porque não plantamos mais sobreiros e árvores que são boas para o ambiente natural do nosso país? Porque não construímos cisternas para armazenar a água da chuva no inverno para que não falte no verão?

Quem sabe que nós, seres humanos, somos as criaturas mais estúpidas deste planeta, quem tem portanto consciência da sua própria ignorância e impotência, dos seus erros e da sua falta de memória, já deu o primeiro passo no caminho e na direção certa. Somos um grão de areia na engrenagem do Universo, e o facto de existirmos, este milagre chamado ser humano, deve ser celebrado com meditação cuidada e humildade. No bom sentido. Nos próximos dez anos deveríamos melhorar muito do que temos vindo a fazer até aqui. Só assim faz sentido chorar as mortes de Pedrógão Grande, só assim faz sentido recordá-los daqui a dez anos. Só assim este luto profundo, que me faz chorar ganha um significado.

O eucalipto tem que desaparecer para longe das aldeias habitadas, longe das fontes e dos cursos de água, e o Estado tem que taxar cada eucalipto para poder equipar melhor as equipas de Bombeiros. O preço do eucalipto tem que ser correspondente aos danos provocados pelos incêndios. Melhor ainda, o seu preço tem que ser tal que já nem valha a pena plantá-lo. E assim talvez volte a fazer sentido reciclar papel em grande escala.

Sabemos que não vivemos de forma sustentável. A maior parte das pessoas nem conhece essa palavra, e muito menos o significado de sustentabilidade. Mas sabemos que com a velocidade do vento a mais de 30 km/h, com menos do que 30% de humidade relativa e mais de 30 graus Célsius, um incêndio florestal é praticamente imparável. Sabemos que não deveríamos queimar mais energias fósseis: nem óleo, nem gás, nem carvão, e que não deveríamos usar o plástico. As alterações climáticas, fruto da atividade humana, vão ditar as futuras condições de vida do nosso planeta Terra. Não somos só pessoas a mais, também somos pessoas a mais a viver de forma insustentável. E temos que aprender a compreender que só estamos cá de visita por um curto espaço de tempo, e que há outras gerações após a nossa.

O respeito pelo próximo e pelo meio ambiente que nos rodeia requer prática. Isso significa que se tem de começar em casa, de pequenino, e também na escola. É lá que nos estão a ensinar? Nunca iremos ter lições suficientes sobre o que significa agir de forma altruísta no viver e no SER – sem pensar sempre só em TER, por sermos gananciosos e subjugarmos tudo ao dinheiro. Os incêndios em Portugal não irão acabar de um dia para o outro. Mas talvez os políticos que elegemos agora tenham compreendido que chegou a altura de agir. Têm que se debruçar sobre a temática dos eucaliptos, têm que introduzir aulas sobre a proteção ambiental nas escolas. Têm que se tornar exemplos se querem ser levados a sério.

Portanto, como queremos viver?

About the author

Uwe Heitkamp, 53 anos, jornalista e realizador, vive 25 anos em Monchique, Portugal. Adore caminhadas na montanha e natação nas ribeiras e barragens. Escreve e conte histórias sobre os humanos em relação com a ecologia e a economia. Pense que ambas devem ser entendido em conjunto. O seu actual filme “Herdeiros da Revolução” conta durante 60 minutos a história de uma longa caminhada, que atravessa Portugal. Dez protagonistas desenham um relatório da sua vida na serra e no interior do país. O filme mostra profundas impressões entre a beleza da natureza e a vida humana. Qual será o caminho para o futuro de Portugal? (Assine já o ECO123 e receberá o filme na Mediateca)

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